Só podem ser vista com um certo toque de humor as declarações que vão grassando por essa blogosfera fora, patrocinadas por economistas de combate ou por outras almas mais oportunistas e de ideologia e agenda mais do que conhecida, sobre a recente crise financeira que vai abalando aqui e ali a economia mundial, com claro destaque para a economia americana.
Segundo esses espíritos iluminados, é tudo culpa do neoliberalismo, da política de “liberdade sem regras” e da “ausência de intervenção dos estados” nos mercados afectados. É por culpa dos perversos liberais que chegámos ao ponto em que estamos e urge (segundo os patrocinadores dessas opiniões) que os estados entrem em força na regulação dos mercados financeiros, sem problemas e reservas em impor regras e em definir o “bom curso das coisas”, de modo a por “ordem na casa” e a acabar com a balbúrdia.
Não sei em que Mundo é que estes indivíduos viveram nas últimas décadas, nem que livros é que andaram a ler. Com certeza devem pensar que ainda estamos na altura do Bretton Woods, e não que passámos como passámos (e continuamos a passar) décadas e décadas na alçada de bancos centrais e de regras apertadas que tornaram a actividade financeira, concretamente o sector bancário e o mercado de capitais, dos sectores mais regulados e supervisionados da Economia.
Veja-se lá até que. no nosso caso concreto europeu, vivemos até numa união monetária associada ao Euro, que estabeleceu por via de acordos internacionais e da definição do mandato do Banco Central Europeu regras objectivas e concretas que gerem o enquadramento monetário dos países abrangidos.
Mas não. Afinal parece que nada disso existiu e continua a existir.
Mas o facto mais caricato dessas intervenções é que (curiosamente) são geralmente provenientes das mesmas fontes que criticam os “lucros obscenos” da banca, o peso deste sector na economia e o suposto “abuso” da sua posição de domínio. São estas almas que, numa altura em que os riscos dos investimentos eventualmente mais voluntaristas e irresponsáveis desses agentes iam colher as suas consequências negativas naturais, avançam patrocinando injecções massivas de dinheiro pelos bancos centrais pela redução das taxas de juro para tapar os buracos que foram abertos por essas atitudes.
Afinal, parece que o “crime” compensa, e que os patrocinadores principais da continuidade do funcionamento do sistema que nos trouxe à situação em que estamos são afinal os que tanto gostam de vir a público criticar esses mesmas lucros. Os que permitem e alimentam o mecanismo que permite que quem tomou essas decisões erradas no passado (e que com elas embolsou grandes proveitos) possa continuar impune e tranquilo, à espera da próxima ajudinha iluminada.
É o habitual: o intervencionismo gera problemas que levam os socialistas a defender a necessidade de… mais intervencionismo.
Sempre foi assim e sempre será. Especialmente me matérias complexas e em contextos onde a ignorância económica impera…
Comentário por André Azevedo Alves — Março 20, 2008 @ 17:04
Pois, pois… o que eu sei é que graças à desvalorização do US$ lá vão os EUA compondo o seu deficit comercial enquanto fazem o choradinho… e nós a vê-los passar…
Já agora, alguém dê um pontapé bem assente no trazeiro do Trichet, que esse sim, é o culpado da crise que vai abalando a Europa…
Comentário por caodeguarda — Março 20, 2008 @ 17:15
Caro caodeguarda,
O expansionismo monetário é quase sempre popular mas nunca deu saúde a nenhuma economia.
Na menos má das hipóteses, traduz-se num imposto inflacionário sobre quem detém a moeda em causa. Na pior, conduz ao colapso monetário e da economia em causa.
A economia europeia tem muitos problemas, mas não será a inundação do mercado monetário com euros que vai resolver nenhum deles.
Comentário por André Azevedo Alves — Março 20, 2008 @ 17:23
Existem extremistas de ambos os lados. Uns com um asco visceral pelo liberalismo económico outros com um anti-estatismo primário.
A auto-regulação pura e simples dá origem à cartelização, monopólios ou veja-se no caso das Ordens Profissionais o corporativismo. O excesso de intervenção causa dequilíbrios muitas vezes piores do que aqueles que estavam a tentar solucionar.
Vejam-se as notícias dos últimos dias nos EUA, e até estes estão a ter maior intervencionismo no mercado do crédito hipotecário com a Fannie Mae e o Freddie Mac.
Comentário por Escarpão — Março 20, 2008 @ 18:01
“A auto-regulação pura e simples dá origem à cartelização, monopólios ou veja-se no caso das Ordens Profissionais o corporativismo.”
As Ordens Profissionais são um caso de auto-regulação pura e simples?
Comentário por André Azevedo Alves — Março 20, 2008 @ 18:37
“Vejam-se as notícias dos últimos dias nos EUA, e até estes estão a ter maior intervencionismo no mercado do crédito hipotecário”
Como já escrevi, é a receita do costume: o intervencionismo gera problemas que levam à defesa da necessidade de… ainda maior intervencionismo.
Comentário por André Azevedo Alves — Março 20, 2008 @ 18:38
“Vejam-se as notícias dos últimos dias nos EUA, e até estes estão a ter maior intervencionismo no mercado do crédito hipotecário com a Fannie Mae e o Freddie Mac.”
Fannie e Freedie são exemplos de intervencionismo por definição. Foram empresas estatais nascidas do Crash de 29 e que actualmente têm 60% do mercado do crédito mobiliário. Cotadas em bolsa desde 1968 e com uma definição mista a quem o Estado Americano assegura a solvência mesmo estando a competir no mercado . Mais um exemplo da América Socialista-Democrática. Vários dignitários do Partido Democrata gostam de passar por lá…
Comentário por lucklucky — Março 20, 2008 @ 18:55
[...] adicionais: Gente gira, Socialismo [...]
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