O Insurgente

Março 11, 2008

Geração enganada

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Helder Ferreira @ 01:20

vforvendettahead.jpgUm dos melhores e mais importantes artigos nos últimos tempos para o caminho a ser tomado pelos partidos de centro-direita é o escrito pelo João Marques de Almeida, publicado no Diário Económico de ontem. Vem no sentido de vários posts escritos pelo André Amaral n’O Insurgente e no Blogue Atlântico ou pelo Adolfo Mesquita Nunes no Arte da Fuga e, também, n’O Insurgente .Na geração dos recibos-verdes, até aos quarenta anos, a que eu acrescentaria a geração esquecida, dos que eram demasiados jovens no 25A, existe uma enorme pulsão libertária. É uma geração que vota maioritariamente à esquerda só e apenas por repulsa ao discurso moralista/tradicionalista da direita. É uma geração que entende que todos devem ser livres de viver como entenderem e ninguém tem nada que ver com isso. Ora, neste voto há um equívoco enorme: é que se há ideologias que querem regular comportamentos individuais (e aqui não falo de extrema esquerda ou extrema direita), são as de esquerda. Seja no que respeita ao ambiente, à saúde, à educação, é à esquerda que se tentam regular modos de vida e comportamentos.Como escreve JMA é è esquerda que estão os novos moralistas. A regulação dos estilos de vida e dos comportamentos seriam o suficiente para que esta geração fugisse da esquerda a sete pés, mas não, a direita portuguesa tem, regra geral, discurso pior ainda e perfeitamente contrário à sua tradição conservadora de defesa do valor individual.Esta geração é sensível à ideia de que os comportamentos não têm que ser regulados. É na direita liberal/conservadora que desde a WWII se situa a liberdade de escolha, o empecilho tem sido sempre a ideia atávica da utilização do poder do estado para impedir a ruptura com as tradições, com o belo resultado que se tem visto. Numa perspectiva evolucionista da tradição esta nasce da livre interacção dos indivíduos e, por isso, é que não pode nem deve ser regulada. A direita tem que, rapidamente, perceber que liberdade quer: a de Isaiah Berlin ou a outorgada pelo poder do estado. É fácil não abdicar de convicções no que concerne à tradição e ao mesmo tempo respeitar a natural evolução desta. É só isto que esta geração pede. Que todas as instituições, indivíduos e associações participem na vida pública em liberdade, mas que não interfiram directamente na Lei, que cada um seja livre de levar a vida que quiser e que, desde que não prejudique outrem, o seu comportamento não seja motivo de discriminação institucional. Os que berram mais alto e exigem a estatização dos comportamentos só fazem mais barulho. Mais nada.O PSD (por exemplo) que comece pelo artigo do JMA e pelos do André Amaral e do AMN. Tem público garantidamente. A liberdade económica pode ficar para depois, trate-se agora da liberdade cívica que, certamente, rende votos. Marques Mendes ia no bom caminho. Pense-se nisso.

22 Comentários »

  1. Não concordo com nenhum dos posts.

    Não me lembro de quando o PSD ou mesmo o CDS desataram a ser especialmente moralistas.Ou quando tal coisa foi muito relevante para as escolhas políticas.

    Comentário por lucklucky — Março 11, 2008 @ 12:25

  2. Isto agora aqui são “Okupações” todos os dias, não?

    Gandas malucos.

    P.S. Agora já percebi. Só quando li “Marques Mendes ia no bom caminho” é que vi que estavas a reinar.

    Comentário por Exsurgente — Março 11, 2008 @ 13:09

  3. “foi muito relevante para as escolhas políticas”

    É relevante para a geração de que fala o JMA.

    Comentário por Helder — Março 11, 2008 @ 13:19

  4. Esquecer a liberdade económica e apostar nas causas fracturantes é o programa de muito partido de esquerda.

    Qual é vantagem de criar mais um clone? Já há muita concorrência neste segmento.

    Porque razão iria eu trocar o Bloco por uma imitação pobre e pouco convincente?

    Comentário por blokist@ — Março 11, 2008 @ 13:33

  5. “Esquecer a liberdade económica e apostar nas causas fracturantes é o programa de muito partido de esquerda.”

