O Insurgente

Outubro 21, 2007

Quando a verdade não interessa

Arquivar em: Educação, Insurgentes nos media, Política, Teoria — André Azevedo Alves @ 19:43

Esta parece-me uma boa altura para recordar a polémica gerada em torno de um artigo científico de Satoshi Kanazawa (“Mind the gap…in intelligence: Re-examining the relationship between inequality and health”, publicado no British Journal of Health Psychology).

Escrevi sobre o assunto num artigo intitulado “O politicamente correcto: uma nova tirania?”, publicado na Atlântico 22, de Janeiro de 2007:

Ora, o que é preocupante na polémica gerada em torno deste caso é que a generalidade das reacções críticas ao trabalho de Kanazawa não têm por objecto os seus pressupostos ou métodos de análise mas sim as suas conclusões, consideradas inaceitáveis e “racistas” em si mesmas. Aliás, muitos dos mais ferozes críticos até admitem não ter lido o estudo, sem que isso os impeça de exigir a repreensão, censura pública ou mesmo o despedimento de Kanazawa.

(…)

A generalidade das críticas partilhou um traço comum: um estilo emocional em que a invocação de uma violação das regras do cânone politicamente correcto se sobrepõe a qualquer argumentação racional. Este é, infelizmente, um padrão que se tem tornado cada vez mais comum nas sociedades ocidentais. Basta recordar a forma como qualquer argumento económico contrário a uma medida considerada “progressista” é facilmente (des)classificado como sendo “economicista”, independentemente da sua validade. Ou como o debate sobre o ambiente está cada vez mais contaminado por convicções eco-religiosas que levam a que qualquer dúvida ou contestação levantada à agenda dos ambientalistas radicais seja vista como uma heresia merecedora de condenação moral.

Em algumas áreas, como os “estudos de género”, é até difícil descortinar onde acabam o activismo político e as causas politicamente correctas e começa a investigação científica propriamente dita. Acima de tudo, ao analisar casos como o de Kanazawa, importa ter presente que os efeitos mais graves da tirania do politicamente correcto na área académica não são os (danosos) efeitos directos nos estudos e nos autores que são tomados como alvos preferenciais mas o efeito inibidor que é exercido sobre o trabalho científico em geral. Especialmente quando a pressão para obter conclusões politicamente correctas é omnipresente e pode destruir carreiras.

9 Comentários »

  1. Não discordando do artigo, convém referir que o perigo que os liberais conservadores correm ao utilizarem o politicamente incorrecto (a contra-corrente) é o de não conseguirem distinguir o politicamente incorrecto do racismo, xenofobia, homofobia gratuitos.

    É importante ainda distinguir os cientistas enquanto investigadores e os cientistas enquanto pessoas. Muitos dos cientistas que trabalham nesta área vêem-se no direito de se ingerir em assuntos de direito social.

    “Rushton has not only contributed to American Renaissance publications and graced their conferences with his presence but also offered praise and support for the “scholarly” work on racial differences of Henry Garrett, who spent the last two decades of his life opposing the extension of the Constitution to blacks on the basis that the “normal” black resembled a European after frontal lobotomy.” – Sobre o Dr.Rushton, famoso cientista, e desconhecido por mim até hoje, nesta área de investigação.

    Convém não cair no mesmo erro do politicamente correcto e ir pelo politicamente incorrecto gratuito como forma de contra-corrente.

    Ainda um à parte, não entendo porque é que a maioria do debate sobre estes temas se limita ao Caucasiano/Negro e não ao Caucasiano/Asiático. Será porque os estudos apontam para uma maior inteligência média dos segundos?

    Comentário por João — Outubro 21, 2007 @ 20:53

  2. “Ainda um à parte, não entendo porque é que a maioria do debate sobre estes temas se limita ao Caucasiano/Negro e não ao Caucasiano/Asiático. Será porque os estudos apontam para uma maior inteligência média dos segundos?”

    Acho que é por gerar mais polémica. Hipóteses relativas a asiáticos serem, em média, mais inteligentes do que caucasianos aparentemente não violam os cânones do politicamente correcto.

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 21, 2007 @ 21:05

  3. Será só isso? Pelos estudos que vi até agora, poucos estudam a divergência entre todas as raças. A maioria limita-se de facto ao estudo Caucasiano/Negro. Mas a questão nem é no número de estudos de cada raça.

    A questão está na linha ténue entre politicamente incorrecto e a violação de determinados valores. Se o André acha de facto que o politicamente incorrecto é mais vantajoso que o politicamente correcto, em termos de custo/beneficio para as sociedades, então seja, estude-se tudo tirem-se as conclusões e aplique-se o que se tem de aplicar. Mas se defende certos pontos de vista apenas como meio de alimentar um certo ego racial então aí é ir longe demais.

    Mas falando em conclusões, se determinadas raças forem de facto superiores em termos de inteligência a outras raças, quais as implicações práticas de tais estudos? Vamos definir numerus clausus para garantir o acesso de negros às universidades, ou pelo contrário vamos ostracizar os negros para garantir um nível mínimo de qualidade intelectual?

    A ciência sempre se debateu com cânones politicamente correctos sejam eles religiosos ou laicos. Cresceu lado a lado com esses cânones e no fim o que acontece é sempre o mesmo, factos provados superam os cânones.

