O Insurgente

Dezembro 22, 2007

Heil Che

Arquivado como: Internacional, Media, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 10:32 pm

Heil CheA versão integral do excelente artigo O desprezo de Che Guevara, de Rui Ramos, está agora disponível no Blogue da Atlântico:

Em 1959, Cuba, o segundo maior produtor mundial de açúcar, não era um país pobre. Tinha mais televisões per capita do que a Itália, e mais estradas por quilómetro quadrado do que Portugal. O papel de Guevara, no seu novo país, foi o de Mugabe no Zimbabué: lançar as bases para fazer de Cuba uma ruína, que só os subsídios soviéticos aguentaram. Além das estatizações em massa, decidiu abolir todos os incentivos económicos ao trabalho. Em 1965, quando abandonou o governo, o PNB per capita afundara-se (em 1999, ainda não tinha regressado ao nível de 1959). Tudo faltava e havia filas para tudo.

(…)

Finalmente, este comunismo latino assentava numa versão moderna do mito do “bom selvagem”: o do “bom guerrilheiro”, igualmente silvestre e puro. Rapidamente, o culto arranjou o necessário filósofo parisiense, na pessoa do jovem Régis Debray. Interessou Carl Schmitt, o velho companheiro de estrada do nazismo, que em 1962 descobriu na “guerra civil socialista” uma guerra sem limites, feita por combatentes “irregulares” e assente numa “hostilidade absoluta”, e por isso muito apropriada para pôr fim à civilização burguesa, com as suas guerras limitadas por regras humanitárias. O entusiasta de Hitler entrava com emoção no mundo de Guevara.

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Os seus admiradores atribuíram a sua morte à CIA. Não era exacto. Os Rangers bolivianos tinham sido treinadas e acompanhados por agentes da CIA. Mas a execução foi decidida pelos generais bolivianos, sem conhecimento oficial dos EUA. Os bolivianos temiam que o governo americano se sentisse obrigado a poupar Guevara, como fizera a Debray. Todos sabiam que tinham na mão uma celebridade.

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O “povo” foi a grande companhia imaginária de Guevara. “Sem o apoio da população” nada podia ser feito, repete vezes sem conta. Mas essa população não era a das pessoas que existiam. Era um povo teórico, que o próprio Guevara se propunha criar submetendo a população à hierarquia e disciplina rígidas do exército revolucionário. Fora da hierarquia e da disciplina revolucionária, o povo não lhe interessava: “a democracia revolucionária não se exerce na condução dos exércitos em nenhuma época e em nenhuma parte do mundo, e onde isso foi tentado, acabou em fracasso”. Fala muito dos “camponeses pobres”. Mas diante deles, no Congo e na Bolívia, percebeu que não podia comunicar com eles. No Congo, porque os revolucionários cubanos que o seguiam nunca levaram a sério os nativos: “Os nossos eram estrangeiros, seres superiores, e faziam-no sentir com demasiada frequência”. Ele, porém, não era melhor, quando escrevia que viera para “cubanizar os congolenses”, impor ao seu desleixo a regra ascética do exército revolucionário (ficando furioso quando julgou assistir à “congolização dos cubanos”, contaminados pela anarquia local).

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Guevara desprezava profundamente os seus semelhantes, porque se convencera de que o mundo dependia apenas da vontade e do conhecimento. Por isso, os males do mundo não o levavam a compadecer-se pelos outros, mas a desprezá-los: a culpa era deles. O seu desígnio era fazer um “homem novo” a partir desse refugo humano. A magnitude da obra não lhe permitia sentimentalismos humanitários. No Livro Negro do Comunismo, a equipa de Stéphane Courtois dedicou duas páginas ao “reverso do mito” de Guevara, denunciando os fuzilamentos que ordenou em Cuba. Guevara ter-se-ia divertido com esta acusação. Ele próprio descreve os fuzilamentos, inclusivamente as reacções das vítimas no momento final, com palavras de apreço por aqueles que mostraram “serenidade”. Tudo para ele estava justificado desde que feito, sem outras intenções, em nome da criação de “um homem novo”.

2 Comentários »

  1. Mais uma vez Rui Ramos mostra como é desonesto. Defender Fulgencio Batista ? Xiça ! Se esse não era muito pior que o Fidel a todos os níveis…

    Comentário por Pedro Sá — Dezembro 26, 2007 @ 9:56 am

  2. [...] Leitura complementar: Heil Che. [...]

    Pingback por Televisão estatal evoca serial-killer socialista « O Insurgente — Maio 16, 2008 @ 2:02 am

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