Comentário do leitor MBC:
Com enorme conivência, do maior partido da oposição, do Presidente da República e de toda a comunicação social portuguesa, o acordo sobre o novo tratado europeu pôde ser apresentado pelo governo, aos portugueses, como sendo uma enorme vitória de Portugal.
E vitória porquê? Pelo facto de ter sido alcançado durante a presidência portuguesa da União Europeia e de se chamar “Tratado de Lisboa”.
A cobertura mediática que foi dada pela imprensa portuguesa à cimeira informal onde se chegou ao acordo evidenciava isso mesmo. Em sucessivos directos, “análises” e “comentários” (coloco entre aspas, porque na verdade, aquilo que nos tentaram vender como análises e comentários não passaram de meros exercícios propagandísticos), repetia-se até à exaustão o que ainda faltava satisfazer dos “interesses nacionais” dos outros, para que se pudesse finalmente chegar a um acordo na cimeira e desta forma satisfazer aquele que também era o nosso “interesse nacional”. Dar nome ao tratado.
Alguém sensato, acreditaria que ao Reino Unido, França, Alemanha, Itália ou Espanha, bastaria dar o nome da sua capital para ver os seus “interesses nacionais” satisfeitos? Trocaria a Itália e o europeísta Romano Prodi, o deputado no Parlamento Europeu, que reivindicavam, pelo nome de Roma no tratado? Ou aceitaria o Reino Unido, abdicar das suas pretensões para dar o nome de Londres ao tratado e, encher assim de orgulho os súbditos de sua majestade?
Nenhum órgão de comunicação social, na ampla cobertura que fizeram da cimeira discutiu, verdadeiramente o que estava em causa neste novo tratado para os interesses de Portugal. Criou-se de certa forma nos portugueses, a ideia, de que pelo tratado se chamar “de Lisboa”, é mais nosso do que dos outros e, que portanto os nossos interesses estão mais do que salvaguardados.
Este episódio, fez-me lembrar o da célebre cimeira das Lajes, onde os que apoiavam, enalteceram de forma exacerbada o protagonismo de Portugal, ao ceder o local e, também o nome à cimeira. Os que se opunham, se desdobravam em protestos contra aquilo que achavam ser uma vergonha nacional. Portugal aparecer aos “olhos do mundo” como protagonista daquele episódio.
O problema para uns e para outros é, que no dia seguinte em quase toda imprensa internacional, Portugal não aparecia na “fotografia”. E porquê? Porque aquilo que efectivamente importa na tomada de decisões é o poder e quem detinha ali poder eram os Estados Unidos, Reino Unido e Espanha. Na verdade não passámos de meros anfitriões.
Na União Europeia aquilo que no futuro se sucederá é exactamente o mesmo. Portugal ficará quase sempre de “fora da fotografia”, porque continuamos a não ter poder e pouco ou nada fazemos para que isso se altere. Infelizmente para nós, nas futuras decisões de nada nos valerá o papel de termos sido os anfitriões e do tratado se chamar “de Lisboa”.
Para que se perceba o espírito da coisa leia-se o extraordinário artigo do eurodeputado Manuel dos Santos no Semanário.
http://www.semanario.pt/noticia.php?ID=3678
Uma amostra:
“Não aprovar um tratado, em Lisboa, seria uma calamidade de consequências políticas imprevisíveis e, neste quadro, de absoluta necessidade, acaba por ser relativamente secundária a valoração da matéria que foi aprovada.”
Ou seja: o que lá está nem interessa… tinha é que haver tratado!
Comentário por Manuel — Outubro 26, 2007 @ 16:32
A classe político-jornalista ainda está mais doida que no tempo de Guterres.
Comentário por lucklucky — Outubro 26, 2007 @ 20:33