O Insurgente

Dezembro 21, 2007

Retórica e sedução

Filed under: Comentário,Política,Religião,Teoria — André Azevedo Alves @ 19:40

Mesmo Evola, note-se, deixa por vezes a porta aberta a usos utilitaristas do cristianismo, sugerindo dessa forma, ainda que implicitamente, o tal caminho tradicional da inversão de princípios assente na vaidade. E também por essa via alguns insistem na gostosa ilusão de tentar compatibilizar o incompatibilizável.

Ou não fosse a grave tentação da superbia omnipresente: Verdade e sedução. Por Pedro Sette Câmara.

Daí vem o risco de ser “vítima” de um discurso retórico que apele simultaneamente às premissas aceitas – ainda mais quando são premissas conscientemente aceitas, após uma certa depuração – e à vaidade. Isso é muito evidente nos discursos de todos os tipos de autores esotéricos sobre a religião. Raramente há uma contestação aberta de algum princípio. Quase ninguém faz como o Julius Evola e diz: “o cristianismo é errado”. Antes, reinterpretam o cristianismo à luz da premissa aceita de que há alguma verdade universal, e apelam à vaidade do ouvinte, que naturalmente crê que irá conhecê-la melhor que os santos e os papas depois de 50 páginas escritas em tom de verdade absoluta. A dúvida é longa e a tranqüilidade necessária para vencê-la é difícil. A confirmação de si mesmo é gostosa e fácil. É o pequeno orgasmo proporcionado pela masturbação mental.

Aliás, a vaidade acaba sendo o caminho tradicional da inversão de princípios. O sujeito acha que não cumprir os preceitos rituais do catolicismo é uma forma superior de catolicismo. Que poupar um bebê de uma família paupérrima de crescer nesse mundo terrível e cruel e ainda mandá-lo para o céu é um ato de caridade – eis como o nosso orador do começo do texto poderia apelar a uma platéia católica. Nas duas posições há a usurpação do papel de juiz último das coisas e a recusa das circunstâncias imediatas.

Por isso é preciso relativizar a idéia de que a filosofia nos imuniza mais e mais à retórica. Imuniza se nunca deixar de ser praticada: se houver amor à sabedoria enquanto virtude do sujeito, enquanto estado interior de vigilância permanente. Um pouco de filosofia servirá apenas para depurar algumas premissas, e o destino da viagem será confundido com sua primeira escala. Em vez de ser a ascese que prepara para enfrentar a sedução, será apenas a imunização contra os tipos mais vulgares de retórica, pouco podendo contra os tipos um pouco mais sofisticados, que requerem não apenas que o sujeito ponha o mundo em parênteses como também a si mesmo.

5 Comentários »

  1. Isso do Evola achar que “o cristianismo é errado” é simplificar um nadinha o que é um bocado mais complicado…

    Comentário por pedro guedes — Dezembro 22, 2007 @ 02:42

  2. Caro Pedro,

    Certamente que é uma simplificação, mas não creio que o PSC tenha distorcido a essência do pensamento de Evola.

    Mais complicada ainda – e calha-nos a todos, ainda que se manifeste de diferentes formas – é a tentação da superbia…

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 22, 2007 @ 13:20

  3. “Certamente que é uma simplificação, mas não creio que o PSC tenha distorcido a essência do pensamento de Evola.”

    Caro André,

    Por acaso tenho dúvidas, há vários Evolas e há vários “cristianismos” (ver por exemplo aqui, já que é recente: http://viriatos.blogspot.com/2007/12/nem-no-natal.html ).

    A parte “religiosa” do Evola está longe de ser a que me interessa mais no autor (que por acaso me interessa especialmente), mas conheço quem defenda, com argumentos bastantes para manter uma conversa de largas horas, a total compatibilidade entre o pensamento de Evola e o catolicismo “pré-moderno” (remeto para o link anterior).

    “Mais complicada ainda – e calha-nos a todos, ainda que se manifeste de diferentes formas – é a tentação da superbia…”

    Nada a opôr! – não seja o facto do texto dar a ideia de que o Evola está ainda mais para além do que isso. Ou, dito de outra maneira, não me parece nada que isso se pudesse verificar num mundo sem grandes (para não dizer nenhum) valores espirituais que lhe sirvam de âncora. Evola não era propriamente o protótipo do homem que não acreditava em nada, ou seja, uma espécie de CAA. Às tantas, se ressuscitasse, o Barão seria hoje um fervoroso católico tradicionalista… ;)

    Um Santo Natal para toda a equipa Insurgente!

    Comentário por pedro guedes — Dezembro 23, 2007 @ 01:09

  4. “A parte “religiosa” do Evola está longe de ser a que me interessa mais no autor”

    Ainda bem, ainda bem… ;)

    “mas conheço quem defenda, com argumentos bastantes para manter uma conversa de largas horas, a total compatibilidade entre o pensamento de Evola e o catolicismo “pré-moderno””

    Eu conheço quem defenda compatibilidades ainda mais improváveis. O Pedro Sette Câmara também. Em parte é mesmo o impulso que gera a procura dessas compatibilidades que está em causa…

    “Evola não era propriamente o protótipo do homem que não acreditava em nada, ou seja, uma espécie de CAA. Às tantas, se ressuscitasse, o Barão seria hoje um fervoroso católico tradicionalista…”

    Pois. Nunca se sabe… :)

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 23, 2007 @ 01:58

  5. “Um Santo Natal para toda a equipa Insurgente!”

    Obrigado e igualmente!

    Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 23, 2007 @ 01:59


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