Religião e vida pública. Por João Carlos Espada.
Um primeiro ponto consiste na observação de que a tese modernizadora/secularista foi refutada pelos factos. Peter Berger, um dos mais famosos autores da tese, é abundantemente citado pela sua coragem intelectual: reconheceu que se enganara. A percentagem de crentes nas quatro maiores religiões do mundo – cristianismo, islamismo, budismo e hinduísmo – cresceu de 67% em 1900 para 73% em 2005 e pode chegar aos 80% em 2050. O cristianismo tem hoje as mais elevadas taxas de crescimento na Ásia. Em África, são estimados actualmente 400 milhões de cristãos, contra menos de 10 milhões em 1900.
(…)
Uma delas, originária da Revolução Francesa de 1789, concebe o Estado como hostil à religião. A outra, originária da Revolução Americana de 1776, limita-se a separar a Igreja do Estado e a consagrar a liberdade religiosa.
Curiosamente, a tradição americana (cronologicamente anterior à francesa) revelou-se melhor, quer para a vida pública quer para a religião. Para a vida pública, porque incentivou os movimentos religiosos a traduzirem as suas reclamações políticas e morais em termos compreensíveis pelas outras religiões e pelos não crentes. Para a religião, porque a protegeu da intromissão do Estado – estando talvez aí um factor crucial da vitalidade da religião na sociedade civil americana.
O estudo em si certamente será mais elaborado. Penso que muito provavelmente nos países com maior taxa de crescimento demográfico é exactamente onde se vê o maior crescimento das religiões. Se calhar a razão andará por aí…
Comentário por ulaikamor — Novembro 15, 2007 @ 21:00
Muito ilustrativo do crescimento das quatro maiores religiões do mundo, seguramente. Mas ilustrativo do que Espada queria demonstrar? Não me parece. Qual o número de não-religiosos, ateus, agnósticos e afins e qual a sua evolução? Sendo certo que as fontes não são as mesmas e que não posso fazer uma comparação directa, uma pesquisa no google produz diversos gráficos com dados a nível global em que as categorias de não-religiosos aparecem em 3.º ou 4.º lugar (os conceitos não são exactamente os mesmos, mas o contraste que evidenciam é o mesmo).
Neste sentido, ver:
http://www.adherents.com/Religions_By_Adherents.html ou
http://en.wikipedia.org/wiki/Major_religious_groups
De acordo com dados retirados noutro site (http://www.gcts.edu/ockenga/globalchristianity/mmrc/mmrc9805.htm) as categorias não religiosos + ateus representavam em 1900 1,2% da população, representando hoje quase 12%. Volto a reiterar que as fontes não são as mesmas, mas o que pretendo demonstrar é que Espada “esquece” o único factor relevante numa comparação: comparar!
Comentário por Pedro Delgado Alves — Novembro 16, 2007 @ 00:55