Pedro Boucherie Mendes na Atlântico 34:
Não faço ideia se Deus existe, embora julgue que não. Mas admitamos que existe e que lhe podemos fazer umas perguntas quando chegar o dia de prestar contas. Nesse dia talvez possa finalmente saber porque é que os jornais portugueses escolhem uma fotografia de um junkiecom-ar-de-indigente-de-seringa-nobraço-porque-assim-é-que-tem-impacto sempre que têm uma história sobre toxicodependência. A notícia pode ser sobre o que queiramos. Um bairro de má fama, uma política do Governo, um relatório da ONU, um estudo científico, uma apreensão. Seja o que for, lá levamos com a fotografia do chuto. A imagem é sempre muito gráfica: vê-se perfeitamente a agulha a entrar no braço (regra geral este chuto jornalístico é no braço).
Nas ditaduras há sempre um catecismo de mensagens que é preciso repetir, repetir, repetir. O jornalismo tem a sua ideologia que é a do politicamente correcto, neste caso temperada com a política do choque. O vício da droga é culpa da sociedade e a sociedade tem de tirar a cabeça da areia. Eu chamo-lhe preguiça do editor de fotografia ou do editor de fecho. A mim, que não suporto agulhas (e que até tenho dificuldade em escrever a palavra), a omnipresença do junkie do Casal Ventoso só faz com que nunca leia a notícia ou a reportagem. Continuo cheio de areia nos olhos portanto.