Langue de bois
Penso que a maioria das pessoas que lê este blog conhece a expressão francesa “langue de bois”. Segundo a Wikipedia francesa
La langue de bois (appelée parfois humoristiquement xyloglossie, du grec xylon : bois et glossos : langue) est une figure de rhétorique consistant à détourner la réalité par les mots.
C’est une forme d’expression qui, notamment en matière politique, sert à dissimuler un manque d’informations précises sur un événement ou un projet, en proclamant des banalités soit abstraites et pompeuses soit jouant sur les sentiments plus que sur les faits.
Foi exactamente isto que me lembrou quando vi esta entrada no Do Portugal Profundo, em que é transcrita uma passagem, realçada por um comentador desse blog, da avaliação feita à escola Carolina Michaëlis em Novembro de 2007 avaliação essa que pode ser integralmente lida aqui). E o que diz essa passagem? Somente isto:
1.3 Comportamento e disciplina
Em regra, os alunos têm um comportamento disciplinado, conhecem e cumprem as regras de funcionamento da Escola. Reconhecem e aceitam a autoridade. Convivem e estabelecem um bom relacionamento entre si, com o pessoal docente e não docente e com a direcção. Há uma preocupação dos diferentes órgãos, bem como do pessoal docente e não docente, em garantir um ambiente de tranquilidade e de disciplina propiciador da aprendizagem e da convivência. O corpo docente está fortemente empenhado em incutir mais regras de trabalho na sala de aula e em prevenir e combater pequenos focos de indisciplina, nas turmas que tenham alunos mais problemáticas, nomedamente nos CEF. As situações mais problemáticas são tratadas de imediato pelo Conselho Executivo e pelo gabinete do aluno procurando-se respostas rápidas e eficazes.
Desculpem lá, mas isto não quer dizer nada e, muito menos se reporta a uma situação real. Provavelmente este texto poderia servir como “chapa 5″ para muitíssimas escolas. Toda a gente sabe que estes tipos de documentos são escritos naquilo que se pode chamar de “linguagem controlada”. Têm que respeitar determinadas convenções, certas palavras assumem um significado muito preciso neste contexto, etc. Mas, o que é dito na avaliação é, pura e simplesmente, blá-blá. E não digo isto tendo como base o recente caso, que só foi caso porque alguém decidiu filmá-lo e colocá-lo na rede.
A minha filha mais velha anda no 3.º ciclo do ensino básico numa outra escola do Porto, considerada como escola sossegada e, no entanto, insultos, insolências e indisciplina acontecem com maior frequência do que o desejável. Não sei que avaliação a escola teve, mas não me admirava que não fosse muito diferente do palavreado acima.
O que eu extraio deste parágrafo é somente o seguinte: dentro do conjunto das escolas portuguesas, no aspecto da disciplina, esta escola não será das piores. Mas para isso não precisavam de escrever tantas linhas.

Avaliar o estado e resultados da educação por relatórios faz-me lembrar o ministro da informação do Iraque a “informar-nos” que estava a ganhar a guerra com os tanques americanos atrás dele…
Comentário por Miles — Março 22, 2008 @ 2:41 pm
Agora quem ficou baralhado fui eu! mas afinal qual é a sua preocupação. É a “langue de bois” ou é o transtorno efectivo (para si e para a sua filha, creio)que na escola da sua filha que até é «sossegada» apesar dos «insultos, insolências e indisciplina» que «acontecem com maior frequência do que o desejável»? Não vale a pena bater mais no ceguinho!é?
simplesmente não percebi. Não percebi onde quis chegar.
Não acredito que o senhor também seja dos que face a mais uma dúzia de assaltos, a outros tantos crimes violentos, etc… contraponha, à semelhança do Pereira das polícias, que a criminalidade baixou? e saque do quadro estatístico e…Bem! no caso em apreço que o senhor afirma ter sido «caso porque alguém decidiu filmá-lo e colocá-lo na rede» não é assim. Há mais casos de semelhante igualha - eu coloquei três ( já agora se os fosse colocar todos os que por lá estão tenha de fazer um blogue só para isso e não tenho interesse e mais do que fazer)-mas… permita-me que lhe pergunte: um caso como este não é uma preocupação?
Queira fazer o favor de considerar o meu nenhum interesse (a não o de ser cidadão português a viver em Portugal)no caso: não sou estudante (já fui), não sou professor( já fui), não tenho familiares directos a estudar (já tive), não sou funcionário do ministério…
Não fiquei zangado (até porque o seu Insurgente ganhou link - por mérito- no meu Pleitos…
Cumprimentos
David Oliveira
Comentário por David Oliveira — Março 22, 2008 @ 2:44 pm
A minha crítica é sobretudo a avaliações que por virtude da linguagem utilizada muito pouco avaliam (embora na avaliação em causa, no meio de muita palha, haja alguns factos mais objectivos).
Quando digo que o caso só foi caso por ter sido divulgado no YouTube é uma verdade de La Palisse. Acredito que o Conselho Executivo da escola iria tentar abafar o caso. Infelizmente é isso que acontece. A menorização da violência começa logo aí. Ao contrário do que parece deduzir, eu quero é que estes factos sejam conhecidos e não abafados. E, já agora, que os autores das violências sejam efectivamente castigados. E não acredito em desculpabilizações.
Mas a questão não se resolve só com repressão. Toda a filosofia e organização escolar tinha que ser mudada. E isso, não acredito que aconteça tão cedo.
Comentário por Rui Oliveira — Março 22, 2008 @ 5:15 pm