O Insurgente

Abril 1, 2008

A imigração é benéfica?

Arquivado como: Internacional, Política, União Europeia — Rui Oliveira @ 10:34 am

Sempre que ouvimos falar de imigração, é costume dizerem-nos que ela é benéfica, vem desenvolver o país, etc. No entanto, hoje, das ilhas britânicas chega-nos uma notícia diferente.

Assim, no Reino Unido, onde o fenómeno tem dimensões que não tem em Portugal, devido à política aberta de imigração dos governos trabalhistas, saiu hoje um relatório redigido por uma comissão da Câmara dos Lordes, que, segundo o resumo feito pelo The Telegraph, conclui que o Reino Unido não beneficiou com esta imigração maciça:

The number of immigrants entering Britain should be capped, an influential House of Lords committee has warned.

Its analysis concludes that record levels of immigration are bringing no economic benefit to the country.


Segundo a notícia, as conclusões do relatório são as seguintes:

 

- There is little or no economic benefit to Britain from the present high level of immigration. The immigrants are not needed to fill labour shortages or help fund the state pension for retiring Britons.

 

- High levels of immigration threaten to price millions of Britons out of the housing market over the next 20 years.

 

- Government statistics on immigration are “seriously inadequate” and compromise the ability accurately to set interest rates and allocate £100 billion in public funding.

- Certain groups, including the low-paid, some ethnic minorities and young people seeking to get on the jobs ladder may suffer because of competition from immigrants.

- Immigrants have an “important economic impact” on public services with some schools struggling to cope with the rapidly-rising number of children who do not speak English as a first language.

[...]

Lord Wakeham said: “The argument put forward by the Government that large-scale net immigration brings significant economic benefits for the UK is unconvincing. We have found no evidence to support their position.”

O relatório completo pode ser encontrado aqui.

Será que, na Grã-Bretanha, vão, a partir deste relatório, conseguir fazer uma discussão séria sobre a imigração. É que, em redor deste assunto, há demasiados mitos.

24 Comentários »

  1. A Suíça tem um nível de imigração muito superior ao do Reino Unido, e não se queixa.

    Comentário por Luís Lavoura — Abril 1, 2008 @ 12:04 pm

  2. Um mínimo de bom senso é suficiente para se chegar às conclusões desse relatório. Não obstante, há muito tempo que economistas que, de facto, estudam a imigração, como Barry Chiswick ou George Borjas, denunciam os efeitos nocivos que aquela tem na economia e nas classes mais desfavorecidas.

    Comentário por Tiago — Abril 1, 2008 @ 12:18 pm

  3. A Suiça tem um nível elevado de desenvolvimento “apesar da imigração” e não “por causa da imigração”.

    Comentário por Tiago — Abril 1, 2008 @ 12:19 pm

  4. Acho que o problema está já na forma como a pergunta é formulada: “a imigração é benéfica?”; “benéfica” para quem? em principio a imigração é benéfica para os imigrantes e para quem contrata os serviços dos imigrantes e é prejudicial para quem “vende” os mesmo serviços que os imigrantes.

    Comentário por Miguel Madeira — Abril 1, 2008 @ 12:32 pm

  5. A imigração é benéfica? Depende da política de imigração.

    Comentário por Carlos G. Pinto — Abril 1, 2008 @ 12:46 pm

  6. Se consideram benéfico a divisão dum já pequeno bolo por mais cerca de 20% de imigrantes que deve ser o nosso caso…
    O 2º MELHOR acolhimento da Europa( o NOSSO) sai de facto caro, muito caro aos contribuintes e mesmo aos POBRES indígenas, para além dos trabalhadores que eleitos “excedentários” vão trabalhar para o estrangeiro, onde descontam para a segurança social.É que a nossa economia é das ÚLTIMAS…o que não sustenta tanta benemerência…
    Claro que quem tem sopeira ilegal ou imigrante legal não se queixa.As empresas que despedem trabalhadores Portugueses para admitirem imigrantes mais baratos também não.Mas como se costuma dizer o barato sai caro.Os nossos impostos é que depois “puxam” o imigrante para níveis de rendimento aceitável, mas pelos vistos rapidamente insuficientes, mercê dos assaltos, protituição, etc
    Vão rebentar com o nosso país.Boa parte dos activos masculinos nacionais andam no estrangeiro.As mulheres permaneceram e ou se casam com um drogado ou com um imigrante.Família do nosso emigrante e do imigrante a viver da segurança social.Quem diz que isto é sustentável?Deixem de importar a pobreza!

