“Rumsfeldiana”
Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico.
A administração norte-americana mentiu sobre as motivações para a ocupação militar do Iraque quando usou o argumento das armas de destruição massiva como ‘casus belli’. Mas ao contrário das teorias conspiratórias, fê-lo precisamente por acreditar na sua existência. O argumento da guerra preventiva, associado a um ideal absurdo de democratização do Médio Oriente a tiro de canhão foi julgado mais aceitável para o moralismo internacionalista do que a lógica geopolítica de transformação do balanço de poderes no Golfo Pérsico, usando a ocupação do Iraque para pressionar a Arábia Saudita a agir contra o jihadismo.
Contrariamente à opinião dominante, a “mentira original” é irrelevante do ponto de vista político e militar. Também não foi a ausência de um plano de paz que constituiu o mais grave erro político americano: foi a confusão sobre a natureza da guerra. Desde 2003 travaram-se duas guerras no Iraque: a Blitzkrieg que derrubou Saddam e uma guerra de guerrilha, que, com diferentes fases, dura até hoje. Rumsfeld subestimou gravemente esta segunda guerra, caracterizando-a como o “último estertor” do regime Ba’ath. Incapaz de reagir ou adaptar a estratégia, negou a realidade e nem o embaraçoso episódio da “revolta dos generais” em 2006 o levou a demitir-se. Só no início de 2007, depois da sua resignação, é que Bush nomeou uma liderança militar eficaz e inteligente.

“fê-lo precisamente por acreditar na sua existência”
Como é que Fernando Gabriel sabe isso? Como prova a veracidade desta sua afirmação?
Fernando Gabriel não prova nada. Apenas parte da suposição da bondade e honestidade da administração norte-americana para provar essa bondade e honestidade. É um argumento circular. Fernando Gabriel parte da premissa de que a administração norte-americana acreditava, honestamente, na existência de armas de destruição maciça. Parte da premissa da honestidade e boa-fé da administração norte-americana, em vez de a demonstrar.
Eu o que me admira é que se encontrem argumentações destas, a afirmar a bondade e a boa fé dos Estados, num blogue que se declara liberal!
Comentário por Luís Lavoura — Março 27, 2008 @ 5:51 pm
Caro Luis Lavoura
Para muitos, toda a degenerência acertadamente atribuida à acção do estatismo em geral transforma-se miraculosamnete em bondade, honestidade e eficiência no intervencionismo em política externa.
E se falha alguma coisa é poque não foram as pessoas certas ou por alocação insuficiente de recursos.
Tem uma certa piada.
Comentário por CN — Março 27, 2008 @ 6:34 pm
O Luis Lavoura não estava cá quando Clinton era Presidente?
Comentário por lucklucky — Março 27, 2008 @ 7:59 pm
O Luis Lavoura se lesse, v.g., a National Interest não fazia figura de ignorante (no bom sentido, ou seja, “aquele que ignora”), e saberia que um dos cânones da ideologia neo-conservadora é precisamente o da “ex post legitimacy” que fundamenta o princípio da guerra preventiva. Este princípio é ainda um dos expoentes do “judaísmo neoconservador”, pois justifica-se historicamente na indecisão da intervenção americana na 2.ª Guerra Mundial, que para muitos é responsável pela morte desnecessária de milhões de judeus; o princípio é simples: se os EUA não tivessesm hesitado tanto para intervir na 2.ª Guerra Mundial, esperando por sinais negativos concretos dados pelo regime nazi, ter-se-ia evitado o genocídio. Na linha da “ex post legitimacy”, basta o facto da ideologia de base ser censurável, para uma sociedade onde imperam valores superiores ter a obrigação moral de intervir, pois os factos concretos que justificam a acção surgirão posteriormente.
Noto que eu discordo totalmente desta forma de legitimação da intervenção militar, como acho que é também o caso do Fernando Gabriel (tenho essa ideia, embora possa estar errado na minha memória). O Luis Lavoura julgo que em relação a este assunto não tem opinião, mas apenas “bitaite”.
RAF
Comentário por RAF — Março 27, 2008 @ 8:35 pm
“no bom sentido”
Essa parte assustou-me…
Comentário por André Azevedo Alves — Março 27, 2008 @ 8:40 pm
“O Luis Lavoura julgo que em relação a este assunto não tem opinião, mas apenas “bitaite”.”
Ler O Insurgente também serve para aprender. Eu pelo menos vou aprendendo…
Comentário por André Azevedo Alves — Março 27, 2008 @ 8:41 pm
O Luis Lavoura fazia melhor se lesse o relatário de Hans Blix. Ele também acreditava na existência de ADM’s.