    Comentário por João — Outubro 21, 2007 @ 21:32

  4. “A questão está na linha ténue entre politicamente incorrecto e a violação de determinados valores.”

    Não. A questão está na tentativa de silenciar a investigação científica quando não se gosta das hipóteses e/ou conclusões.

    É nesse ambiente que o Ocidente vive em cada vez mais matérias e a meu ver isso é extremamente preocupante.

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 21, 2007 @ 21:53

  5. “Não. A questão está na tentativa de silenciar a investigação científica quando não se gosta das hipóteses e/ou conclusões.

    É nesse ambiente que o Ocidente vive em cada vez mais matérias e a meu ver isso é extremamente preocupante.”

    A sua afirmação tem tanto de radical como de errado. Está a partir do principio que o que acontece com um número reduzido de investigadores em matérias delicadas se estende a toda a comunidade cientifica o que não é verdade. A investigação cientifica é bem mais vasta que os assuntos actualmente em discussão, não pode portanto fazer da excepção a regra. Segundo, diga-me em que outra sociedade, que não a ocidental, estes assuntos são estudados? Decerto me dirá que mais nenhuma dedica tempo e fundos a estudar diferenças raciais, no fundo é do que se trata e não pode mascarar o estudo das diferenças raciais com o silenciamento da investigação cientifica fazendo parecer que se trata de um silenciamento vasto.
    Está portanto a pôr em causa a capacidade de instituições privadas decidirem quais investigações darão melhor uso e valor ao seus fundos.

    O André parece-me uma faceta bastante pessimista, à semelhança do seu colega Helder, relativamente à sociedade Ocidental… ;)
    Mas por mim chega de blogs por hoje que tenho de voltar à tese.

    Comentário por João — Outubro 21, 2007 @ 23:00

  6. [...] E já agora, ainda dentro do mesmo tema: Quando a verdade não interessa. [...]

    Pingback por Yet Another Blog » Blog Archive » Acerca das recentes declarações de James Watson… — Outubro 21, 2007 @ 23:19

  7. [...] complementar: Quando a verdade não interessa; O síndrome do Professor [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Quando a verdade não interessa (2) — Outubro 22, 2007 @ 02:19

  8. Dois pontos. Primeiro, estatísticas e individuos. O João confunde tudo. Se as admissões ao ensino superior forem feitas à base da capacidade individual, não interessa qual for a média no grupo étnico respectivo. A média baixa da inteligência de um determinado grupo não impede que um número significativo desse grupo possa atingir altas qualificações. Há,de facto, estudos demonstrando que a média de inteligência de mulheres negras nos EUA é mais alta do que a média de mulheres brancas. De qualquer forma, o conceito inteligência é bastante discútivel e o elemento motivação é de enorme importância.

    Segundo ponto: Quem discute mais a questão racial são os japoneses. Se investigam, não sei. Não tèm grandes razões para o fazer, não tendo significativa imigração não-asiática.
    Mas são abertamente racistas na sua convicção que as outras raças, e especialmente a negra, tem inteligencia inferior à sua. Se calhar têm razão :) )

    O problema actual é o desejo de abafar discussão. Do ponto de vista do anti-racista, esta atitude é contra-producente e só provoca o proverbial ‘back-lash’.

    Comentário por Patricia Lanca — Outubro 22, 2007 @ 03:05

  9. Cara Patrícia tem razão no que diz, mas penso não ter sido essa a lógica da minha argumentação. Apenas quis apresentar uma situação absurda (criação de numerus clausus para determinadas raças) para justificar a existência e a aplicação desses estudos, é óbvio que qualquer individuo de qualquer raça pode ter elevados níveis de desempenho intelectual.

    Diz-me que os japoneses são os que mais discutem este tema e ao mesmo tempo diz-me que são os mais racistas, estarão estes dois factos ligados? O interesse pelas diferenças raciais tem como consequência o aumento do racismo numa sociedade?

    No meio desta discussão, o que consigo perceber é que o André critica os críticos por criticarem o Dr.Watson. Defende-se na base de que não se pode silenciar a ciência. Como se o Dr.Watson tivesse sequer apresentado qualquer facto cientifico para justificar as suas afirmações.

    De facto o que transparece é que nesta questão os estudos aparentam ser uma mescla de dados científicos na maior parte com base meramente estatística, com assumpções pré-concebidas sobre determinadas raças. Se de facto os estudos explicam o mundo de hoje em dia, não explicam o mundo há 2000 anos quando os nórdicos podiam ser considerados bem mais burros que os mestiços egípcios.

    A minha dificuldade em entender o apreço que alguns sentem pelas palavras do Dr.Watson, aceitando-as sem se permitirem sequer uma critica que seja, reside na dúvida da aplicação destes estudos na prática. Eu nem me sinto especialmente ofendido pela existência de qualquer tipo de estudo seja ele de natureza racial, sexual ou social.

    Quem me parece misturar tudo é o André pois mais uma vez aplica ideologias politicas a uma questão que de politica não tem nada. Baseia-se presumo nos números da blogosfera…

    Comentário por João — Outubro 22, 2007 @ 03:54


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