    Comentário por Miles — Abril 1, 2008 @ 1:43 pm

  7. ““benéfica” para quem? em principio a imigração é benéfica para os imigrantes e para quem contrata os serviços dos imigrantes e é prejudicial para quem “vende” os mesmo serviços que os imigrantes.”

    Certo, embora me pareça mais acertado afirmar que os efeitos económicos da imigração são positivos para alguns, neutros para outros e negativos ainda para outros; sendo o efeito global positivo. É um caso idêntico ao do comércio livre. (Efeitos económicos porque a imigração terá consequências culturais ou no âmbito da segurança nacional que serão mais dúbias).

    “…como Barry Chiswick ou George Borjas, denunciam os efeitos nocivos que aquela tem na economia e nas classes mais desfavorecidas”

    Não conheço o trabalho académico do Chiswick, mas nas intervenções públicas sobre o assunto recorre frequentemente a argumentos equívocos, senão bizarros. O George Borjas estuda o efeito da emigração nos salários dos trabalhadores menos produtivos e conclui que este é negativo. Poderá ser assim (há quem chegue a conclusões diferentes - e.g. http://www.philadelphiafed.org/econ/conf/immigration/card.pdf ), mas daqui não decorre que o efeito global seja negativo, muito menos que seja possível aos governos adoptar políticas públicas de restrição da imigração eficientes. Uma vez mais, a analogia com a liberdade comercial é útil.

    Comentário por HO — Abril 1, 2008 @ 2:09 pm

  8. O HO acredita que o mercado de trabalho e o mercado de bens e serviços podem ser tratados do mesmo modo?

    Comentário por Tiago — Abril 1, 2008 @ 2:28 pm

  9. Vão aqui:
    http://democraciaemportugal.blogspot.com

    Vejam se é bom para o país!!!

    VERGONHA!!!

    Comentário por Tiago Carneiro — Abril 1, 2008 @ 2:40 pm

  10. A liberdade regulada por estritos direitos de propriedade é sempre benéfica.

    Mas o problema é que existe a presença do Estado e a sua social-democracia, do voto universal e o poder maioritário.

    E assim, livre imigração e livre comércio não são a mesma coisa.

    Comentário por CN — Abril 1, 2008 @ 3:23 pm

  11. “O HO acredita que o mercado de trabalho e o mercado de bens e serviços podem ser tratados do mesmo modo?”

    Não sei o que entender por “tratados do mesmo modo”; os mecanismos de funcionamento de um e de outro são idênticos. A analogia entre os os movimentos migratórios e o comércio livre que referi funda-se no facto de os efeitos económicos de ambos serem globalmente positivos (e.g. são óptimos instrumentos no combate à pobreza global) e que pretender endereçar a questão dos eventuais “perdedores” (é legítimo admitir a sua existência em ambos os casos) via proteccionismo é uma solução extremamente ineficiente. Para mais, o rationale utilizado por quem a defende é moralmente muito dúbio.

    “Depende da política de imigração.”

    Sou muito céptico quanto à possibilidade de definir uma “política de imigração”. Os governos podem adoptar políticas de controlo e monitorização de fronteiras, por razões securitárias; políticas de protecção, ou promoção activa, dos valores e tradições, morais e culturais, nativos e uma política de redistribuição que vise diminuir o impacto económico dos movimentos migratórios sobre algumas franjas da população - não sei até que ponto isto poderá ser articulado como uma política de imigração. Concordo com o primeiro tipo de políticas; o segundo dependerá das situações concretas.

    Comentário por HO — Abril 1, 2008 @ 3:40 pm

  12. “A liberdade regulada por estritos direitos de propriedade é sempre benéfica.”

    Ou é sempre ou não é sempre.

    “Mas o problema é que existe a presença do Estado e a sua social-democracia, do voto universal e o poder maioritário.”

    Isso não é tudo um problema - no máximo, serão problemas diferentes, visto que da existência do estado não decorrem os restantes.

    “E assim, livre imigração e livre comércio não são a mesma coisa.”

    É evidente que não são a mesma coisa; admitindo-se políticas proteccionistas devido à existência do social welfare, então elas também serão legítimas face à existência do corporate welfare.

    Comecei a ler o estudo e, pelo abstract, é de ponderar ter existido alguma precipitação do jornalista (ou, porventura, dos Lordes). Os autores não colocam em causa o incremento na produção de riqueza, mas parecem hesitantes em concluir teses mais firmes por défice qualitativo e quantitativo na informação (excepto na necessidade de recomendar ao governo o reforço das políticas de salário mínimo - tendo o coordenador sido o David Metcalf, quelle surprise…).

