Dos comentários às minhas razões para criticar os (quase) oito anos da presidência de George W. Bush, os relacionados com a política externa foram, naturalmente, os mais veementes. Já voltarei ao assunto. No entanto, foram também apresentadas objecções à minha afirmação de que Bush falhou ao não conseguir reformar a segurança social e o sistema fiscal. Essas objecções tiveram a ver essencialmente com:
- O facto do ambiente nos EUA não estar propício a tais reformas;
- A rejeição do congresso das propostas do executivo; e
- Ser mais importante atacar o desperdício do estado pelo lado da despesa do que pelo lado da receita.
Estas três afirmações são verdadeiras. Parcialmente. Para entender a estória completa é preciso colocar estes três factos em perspectiva. Haverá sempre uma oposição organizada, altamente barulhenta, contra qualquer tipo de reforma que vá contra as bem intencionadas, mas falidas e disfuncionais, políticas sociais inicialmente introduzidas pelos governos democráticos de Roosevelt e Kennedy. O mesmo fenómeno pode ser observado em qualquer país ocidental onde tais políticas existam. Isso não muda a urgência de agir antes de que os estados entrem em falência. E se há país onde a opinião pública é receptiva à ideia de auto-suficiência, responsabilidade individual e prudência fiscal, é na América.
A administração Bush protagonizou o maior aumento de poderes discricionários do executivo, uma autêntica afronta à separação de poderes, de que há memória (talvez exceptuando a presidência de Abe Lincoln). Para conseguir a carta branca do congresso para inúmeras coisas, a maior parte das quais ligadas à “war on terror”, Bush teve de barganhar, e para tal usou de contenção nos vetos a legislação gastadora vinda de ambos os lados do congresso. No fundo, o resultado foi o pior de dois mundos: despesa a crescer galopantemente e manutenção de um sistema fiscal com custos de gestão brutais.
Ao queimar o seu capital político na alimentação da incineradora de dólares em que se transformou a política externa americana, ficou sem nenhum para poder levar a bom porto as suas mais importantes promessas eleitorais. E se isso não é razão para julgar a sua presidência um tremendo fracasso, não sei o que será.
“A administração Bush protagonizou o maior aumento de poderes discricionários do executivo, uma autêntica afronta à separação de poderes, de que há memória”
A Segunda Guerra Mundial não aconteceu?
Comentário por lucklucky — Janeiro 29, 2008 @ 11:47
Primeiro: Bush teve a Presidência mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial.
Segundo não vejo grande diferença na política económica entre Reagan,Bush Pai,Clinton, Bush filho. Se nenhuma das outras teve o epíteto de desastrosa foram as balizas que mudaram? Reagan teve 87, Bush Pai teve a recessão, Clinton teve .com crash com dezenas/centenas de milhares de desempregados e empresas fechadas. Nenhum teve uma guerra nas mãos ao contrário de Bush.
Se o argumento é como parece que a Guerra é que causou os problemas então a única discussão a ter é se a guerra vale/u a pena ou não.
Comentário por lucklucky — Janeiro 29, 2008 @ 12:20
Não, não foi só “a guerra” que causou problemas.
Economicamente poucos conseguem defender Bush, tirando os cortes de impostos (que Mccain votou contra).
Mas de facto, bem vistas as coisas, quanto aos os ciclos de “boom and bust” devem ser atribuidos ao FED e sistema monetário, coisa que ningém domina em termos de conhecimento (tirando os “austriacos”), nem politicos nem economistas… se ó agora começam a aparecer “dúvidas”.
Quanto à “guerra”, o problema é mesmo falarmos em guerra (invesão/oucpação) por causa de atentados terroristas (conseguidos por golpe de sorte e quem sabe negligência dos serviços estatistas de segurança).
e com a “guerra” vem o “patriot act” (nome tipicamente de conotação fascista para um programa de diminuição de liberdades civicas) e tudo o resto.
Comentário por CN — Janeiro 29, 2008 @ 12:28
Uma tese robusta, elegante e convincente. Só lhe encontro um pequeno problema: os factos. Não encaixam. Por muito reconfortante que seja imputar os falhanços da Administração à política externa – principalmente para quem discorda desta -, não há evidências que sustentem tal teoria.
Agora estou com pouco tempo, mas logo que possível cá voltarei.
Comentário por HO — Janeiro 29, 2008 @ 12:28
“Economicamente poucos conseguem defender Bush, tirando os cortes de impostos (que Mccain votou contra).”
E votou muito bem. Muitos dos que votaram a favor já começam hoje a perceber que os cortes de impostos financiados por receita têm, a prazo, um efeito contraproducente no crescimento económico.