Comentário por Miguel — Março 27, 2008 @ 9:13 pm
O Conselheiro para o Médio Oriente da Administração Clinton escreveu um livro
The Threatening Storm: The Case for Invading Iraq
http://www.amazon.com/Threatening-Storm-Case-Invading-Iraq/dp/0375509283
Era Neocon também?
Comentário por lucklucky — Março 27, 2008 @ 9:45 pm
Caro lucklucky,
As movimentações dos neocon’s junto da Administração americana para invasão do Iraque terão começado em 1998, ainda no tempo do consulado de Clinton.
O 11 de Setembro terá ajudado a legitimar a intervenção, criando um ambiente propício ao financiamento da guerra junto do Congresso.
Comentário por RAF — Março 27, 2008 @ 11:13 pm
Independentemente do que se ache do neoconservadorismo e da decisão de invadir o Iraque, nunca houve falta de neocons no Partido Democrata…
Comentário por André Azevedo Alves — Março 27, 2008 @ 11:25 pm
Espanta-me que se tenha por garantido que o Iraque não tinha ADM. Por não terem mostrado provas publicamente da sua descoberta, isso prova que elas não lá se encontra(va)m? Ausência de prova não é prova de ausência.
Uma coisa é certa, o Iraque teve armas e nunca deu provas da sua destruição.
Outra coisa é certa, mesmo que o Iraque tivesse armas nucleares isso não justifica (nem deixa de justificar aliás) a invasão por parte dos EUA.
Direi, assim, que o Luis Lavoura também não consegue demonstrar que não havia (há) armas no Iraque. Tem fé em quê então para contestar as convicções do F.Gabriel?
Isto pode parecer ridículo, mas acho que é um facto: o Iraque é um país grande, ADM cabem em qualquer parte.
Outro facto: sendo que não havia provas da destruição das ADM (ist a ser possível/legítimo exigir provas dessa destruição) é natural que a questão se colocasse.
Comentário por Filipe Abrantes — Março 27, 2008 @ 11:34 pm
“Espanta-me que se tenha por garantido que o Iraque não tinha ADM. Por não terem mostrado provas publicamente da sua descoberta, isso prova que elas não lá se encontra(va)m? Ausência de prova não é prova de ausência.”
Bem observado.
Comentário por André Azevedo Alves — Março 27, 2008 @ 11:42 pm
Lucklucky, supondo que o comentário colocado na página do artigo é seu, tenho uma observação a fazer sobre a parte que me diz respeito. Diz que estou “mal informado” e cita William Clinton e o conteúdo do Iraq Liberation Act. Sucede que nos primeiros tempos de existência do Insurgente, referi explicitamente o conteúdo do Iraq Liberation Act, num comentário sobre as respectivas as semelhanças e diferenças com a chamada “doutrina Bush”. Dispenso que me recomende aquilo que manifestamente conheço –e que saberia que conheço se não estivesse… mal informado.
Ainda assim é perfeitamente possível que eu esteja “mal informado”, atendendo ao carácter impreciso do juízo qualitativo que faz. Posso assegurar-lhe que nunca estive nem estarei totalmente informado: todos os dias há artigos, ensaios e notícias interessantes que ficam por ler. No entanto esforço-me por prestar atenção ao que leio e isso é mais do que o lucklucky poderá dizer acerca de si no que respeita à leitura do que escrevo. Não é o único e não precisará de procurar muito nem muito longe para encontrar casos verdadeiramente patéticos de incompetência lógica e de gente que lê não para compreender mas para melhor distorcer —o que não é o seu caso.
Vou tentar explicar melhor: não disse que os EUA não estavam preocupados com os programas iraquianos de WMD’s, nem decididos a promover a destituição de Saddam (os meios propostos não eram necessariamente militares). Mas era uma preocupação de “longo prazo”: o regime de sanções da ONU não duraria para sempre e portanto o (caríssimo) esquema de contenção de Saddam terminaria mais tarde ou mais cedo. Sobre isto escrevi noutra ocasião, tal como também já me tinha referido à “intelligence” relativa aos programas de WMD’s iraquianos noutro artigo para o DE, de 06-12-2007, onde abordei o livro de Bob Drogin sobre o informador “Curveball”. O que sugeri é que houve uma motivação mais importante (e não explicitada): a ocupação militar do Iraque pretendia alterar de forma “permanente” o equilíbrio geopolítico do Golfo Pérsico. Note que nem sequer dei a minha opinião pessoal sobre a razoabilidade da ideia. Se não concorda, paciência, mas isso nada tem a ver com a qualidade da minha informação.
A terminar sugiro ao Filipe Abrantes que leia, se puder, o artigo de Tom Chatfield no número de Abril da Prospect (“Whispers in the Desert”): é uma descrição completa e equilibrada do actual estado de coisas em termos das investigações sobre os programas iraquianos de WMD’s. Poderá ajudar a tornar mais clara a questão pertinente da “ausência de prova” vs. “prova de ausência”.