    Comentário por HO — Abril 1, 2008 @ 4:07 pm

  13. “admitindo-se políticas proteccionistas devido à existência do social welfare”

    Para clarificar: existindo políticas de “protecção social”, eu concordo que uma solução menos má é serem, pelo menos em parte, aplicadas de forma diversa a nativos e a não-nativos; discordo é da existência de limitações ao tráfico de mão-de-obra, por caps e quotizações.

    Comentário por HO — Abril 1, 2008 @ 4:37 pm

  14. “discordo é da existência de limitações ao tráfico de mão-de-obra, por caps e quotizações.”

    Com o livre comércio, existe um produto que alguém deseja enviar e outro alguém que o deseja receber.

    Na livre imigração não. Existe muita gente que quer ir de A para B, mas pode existir em B quem não queira receber A.

    Principalmente tendo em conta a possibiildade do imigrante poder vir a participar:

    - do welfare state
    - do simples aumento de qualidade de vida ainda que se limitasse a passear nas ruas a pedir
    - do direito de voto
    - que existem choques culturais com os costumes em B

    Num paradigma Estado Minimo, e sendo toda a propriedade privada (e evidentemente, ausência de democracia política, e sim apenas proprietários), nem faz sentido em falar em imigração dado que as pessoas circulam, vivem, etc, onde as relações de propriedade e contratual as deixam. Neste sentido, a imigração pode ser e é totalmente livre (na verdade, teria muitas restrições, mas privadas).

    Mas imagine-se que a Suiça de repente se localizaria no meio de África, com livre imigração e acesso a eleições.

    Em quanto tempo o modo de vida Suiço (pacifico, descentralizado, ordem, etc) desaparecia?

    Comentário por CN — Abril 1, 2008 @ 4:49 pm

  15. nota: imigração=emigração

    Comentário por CN — Abril 1, 2008 @ 4:50 pm

  16. “Com o livre comércio, existe um produto que alguém deseja enviar e outro alguém que o deseja receber.
    Existe muita gente que quer ir de A para B, mas pode existir em B quem não queira receber A.”

    Como haverá portugueses que não querem que outros recebam t-shirts chinesas, laranjas marroquinas ou lã neozelandesa. Na imigração existe alguém que oferece trabalho e alguém que o procura.

    “do welfare state
    do simples aumento de qualidade de vida ainda que se limitasse a passear nas ruas a pedir”

    Este tipo de incentivos são maus de per si, não pelas distorções que provocam nos movimentos migratórios. Mas, como já disse, é legítimo que, existindo, sejam aplicados de forma diversa a imigrantes.

    “do direito de voto”

    Non sequitur, uma vez mais; não é preciso impor restrições à imigração para impedir o exercício do voto aos imigrantes.

    “choques culturais”

    Já admiti que este aspecto - os efeitos culturais ou na coesão social - merece atenção. Na esfera do abstracto, é difícil ir além disto. Contudo, parece-me existir uma antinomia entre a defesa do paradigma do estado mínimo e a imposição de limitações à imigração por este tipo de razões.

    Comentário por HO — Abril 1, 2008 @ 5:37 pm

  17. “Contudo, parece-me existir uma antinomia entre a defesa do paradigma do estado mínimo e a imposição de limitações à imigração por este tipo de razões.”

    A resposta de Hans-Hermann Hoppe: http://www.lewrockwell.com/hoppe/hoppe-margins.pdf

    Comentário por Tiago — Abril 1, 2008 @ 6:08 pm

  18. Até nem percebo porque lhe chamam imigração.Aqui a política´do sector
    é a do BE pelo que tudo que passar na área de influência é nacionalizado o mais rapidamente possível.Dev até haver muita parturiente que cá vem fazer turismo aos 8,5 meses…
    Se não CUSTASSEM nada dos meus impostos tudo bem.Agora enriquecerem com a minha massa aí é que não.Até porque muitos nunca cá deveriam sequer entrar…

    Comentário por Miles — Abril 1, 2008 @ 7:10 pm

  19. “Como haverá portugueses que não querem que outros recebam t-shirts chinesas, laranjas marroquinas ou lã neozelandesa. Na imigração existe alguém que oferece trabalho e alguém que o procura.”

    ISso é desconversar.

    A quer comprar uma T-Shirt chinesa ecompra-a a quem quer vender

    A imigração livre depreende que existe um livre direito a circular na propriedade dos outros. Esse direito não existe. Nem sequer para resider existe.

    A Madonna foi recusada por um conselho de condóminos num dado prédio de apartamentos em NY.

    E como digo, o próprio acesso ao direito de voto é mais do que razão para um determinado circulo eleitoral (um Estado) condicionar o acesso a tal previlégio - o de poder influenciar o poder de expropriar propriedade e contratos.