    As liberdades civícas não se esgotam nas causas fracturantes. São por exemplo também a liberdade de escolha na educação, na poupança para a reforma (ver proposta de Marques Mendes, por ex.), na saúde, etc. E não é esquecer a liberdade económica, só que essa exige mais tempo e mais educação. Comece-se por onde for possível.

    Comentário por Helder — Março 11, 2008 @ 13:45

  6. Já agora veja o que escreve o AMN no Arte da Fuga. Não é confundível com o que quer o BE.

    Comentário por Helder — Março 11, 2008 @ 13:50

  7. Seria bom ver essa direita sem moralismos parvos. Mas “cadê”?

    Comentário por /me — Março 11, 2008 @ 14:22

  8. Lucklucky, eu ainda me lembro do ministro Paulo Portas a enviar uma fragata da Armada para impedir a entrada no território português de uma traineira onde se realizavam abortos. Cobriu-se de ridículo.

    Comentário por Luís Lavoura — Março 11, 2008 @ 15:11

  9. Concordo com muitos pontos do artigo de JMA mas não vejo onde está o conservadorismo moral da direita portuguesa.

    Excepção feita a parte do actualmente quase insignificante CDS-PP (e mesmo aí talvez seja mais apropriado falar de um tradicionalismo difuso de base social e emocional do que de conservadorismo) o que vejo é um discurso social-democrata mais ou menos homogéneo e praticamente sem distinção do do PS.

    Pelo contrário: não me parece é que a promoção da liberdade de escolha em áreas como a educação ou a poupança para a reforma possa ser viável sem a sustentação de uma postura socialmente conservadora que valorize a autonomia da família e dos corpos sociais intermédios face ao Estado.

    Comentário por André Azevedo Alves — Março 11, 2008 @ 15:19

  10. “não vejo onde está o conservadorismo moral da direita portuguesa”

    Quando mais de 100.000 pessoas assinaram a pedir um novo referendo sobre o aborto, a direita na AR pegou nessas 100.000 assinaturas e, em menos de uma manhã, deitou-as para o lixo.

    Casamentos entre pessoas do mesmo sexo? Nem pensar. Experimente falar disso aos partidos da direita portuguesa e veja a reação. No mínimo dos mínimos, dir-lhe-ão que “não é uma prioridade”, que é como quem diz, não há qualquer necessidade de a lei deixar de ser discriminatória.

    E veja a lei da adoção e o cuidado que lá se teve em excluir, de forma cuidadosamente explícita, a adoção por uniões de facto sempre que tais uniões consistissem em pessoas do mesmo sexo.

    E veja a concordata, e os privilégios explícitos que ela dá à Igreja Católica, tornando-a uma exceção à lei geral da liberdade religiosa. Por exemplo, o curioso conceito de “ensino superior concordatário”.

    Comentário por Luís Lavoura — Março 11, 2008 @ 15:50

  11. Veja também a atitude perante o proxenetismo. A prostituição não é nem legal nem ilegal. Está no limbo. Não se pode neste país montar um negócio legal e honesto de venda de serviços sexuais.

    Comentário por Luís Lavoura — Março 11, 2008 @ 15:56

  12. “Lucklucky, eu ainda me lembro do ministro Paulo Portas a enviar uma fragata da Armada para impedir a entrada no território português de uma traineira onde se realizavam abortos. Cobriu-se de ridículo.”

    Isso não são moralismos é direitos humanos, já para não falar da Lei. Mas que é isso para um esquerdista?

    “É relevante para a geração de que fala o JMA.”

    É isso um argumento? Em nenhum dos textos, incluíndo o do jornal se fundamenta o que se quer dizer com “Moralismos”.
    Nem se tenta determinar a sua influência no voto. Nem se tenta determinar quanto de moralismo tem esta geração.

    ” São por exemplo também a liberdade de escolha na educação, na poupança para a reforma (ver proposta de Marques Mendes, por ex.), na saúde, etc. E não é esquecer a liberdade económica, só que essa exige mais tempo e mais educação. Comece-se por onde for possível.”

    Que tem isto que ver com moralismos?

    Comentário por lucklucky — Março 11, 2008 @ 15:59

  13. “A prostituição não é nem legal nem ilegal.Está no limbo.”

