Preconceito: Sentimento? Erro? Crime?
Quando se fala de um preconceito ser erro, crime ou simples sentimento, será talvez mais correcto falar da expressão do preconceito em questão. Isto é, quando levarmos os nossos preconceitos a uma expressão prática que afecta os outros. O preconceito escondido no fundo das nossas almas não pode ser avaliado. Teremos também de julgar o contexto do acto, a sua natureza e os seus efeitos práticos. Consagrado exemplo do condicionamento da liberdade de expressão é o caso de gritar ‘Fogo!’, por mera brincadeira, num recinto cheio de gente capaz de fugir em pânico e se magoarem.
Até há pouco tempo os portugueses não sabiam o que é viver numa sociedade multi-étnica ou pluri-religiosa e ainda menos em sítios desses onde imperam o fanatismo e a violência. Como nos Balcãs, como na Irlanda do Norte ou como no Médio Oriente. Em tais sociedades é natural que as pessoas conscientes aconselhem, ou até incentivem legislação, no sentido de desencorajar expressões de preconceitos nacionais, raciais ou religiosos. Em regiões mais sofisticadas julgo ser simplesmente um caso de mau gosto exprimir considerações ofensivas em público.
Na realidade, as maneiras e os modos mudam ao longo do tempo. Já não se usa assoar-se na toalha da mesa da sala de jantar. (Sim, Erasmo de Roterdão, no século dezasseis, condenou essa prática num seu livro de pedagogia!) Hoje pessoas com um certo nível de educação, sejam elas adeptas do ‘politicamente correcto’ ou não, acham sinal de má educação tecer considerações preconceituosas sobre grupos humanos. Somos, em geral, mais sensíveis às possibilidades de ofender.
Agora, quanto ao erro há alguma coisa importante a acrescentar. O maior erro neste campo é o de não reconhecer os nossos preconceitos e, por essa causa, chegar a conclusões erradas. Exemplo flagrante foi um recente poste de Pedro Arroja onde tece considerações irreflectidas sobre uma suposta ligação entre o desenvolvimento económico da Irlanda e o fervor católico do seu povo. O autor desse poste é conhecido pelas suas convicções: por conseguinte é razoável concluir que o seu erro se deva ao preconceito e não a qualquer investigação séria. O facto é que o zelo religioso na Irlanda tem vindo a diminuir de maneira flagrante nos últimos anos, precisamente em paralelo com o desenvolvimento económico. O que veio primeiro fica para estudar. (Muitos pensam que o desencanto com a religião ancestral foi provocado pelas revelações da pedofilia entre o seu clero.) Muitos sociólogos e economistas atribuem o sucesso da Irlanda na União Europeia a três características valiosas num mundo cada vez mais globalizado. Primeiro, o facto que a língua nacional tanto em casa como em público (apesar dos esforços governamentais em sentido contrário) continua a ser o inglês. Segundo, um sistema educativo de razoável qualidade (certamente superior ao inglês). Terceiro que a República da Irlanda herdou as instituições e práticas administrativas e judiciais do seu colonizador, mantendo padrões que já começam a desaparecer na própria Inglaterra. Estes três factores por si só seriam suficientes para explicar o desempenho económico da Irlanda em comparação com, por exemplo, Portugal. Alias, se o catolicismo viesse ao caso, então Portugal devia ter um desempenho melhor do que realmente tem.
Evidentemente se um observador tiver os olhos vedados pelo preconceito religioso não vai considerar outras hipóteses. E é aqui que reside um dos perigos mais graves do preconceito. Assim temos que deduzir que o maior argumento instrumental a favor da liberdade de expressão é de possibilitar a discussão e revelação dos preconceitos. Foi aqui que o erro dos que queriam açaimar o Professor Watson se revelou mais grave do que qualquer erro cometido por ele próprio.

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será talvez mais correcto falar da expressão do preconceito em questão. Isto é, quando levarmos os nossos preconceitos a uma expressão prática que afecta os outros. O preconceito escondido no fundo das nossas almas não pode ser avaliado. Teremos também de julgar o contexto do acto, a sua natureza e os seus efeitos práticos.
Exactamente. Os juízos éticos estão relacionados com condutas. Só é possível julgar ideias de uma forma consistente com um entendimento seguro das suas consequências. “Crimes de pensamento” estão bem para entidades totalitárias.
Comentário por Migas — Novembro 20, 2007 @ 11:35 pm
Pedro Arroja invocou o exemplo irlandês para ilustrar a ideia de que o catolicismo não está necessariamente ligado à desempenhos económicos inferiores. A Irlanda está no 1º lugar do índice de qualidade de vida do Economist, se bem me lembro. E é o 4º na lista do PIB per capita PPP. No entanto, é o país mais ferverosamente católico da Europa (talvez a par da Polónia).
Ora a tal educação excelente dos irlandeses tem lugar sobretudo em escolas católicas… E é interessante notar que quando se trata de protestantes ou judeus, todos falam das qualidade naturais e da ética de trabalho desses grupos religiosos. A Suécia ou Dinamarca são o que são devido ao tal espírito luterano que glorifica o trabalho e o êxito. Mas se o país é católico, então o extraordinário desempenho económico dos seus habitantes nada tem a ver com a mentalidade católica destes. É só coincidência…Pois. Ora aí está um exemplo perfeito de PRECONCEITO !
Comentário por Euroliberal — Novembro 21, 2007 @ 12:21 am
[...] Imperador.org | O Universo é pouco, o infinito é logo ali wrote an interesting post today!.Here’s a quick excerptPreconceito: Sentimento? Erro? Crime? [IMG ] 20 de Novembro de 2007 às 10:56 pm por Patricia Lanca Quando se fala de um preconceito ser erro, crime ou simples sentimento, será talvez mais correcto falar da expressão do preconceito em questão. Isto é, quando levarmos os nossos preconceitos a uma expressão prática que afecta os outros. O preconceito escondido no fundo das nossas almas não pode ser avaliado. Teremos também de julgar o contexto do acto, a sua natureza e os seus efeitos práticos. [...]
Pingback por Dinheiro Internet - Blog de Dinheiro » Preconceito: Sentimento? Erro? Crime? — Novembro 21, 2007 @ 4:01 pm
Pat Lan… pela primeira vez na vida concordamos:)!
TEns muita razao… apesar de nao saber o que possas depois fazer com essa razao.
Preconceitos obviamente temos-os todos nos seres humanos. Importa saber è o que fazemos com eles nao???
Ser -se racista nao èe ser-se nazi. mAs neste blog existem alguns nazizecos de meia tijela. Que veem para aqui defender o LIXO que esse grande professor disse (ja nao sei se sera um grande homem, pois nao o conheço…. è 3° facto que conheço da sua vida privada).
A questao è que este grande professor ja pediu desculpa. MAs a insurgencia consegue ir mais longe que as sua pobres afirmaçoes.
P.S: Uma curiosidadde: Voces que sao tao contra isto e aquilo e favor disto e daquilo… sim voces:)… que sao contra a liberalizaçao das drogas (o estado nao se pode meter nas nossas vidas intimas dizeis voces… excepto no aborto e no consumo de drogas… grande hipocrisia nao????) VOCES SABIAM QUE WATSON e O CRICK descobriaram a DUPLA-HELICE NUM “SONHO de LSD”???
aiaiaiaia
Comentário por Dharma Bum — Novembro 21, 2007 @ 5:45 pm