    Que tal pensar na livre imigração em Israel?

    Comentário por CN — Abril 1, 2008 @ 9:26 pm

  20. Um artigo sobre esse relatório:

    http://stumblingandmumbling.typepad.com/stumbling_and_mumbling/2008/04/immigration-evi.html

    Comentário por Miguel Madeira — Abril 1, 2008 @ 11:22 pm

  21. “A Suíça tem um nível de imigração muito superior ao do Reino Unido, e não se queixa.

    Comentário por Luís Lavoura — Abril 1, 2008 @ 12:04 pm ”

    Não? Muitas comunas têm posto entraves às políticas de portas abertas do governo federal. Mais: a maioria da população é favorável à diminuição da imigração. A maioria dos partidos, idem. A maioria dos imigrantes das primeiras vagas (italianos, espanhóis, portugueses) também se queixa do excesso de imigrantes vindos de leste (kosovo, macedónia, bósnia, turquia, etc).

    Logo, não é verdade que a “Suíça não se queixa”. Se a política de abertura é boa, devem os economistas decidir. Mas, na Suíça, a grande maioria das pessoas é contra essa política (apenas a alguma esquerda e as associações empresariais lhe é favorável).

    Comentário por Filipe Abrantes — Abril 2, 2008 @ 3:42 am

  22. “A resposta de Hans-Hermann Hoppe: http://www.lewrockwell.com/hoppe/hoppe-margins.pdf

    O argumento do H3 é tão interessante que ganhou qualidade ao ser resumido a três frases no comentário 10.

    O Hoppe começa por assumir um estado de ficção de ordem natural sans état em que a emigração, no sentido corrente, não existiria por definição - o que decorre da inexistência de espaço público e logo de um poder político capaz de condicionar acessos -, e os movimentos migratórios seriam severamente limitados pelo interesse dos agentes em manterem a homogeneidade étnica e cultural das comunidades (definidas por essa mesma homogeneidade), uma tese que, face às evidências históricas, merece certa dose de acolhimento, mas não é, de forma alguma, imperiosa. Mas tudo isto é num mundo utópico.

    Quando assume um paradigma estatista, desfia o costumeiro processo de degeneração inevitável no estado social, democratista, etc. Não interessa aqui analisar a bondade deste argumento particular; mas, aceitando-o caridosamente, indagar se os movimentos migratórios contribuem de algum modo para a degenerescência. Ora, o Hoppe nunca demonstra que a imigração é condição potencial, necessária ou suficiente para aquela - não se percebe como é que o contrato privado celebrado entre um proprietário nativo e um trabalhador estrangeiro tem uma relação de causalidade com os faróis públicos, as leis anti-discrimanação e tutti quanti. Como é que esses dois contraentes em particular estão vinculados a uma responsabilidade moral pela existência do estado social? O Hoppe assume assume o contrário e só a partir desse momento, já no paradigma de um estado quasi-máximo com funções muito para lá da defesa das liberdade individuais e da propriedade, sustenta a legitimidade de restrições à migração utilizando, em última análise, o argumento do free riding. Mas este é extremamente frágil, visto ser ultrapassável pela inelegibilidade dos imigrantes para os apoios sociais e/ou a sujeição a taxação - um método bem mais consistente com o princípio da liberdade individual. O Hoppe coloca aqui um obstáculo bizarro para um libertário, arguindo que os bens públicos são sujeitos de uma espécie de propriedade colectiva transmitida por direito de sangue, o que vedaria aos nativos o direito de convite excepto sob aprovação dos seus congéneres expressa na taxação apriorística de uns incalculáveis custos totais da utilização dos bens públicos pelo estrangeiro. É um argumento estranhíssimo, não se percebendo porque não é o mesmo princípio aplicado a turistas e aos próprios nativos; se o Hoppe for consistente com a sua própria doutrina da secessão, a consequência seria a de ninguém poder viajar, tais seriam os custos de transacção - se eu quisesse ir às compras ao condado do lado teria de perguntar primeiro o preço e eles de o calcular. E, fundamentalmente, não se consegue perceber como é que sendo a imigração uma consequência do estado social a sua eliminação conduz à retroversão deste. Ou seja,como é que outorgando ao estado um alargamento de competências, legitimando que este impeça coercivamente os indivíduos de, por exemplo, hospedarem e contratarem mão-de-obra estrangeira, se está a refreá-lo? (Já agora, no mundo real os fluxos migratórios são essencialmente ditados por desequilíbrios económicos no mercado de, não tanto pelo grau de protecção social [a esmagadora maioria dos estudos, incluindo os do Borjas, autor que citou, indiciam que os imigrantes são contribuintes líquidos]; o facto de a maioria dos migrantes serem pobres, coisa que deixa o Hoppe nitidamente descorçado, não implica um efeito económico negativo - há ganhos, via princípio da vantagem comparativa; e num ambiente de comércio livre a pressão sobre os salários dos trabalhadores menos produtivos tende para zero, devido ao factor de equalização.)