Comentário por HO — Janeiro 29, 2008 @ 12:31
A Segunda Guerra Mundial não aconteceu?
Durante a WWII não foram aprovadas leis como o patriot act, não se andou a mexer no habeas corpus.
Comentário por Migas — Janeiro 29, 2008 @ 14:19
Primeiro: Bush teve a Presidência mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial.
Difícil? A crise da bolsa em 2000 não foi pior que outras no passado. Pelo contrário, teria sido quase irrelevante não fosse o double whammy causado pelo 11 de Setembro. E em que ficamos, então? Que a presidência de Bush foi muito afectada pelos atentados? Parece-me pouco para dizer que foi a mais difícil desde a WWII. As dificuldades vieram depois e não foram causadas directamente pelos atentados mas antes pela reacção aos atentados. Nesse sentido, Bush fez a cama em que se deitou. A retaliação contra os responsáveis pelos atentados não implicava os gastos brutais que viriam depois com a ocupação do Iraque e com a estúpida guerra anti-ópio no Afeganistão.
Comentário por Migas — Janeiro 29, 2008 @ 14:25
Segundo não vejo grande diferença na política económica entre Reagan,Bush Pai,Clinton, Bush filho.
Reagan, Bush pai e Clinton não deixaram a despesa aumentar da forma descontrolada que Bush filho deixou. E não só por causa da guerra. Os gastos com o welfare subiram virtiginosamente. Já escrevi sobre isso, não vou repetir-me mais.
Comentário por Migas — Janeiro 29, 2008 @ 14:32
Por muito reconfortante que seja imputar os falhanços da Administração à política externa – principalmente para quem discorda desta -, não há evidências que sustentem tal teoria.
Pois a mim parece-me o contrário. Não será a sua concordância com a política externa que o leva a ter um olhar benevolente sobre as falhas da administração? E mais: Eu não disse que é apenas a política externa que é responsável pelas falhas. Será a principal causa, mas certamente não a única. A conversa oca do “compassionate conservatism” já deixava antever o estava na calha.
Comentário por Migas — Janeiro 29, 2008 @ 14:37
“Durante a WWII não foram aprovadas leis como o patriot act, não se andou a mexer no habeas corpus.”
Sabe o que é o Patriot Act?
Já comparou com a legislação que existia?
Habeas Corpus para combatentes ilegais?
Isso comparado com milhares de Americanos de etnia Japonesa internados em campos de concentração, com o que aconteceu aos negócios de inumeros italo-americanos. Os fuzilamentos no campo de batalha de inimigos sem uniforme por espionagem condenados em tribunais militares. Guantanamo não existiria.
“Parece-me pouco para dizer que foi a mais difícil desde a WWII. As dificuldades vieram depois e não foram causadas directamente pelos atentados mas antes pela reacção aos atentados.”
Só me referia aos vários atentados.
É claro, Pearl Harbour não foi nada de especial, as dificuldades foram por causa da reacção a Pearl Harbour. Edificante. Os 120% de défice foram por causa dos gastos brutais.
“estúpida guerra anti-ópio no Afeganistão.”
Quais os elementos que tem para caracterizar a operação no Afeganistão como essencialmente anti-ópio?
Comentário por lucklucky — Janeiro 29, 2008 @ 19:44
Sabe o que é o Patriot Act?
Já comparou com a legislação que existia?
Isto é suposto ser um argumento? Tem algum facto relevante? Se sim, gostava de o ouvir.
Habeas Corpus para combatentes ilegais?
Quem é que define o que é um combatente ilegal? Se o meu amigo visitar os EUA (ou o Reino Unido, onde as coisas ainda são piores) e fôr detido por dias a fio sem acusação formada e sem direito a defesa, mediante suspeita de um qualquer burocrata ou agente da lei que acordou mal disposto, acha bem? Vai responder-me que quem não deve não teme?
É claro, Pearl Harbour não foi nada de especial, as dificuldades foram por causa da reacção a Pearl Harbour. Edificante. Os 120% de défice foram por causa dos gastos brutais.
Não percebo onde quer chegar, mas também não interessa. Se acha as situações comparáveis não há debate racional possível.
Quais os elementos que tem para caracterizar a operação no Afeganistão como essencialmente anti-ópio?
Quem é que disse que era “essencialmente” anti-ópio? Não fui eu, certamente. Mas não sabe que tanto os EUA, como infelizmente também a UE (com os nossos impostos), andam a torrar centenas de milhões para irradicar a produção de ópio?
Comentário por Migas — Janeiro 29, 2008 @ 21:07