Comentário por FCG — Março 28, 2008 @ 11:10 am
“O Luis Lavoura não estava cá quando Clinton era Presidente?”
Por acaso, até vivi nos EUA durante parte desse tempo, portanto, de facto, não estava cá…
A minha opinião sobre Clinton em geral, e a sua política externa em particular, é péssima. Nunca defendi Clinton. E não quero ver a mulher del no poleiro.
Comentário por Luís Lavoura — Março 28, 2008 @ 12:59 pm
“As movimentações dos neocon’s junto da Administração americana para invasão do Iraque terão começado em 1998, ainda no tempo do consulado de Clinton.
O 11 de Setembro terá ajudado a legitimar a intervenção, criando um ambiente propício ao financiamento da guerra junto do Congresso.”
Como explicar um apoio tão extenso, quer para o Iraq Liberation Act e para a Invasão? Neocons? Ou os relatórios dos Servições Secretos nas comissões do Congresso?
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Sim o post foi meu. Recupero o parágrafo que me fez mais confusão.
“A administração norte-americana mentiu sobre as motivações para a ocupação militar do Iraque quando usou o argumento das armas de destruição massiva como ‘casus belli’. Mas ao contrário das teorias conspiratórias, fê-lo precisamente por acreditar na sua existência. O argumento da guerra preventiva, associado a um ideal absurdo de democratização do Médio Oriente a tiro de canhão foi julgado mais aceitável para o moralismo internacionalista do que a lógica geopolítica de transformação do balanço de poderes no Golfo Pérsico, usando a ocupação do Iraque para pressionar a Arábia Saudita a agir contra o jihadismo.”
Primeiro deve-se dizer que as administrações Clinton e Bush identificaram muitas razões para a queda de Saddam.E elas: ADM e violação das resoluções da ONU respeitantes ás ADM, violação dos direitos humanos, análise de que Saddam não era contível, a tentativa de assassínio do anterior Presidente Bush(Pai) em meados dos anos 90, e o facto de como diz as sanções estarem no fim da linha de vida util.
“programas iraquianos de WMD’s, nem decididos a promover a destituição de Saddam (os meios propostos não eram necessariamente militares). Mas era uma preocupação de “longo prazo”:”
Tudo o que li diz-me que as ADM foram sempre a preocupação central e nada a longo prazo, aliás é difícil perceber como as ADM seria contidas mesmo com eventuais sanções uma vez que nada impede um atentado ou transferência de tecnologia.
Recordo-me de que as primeira reacções de todas foram a guerra preventiva por causa das ADM seguindo-se ao choque do 911. Foram esse os primeiros argumentos mais tarde explicitados em que não se devia esperar que a ameaça fosse iminente porque aí já seria tarde de mais.Medo. “Regime change” e democratização que já vinha do Iraq Liberation Act foram “layers” posteriores para conseguir mais apoio. Aliás na própria Administração Bush só as ADM faziam o pleno do apoio.
Colin Powell ex-chefe das Forças Armadas teve sempre uma reacção epidérmica ao uso do Exército para algo que não a Guerra, e apesar de estar no Departemento de Estado não deixou de influenciar.
Rumsfeld apesar de ter Wolfowitz como secretário nunca pensou em ocupações para mais de 6 meses.
“O que sugeri é que houve uma motivação mais importante (e não explicitada): a ocupação militar do Iraque pretendia alterar de forma “permanente” o equilíbrio geopolítico do Golfo Pérsico.”
Discordo do “não explicitada”, ao se falar de Democracia e “Regime Change” no Iraque está naturalmente implicito a alteração do equilíbrio Geopolítico. Concordaria consigo na “Mentira” se os EUA tivessem falado de Democracia e nada tivessem feito para ela acontecer. Ora não foi esse o caso. Aliás o próprio Bush falou em alteração geopolítica mais explicitamente( não tive tempo de encontrar o discurso mas tenho esta referência):
“WASHINGTON — A classified State Department report expresses doubt that installing a new regime in Iraq will foster the spread of democracy in the Middle East, a claim President Bush has made in trying to build support for a war, according to intelligence officials familiar with the document.”
http://www.commondreams.org/headlines03/0314-06.htm
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Por acaso, até vivi nos EUA durante parte desse tempo, portanto, de facto, não estava cá…
Touché.
“Como é que Fernando Gabriel sabe isso? Como prova a veracidade desta sua afirmação?”
Mas então é uma conspiração Bush+Clinton e 90% da política americana e dos media durante os anos 90, mais os Serviços Secretos Europeus que sabiam que Saddam não tinha ADM? Argumentos extraordinários necessitam de um pouco mais de solidez para serem tomados a sério.
Comentário por lucklucky — Março 28, 2008 @ 10:40 pm