    Já o argumento “cultural” de Hoppe reduz-se, não se admitindo que as culturas sejam titulares de direitos de propriedade, à falácia de que se no estado da ordem natural as comunidades eram etnicamente homogéneas, então a restauração do mesmo implica a pré-condição de comunidades etnicamente homogéneas. Mesmo aceitando a desejabilidade e exequibilidade do delirante utopismo, este argumento, tal como está, não passa de uma profissão de fé. As comunidades étnica, cultural e linguisticamente homogéneas são tendencialmente mais livres? Nos estados que mantiveram políticas de imigração restritivas de forma a manterem essa homogeneidade (o Butão, por exemplo), as liberdades individuais cresceram face ao poder estatal? Como e´que os estados modernos nasceram em sociedades homogéneas e agora só subsistem porque as sociedades não são homogéneas? É uma condição estritamente necessária? O que está em causa é a imigração, o direito de cidadania por jus solis ou a diversidade cultural? Se existirem processos de aculturação eficazes, continuam a ser necessárias restrições à imigração? E a que propósito se fazem tantas referências a um país onde convivem uma dúzia de etnias, línguas e que adopta uma política de imigração bastante permissiva? Eu já li os textos do Hoppe sobre o assunto há algum tempo, e sem grandes preocupações exegéticas. Pareceu-me que ele só pretendia reafirmar a tese de que a defesa da propriedade e´incompatível com a existência de estados em que não seja explicitamente reconhecidos sucessivos os direitos à secessão etc., etc.; e que a questão da imigração aparece lá em jeito de leitmotiv para o exercício. Os argumentos são tão fracos que ele os reforça socorrendo-se intermitentemente da unção democratista, com argumentos ad populum. E fosse o Hoppe coerente, estaria na Alemanha, não nos EUA, onde vive como imigrante a ser pago com dinheiros públicos. Eu desconfio que seja mais agradável poder continuar a acordar diariamente num mundo branco e cristão, como diria o outro; admito que exista quem tenha essa expectativa para si e para os seus descendentes como legítima, e é admissível que essas propostas tenham lugar na esfera da persuasão democrática. Mas convirá argumentar de forma respeitável e honesta - e quem pretende justificar restrições às liberdades individuais em nome da liberdade, deverá estar preparado para apresentar argumentos muito sólidos, sofisticados e consistentes com o “sub-solo” filosófico.

    Retomando o fio perdido, a antinomia é esta: é aceitável que um estado mínimo (admitindo-o como legítimo enquanto organização política) limitado às suas funções originárias de defesa das liberdades individuais e da propriedade, actue coercivamente sobre os seus constituintes, impondo limitações à liberdade contratual, em nome do summum bonum da homogeneidade étnica e cultural?

    Comentário por HO — Abril 2, 2008 @ 5:27 am

  23. “Um artigo sobre esse relatório:
    http://stumblingandmumbling.typepad.com/stumbling_and_mumbling/2008/04/immigration-evi.html

    «We found no systematic empirical evidence to suggest that net immigration creates significant dynamic benefits for the resident population in the UK.»

    Ia precisamente comentar este trecho do paper, mas o autor do post que o Miguel Madeira indicou já o fez melhor do que eu seria capaz.

    Ainda assim, reforço que o jornalista fez uma leitura algo sensacionalista das conclusões do relatório.

    Comentário por HO — Abril 2, 2008 @ 5:36 am

  24. “E fosse o Hoppe coerente, estaria na Alemanha, não nos EUA,”

    Não, Hoppe não é contra a imigração. Hoppe justifica é que a imigração não seja livre e nsendo limitada possa ser selectiva.

    “Retomando o fio perdido, a antinomia é esta: é aceitável que um estado mínimo (admitindo-o como legítimo enquanto organização política) limitado às suas funções originárias de defesa das liberdades individuais e da propriedade, actue coercivamente sobre os seus constituintes, impondo limitações à liberdade contratual, em nome do summum bonum da homogeneidade étnica e cultural?”

    HO

    No caso de um Estado minimo, node toda a propriedade é privada, a questão até deixa de ter sentido, porque isso fica na mão dos privados.

    Comentário por CN — Abril 2, 2008 @ 7:46 am

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