Na sua ânsia de assegurar uma vitória eleitoral nas legislativas do próximo ano, o PS pode ter cavado o buraco em que acabará por ser enterrado. Se dúvidas houvesse de que o Governo norteia a sua acção única e exclusivamente pelo horizonte dessas mesmas eleições, o anúncio de uma descida de 1% do IVA para daqui a uns meses vem certamente dissipá-las. Depois de o Governo (e o sempre prestável Vitor Constâncio) repetir incessantemente que uma descida de impostos na actual situação das finanças públicas seria uma “irresponsabilidade”, Sócrates vem fazer aquilo que condenou. A razão, claro, é a campanha eleitoral que Sócrates tem vindo a conduzir desde o dia em que foi eleito. O anúncio desta descida para daqui a vários meses permite ao Primeiro-Ministro viver durante um largo período a “fazer render o peixe” deste anúncio, até ao dia em que uma qualquer outra medida propagandística seja lançada nas televisões. E é precisamente isso, uma medida propagandística, que a descida do IVA representa: sem ter a despesa pública controlada, a descida do IVA é precisamente aquilo que Vitor Constâncio disse que era, uma “irresponsabilidade”.
Em segundo lugar, é praticamente insignificante. O que o país precisa não é de um retoque na imensa carga fiscal que alimenta um gigantesco monstro de desperdício estatal, mas sim de uma reavaliação do que é que deve caber ao Estado, e qual a carga fiscal necessária para financiar essas áreas de intervenção estatal, tendo sempre em conta que o actual modelo do “Estado Social” está falido a longo prazo e condena os portugueses ao empobrecimento relativo. Anunciar pequenas descidas do IVA e falar do “fim da crise orçamental” é atirar areia para os olhos dos portugueses, para em 2009 eles votarem sem olharem para o que estão a fazer.
Infelizmente para Sócrates, um eventual sucesso desta sua jogada fará com que ele se arrisque a ser quem ficará com a batata quente nas mãos. Sem ter a despesa controlada, e diminuindo a receita cobrada, o défice poderá vir a aumentar. Em ano eleitoral, esse será um factor de somenos importância para o PS. Mas caso obtenha um segundo mandato, será Sócrates quem terá a responsabilidade de resolver o problema. Por muito que o dr. soares ache que Sócrates é o “anti-Guterres”, o actual primeiro-Ministro repete o erro do seu velho mestre socialista: usa o seu primeiro mandato para executar uma política eleitoralista que lhe garanta um segundo, e neste, vê-se a braços com a necessidade de tapar o buraco que ele próprio cria. A Sócrates, restarão então dois caminhos: ou corta a despesa (e desilude as suas clientelas), ou aumenta os impostos, provocando o descontentamento dos eleitores, e sem poder recorrer à desculpa da “herança”, pois Sócrates apenas herdará aquiloo que ele próprio quiser deixar. Guterres resolveu o seu dilema demitindo-se a meio da noite. E os portugueses, por sua vez, ficaram a pagar a conta. Seja qual for a forma que Sócrates encontrará para escapar à alhada em que se meteu esta semana, uma coisa é certa: os portugueses lá acabarão mais uma vez por ficar a pagar a conta.
Análise excelente, ainda que óbvia, e o paralelismo guterrista a condizer. Certo.
A mim só faz confusão essa de os “portugueses se deixarem enganar”.
Porquê?
Gostam de ser enganados?
Não se importam com isso?
Se não se importam, para quê o PM se preocupar ou importar-se?
Confesso outra coisa:
não sei se isso é verdade ou não, de os portugueses se deixarem enganar ou deixarem-se ir na cantiga pou expressão similar.
É que ainda não vi as sondagens indicarem uma baixa notória nas intenções de voto. O PS pode perder a maioria absoluta, mas mantém o poder.
Só porque a Oposição é fraca? Não se vê alternativa?
Põe-se sempre a coisa assim: não há alternativa de jeito, mais vale ficar como está. E são pessoas com responsabilidade e estatuto social (e até político) que o dizem ultimamente.
Mas se a situação actual desagrada à maioria das pessoas, ainda que nem todas o exteriorizem de forma pletórica ou pública, esse desagrado não será suficiente para quererem virar tudo do avesso e, sim, mais vale outra coisa que esta porcaria que nos governa?
Eu prefiro mudar tudo a permitir manter esta corja no poleiro.
É que os tiques lá do poleiro estão a propagar-se de forma assustadora no tecido social, no mercado de trabalho, no sistema financeiro, nas empresas públicas, na gestão da Educação, da Justiça, da Saúde.
Isso é que me preocupa. E, assim, vou mudar, tenho de mudar.
Comentário por nem estranho não estranhar — Março 31, 2008 @ 11:12