Uma das diferenças entre liberais e conservadores prende-se com a forma como encaram as relações de poder entre estados. Nos últimos tempos, isso tem sido especialmente visível na forma como debatem a política externa. Se para uns Ron Paul é um “isolacionista”, para os outros John McCain é um “warmonger“, tal como será a actual administração Bush, polícia do mundo. Juntando-se liberais conservadores e conservadores liberais à mistura, ganham-se algumas nuances e movem-se algumas “linhas divisórias”, mas a discussão é essencialmente a mesma. É interessante ver as razões que levam as estas posições. Permitem iluminar um pouco mais as diferenças; sendo especialmente úteis para entender liberais conservadores e conservadores liberais, grupos que regra geral têm mais a uni-los que dividi-los, mas que, naturalmente, não podem concordar em tudo.
Creio que uma das razões para este diferendo tem a ver com o enfoque que cada grupo dá a dois aspectos que partilham, mas a que atribuem pesos inversos em importância filosófica. O cepticismo relativamente ao poder e o cepticismo relativamente à natureza humana. O conservadorismo é hobbesiano, tem um enfoque tremendo em coisas como a autoridade do estado, o seu papel na criação e manutenção da ordem pública, a sua soberania e o seu posicionamento geoestratégico. Coisas sem as quais o mundo seria o caos e a existência algo miserável. O liberalismo tem a sua génese no indivíduo. Vê o estado como um mal necessário para assegurar o respeito pelos direitos naturais dos indivíduos, mas algo que tem intrinsecamente o potencial de ser catastrófico para os mesmos na medida da sua capacidade coerciva. Para os primeiros o cepticismo relativamente à natureza humana tem primazia. Para os últimos o poder, e a sua concentração, é a principal preocupação.
Claro que as coisas não são exactamente assim, com um corte tão limpo. Entre o caos e a tirania totalitária existe um grande espaço. Mas a diferença, mesmo que “estilizada”, permanece válida. E ajuda a explicar a razão pela qual os conservadores dão tanta importância a questões de política externa “activa” e geoestratégicas. Na medida em que são menos cépticos relativamente ao poder, é-lhes natural considerarem legítimo o uso de força para alcançar um percebido interesse colectivo do seu estado perante outros. Mas esta atitude tem o problema de atribuir direitos aos estados, quando na verdade os direitos são dos indivíduos. E de um estado que não respeita os direitos individuais de estrangeiros, a um estado que não respeita os direitos dos seus próprios cidadãos, vai um pequeno passo.
[...] Poder e Liberdade Uma das diferenças entre liberais e conservadores prende-se com a forma como encaram as relações de poder entre estados. Nos últimos tempos, isso tem sido especialmente visível na forma como debatem a política externa. Se para uns Ron Paul é um “isolacionista”, para os outros John McCain é um “warmonger“, tal como será a actual administração Bush, polícia do mundo. Juntando-se liberais conservadores e conservadores liberais à mistura, ganham-se algumas nuances e movem-se algumas “linhas divisórias”, mas a discussão é essencialmente a mesma. [...]
Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » Diferenças sobre política externa — Fevereiro 14, 2008 @ 00:36
“O conservadorismo é hobbesiano, tem um enfoque tremendo em coisas como a autoridade do estado, o seu papel na criação e manutenção da ordem pública, a sua soberania e o seu posicionamento geoestratégico. ”
Mesmo aqui existem muitas nuances.
Para mim, o verdadeiro conservador é um cétpico em relação a tudo o que o ultrapassa, incluindo o poder político. Para o conservador, a propriedade tem um carácter quase religioso, assim como a familia e a sua comunidade, as instituições locais e as hierarquias naturais. E percebe que o poder político rápidamente se torna um inimigo da sua tranquilidade do seu espaço. Autoridade natural é um coisa, poder político emanado de um centro é outra. Um conservador é um “isolacionista” localista nesse sentido, e mete-se na sua vida, e não nas tradições e costumes mesmo que tribais dos outros. E também percebe que a guerra, mesmo as boas, têm efeitos “revolucionários” que teme, que quebram com o antes e abrem um novo amanhã, novas Ordens.
Robert Nisbet, o sociólogo americano-conservador é a melhor referência para o entender.
O problema dos dias de hoje é a total subversão do conservadorismo.
Perderam o tino por completo.
Comentário por CN — Fevereiro 14, 2008 @ 08:50
Carlos,
Acho que a questão é a diferença entre as definições dadas na Europa e na América a “conservadorismo”. Parece-me que o conservadorismo americano é de tradição liberal e o europeu de tradição estatista. Dito isto, há gente na Europa que quando se diz conservadora está a pensar na versão americana. It’s complicated. As “etiquetas” dão azo a mal-entendidos.
Comentário por Migas — Fevereiro 14, 2008 @ 10:54