    Isso parece uma daquelas constatações tão comuns no nosso parlamento do “vazio legal”, como se tivesse tudo que vir escarrapachado na lei para ser legal ou não.

    Obviamente que se não é explicitamente proibida, é legal.

    Comentário por João Luís Pinto — Março 11, 2008 @ 16:00

  14. JLP, a prostituição é legal, o proxenetismo é ilegal (que eu saiba). Isto é, uma mulher pode prostituir-se na rua, mas não pode montar um bordel no qual diversas mulheres se prostituam.

    É por isso que eu digo que está no limbo. É por isso que existem, por exemplo, “casas de alterne”. As quais, em boa parte (talvez nem sempre), são uma forma de proxenetismo não assumido.

    Porque é que o proxenetismo é proibido, pergunto eu? Por um preconceito moral. Não consigo ver, no fundo, outra razão.

    Comentário por Luís Lavoura — Março 11, 2008 @ 16:25

  15. Dentro do padrão Small Brother is watching you, o avatar do JLP é ligeiramente assustador… :)

    Comentário por André Azevedo Alves — Março 11, 2008 @ 16:26

  16. André,

    “…uma postura socialmente conservadora que valorize a autonomia da família e dos corpos sociais intermédios face ao Estado.”

    Exactamente. E não me parece que quer o JMA quer o AMN escrevam o contrário. O problema é a legislação dos comportamentos típica da esquerda moderna e da nossa direita que parece não ver solução para nada fora do Estado.

    Enfim, isto dava um debate engraçado na próxima AGI :-) cheira-me que as opiniões seriam mais diversas que as entradas do Tromba Rija :-)

    Comentário por Helder — Março 11, 2008 @ 17:00

  17. “Obviamente que se não é explicitamente proibida, é legal.”

    João, isso não faz com que, no nosso sistema, a coisa não esteja no limbo. A profissão não está fiscalmente reconhecida, razão pela qual os profissionais da prostituição não passam recibo, nem factura, nem declaram tais rendimentos em sede de impostos.

    “não me parece é que a promoção da liberdade de escolha em áreas como a educação ou a poupança para a reforma possa ser viável sem a sustentação de uma postura socialmente conservadora que valorize a autonomia da família e dos corpos sociais intermédios face ao Estado.”

    Estou de acordo André. E o CDS até tem caminhado nesse sentido, por exemplo, nas propostas que tem apresentado no domínio da educação. Acontece que igualmente as tem temperado pela irredutibilidade de oferecer a mesma autonomia a quem não pode ou não quer inscrever-se no tradicional conceito de família. Não se lhe pede que promova tais conceitos, apenas que os não sufoque.

    Comentário por Adolfo Mesquita Nunes — Março 11, 2008 @ 17:25

  18. “A prostituição não é nem legal nem ilegal.Está no limbo.”

    “JLP, a prostituição é legal,”

    Então, como é que ficamos? ;)

    Eu também não concordo que o proxenetismo seja proibido, o que não tem nada a ver com a prostituição ser livre ou não.

    Comentário por João Luís Pinto — Março 11, 2008 @ 18:14

  19. “Dentro do padrão Small Brother is watching you, o avatar do JLP é ligeiramente assustador…”

    É a parte do “watching back”… ;)

    Comentário por João Luís Pinto — Março 11, 2008 @ 18:17

  20. “João, isso não faz com que, no nosso sistema, a coisa não esteja no limbo. A profissão não está fiscalmente reconhecida, razão pela qual os profissionais da prostituição não passam recibo, nem factura, nem declaram tais rendimentos em sede de impostos.”

    Se calhar é a última das profissões livres… ;)

    Comentário por João Luís Pinto — Março 11, 2008 @ 18:19

  21. “Se calhar é a última das profissões livres…”

    Se não me engano, essa é a argumentação do Miguel Madeira. Não deixa de ter alguma pertinência…

    Comentário por André Azevedo Alves — Março 11, 2008 @ 18:41

  22. [...] 4:46 pm No seguimento desta série de posts do Adolfo Mesquita Nunes no A Arte da Fuga, bem como deste post do Hélder aqui em baixo, não é demais recordar o artigo Why I Am Not A Conservative, de [...]

    Pingback por Conservadorismo vs. Liberalismo « O Insurgente — Março 12, 2008 @ 16:46


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