O Insurgente

Outubro 17, 2007

Informação, conhecimento e processo de mercado

Arquivar em: Comentário, Economia, Teoria — André Azevedo Alves @ 16:23

Friedrich HayekO João Miranda procurou esclarecer aqui e aqui a questão levantada neste post, mas o problema mantém-se.

O primeiro esclarecimento falha, entre outros aspectos, porque se aplicaria a praticamente todo o tipo de nova informação, independentemente da sua relevância. Como os resultados passados seriam sempre os mesmos, nada afectaria o modelo em causa. Só que esses hipotéticos modelos (melhor seria falar simplesmente de previsões) dizem respeito ao futuro e o futuro é sempre incerto. As expectativas (sempre subjectivas) dos agentes são formadas com base na informação disponível a cada momento. Quando há novos dados relevantes que são revelados, essas expectativas sofrem ajustamentos. Aliás, se assim não fosse, as cotações nunca sofreriam ajustamentos devido à divulgação de nova informação relevante, o que me parece uma tese muito pouco defensável.

O segundo esclarecimento falha porque subestima a natureza dos problemas de incerteza que o mercado resolve e assenta no que me parece ser um entendimento imperfeito da natureza dispersa e subjectiva do conhecimento em qualquer economia. O problema com que o agente descrito pelo João se confronta não é resolúvel pela formulação de um modelo estatístico para um caso individual nos termos descritos. Face à incerteza com que se confronta, o investidor poderá atribuir uma determinada probabilidade em cada momento à possibilidade de a administração ser desonesta (ou a custos de agência em geral) mas essa probabilidade dependerá necessariamente da informação disponível para o caso individual em análise. Assim, a divulgação de informação relevante pode e deve conduzir a uma reavaliação dessa probabilidade com os consequentes ajustamentos nos fluxos futuros de rendimento esperados para a empresa em causa. É por isso que, desde que lhes atribua credibilidade, o mercado não é indiferente a notícias que colocam em causa (justa ou injustamente) a conduta das administrações das empresas.

O problema de criação e coordenação de informação e conhecimento que o mercado continuamente resolve é muito mais complexo do que o modelo que parece estar subjacente aos dois posts referidos do João Miranda. As características dos custos de agência, a incerteza (que não é a mesma coisa que risco) que necessariamente existe na realidade face à conduta das administrações (assim como a um número praticamente infinito de factores) e a natureza dispersa e subjectiva do conhecimento fazem com que o mercado seja um processo inigualável (e não replicável por nenhum modelo estatístico) de incorporar nas cotações elementos como a reputação ou a credibilidade das equipas de gestão. Mas é precisamente por essas mesmas razões que as estimativas do mercado estão em contínuo ajustamento e são afectadas por toda a nova informação relevante divulgada.

O mais interessante é que é possível não ser ingénuo, nem socialista, nem economista neoclássico e ainda assim cair com relativa facilidade no erro de utilizar uma concepção mecanicista do mercado.

Leitura complementar: O BCP e a assimetria de informação na Bolsa.

21 Comentários »

  1. “O mais interessante é que é possível não ser (…) economista neoclássico e ainda assim cair com relativa facilidade no erro de utilizar uma concepção mecanicista do mercado.”

    Muito pelo contrário emu caro, muito pelo contrário. Os neoclássicos que se dedicam a estes assuntos, já concluiram que se apenas houvesse dois agentes no mercado, um com mais informação do que outro, que então os preços revelam ao menos informado a informação do mais informado. Partiram-se todos quando tentaram generalizar os resultados para 3 agentes, e nem lhes passa pela cabeça generalizar isso para um mercado com múltiplos agentes com múltiplos níveis de informação e de “inside information”. Ou seja, nunca um neoclássico, desde que tenha estudado a matéria, incorreria neste tipo de ingenuidade do João Miranda e também do BZ, que por mais que uma vez escreveu posts onde era implícito, ou explícito, pressupostos deste género.
    É que se é possível que os preços de mercado incorporem toda a informação disponível isso não é de forma alguma sinónimo de que olhando para os preços consigamos extrair de lá toda a informação.

    Comentário por LA-C — Outubro 17, 2007 @ 17:19

  2. “Muito pelo contrário emu caro, muito pelo contrário.”

    Caro LA-C,

    Repara que não me referi a todos os neoclássicos (nem sequer a todos os socialistas ou todos os ingénuos). Salientei apenas que são «classes» com características que propiciam que caiam neste tipo de erros.

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 17, 2007 @ 18:48

  3. Tal qual como o clima! ;-)

    Comentário por lucklucky — Outubro 17, 2007 @ 18:49

  4. “É que se é possível que os preços de mercado incorporem toda a informação disponível isso não é de forma alguma sinónimo de que olhando para os preços consigamos extrair de lá toda a informação.”

    Exacto. O mais curioso com o equívoco criticado no post é que, caso estivesse correcto, na realidade – embora à primeira vista não pareça – seria um argumento a favor do socialismo e/ou do intervencionismo.

    A complexidade dos problemas de informação que o processo de mercado resolve (ou melhor: vai continuamente resolvendo por um número tendencialmente infinito de ajustamentos descentralizados recíprocos) é incomensuravelmente maior do que a que está implícita na forma como o JM colocou o problema neste caso.

    Não tenho dúvidas que foi uma tentativa consciente de simplificação para ilustrar o argumento, mas não saiu bem.

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 17, 2007 @ 18:54

  5. “Tal qual como o clima!”

    Em parte, mas prefiro não misturar os temas.

    De qualquer forma, a ter de comparar, diria que o tratamento da informação na economia é um problema substancialmente mais complexo mesmo do que o clima (o que não é só por si um argumento a favor dos modelos de previsão climática, especialmente a longo prazo).

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 17, 2007 @ 18:56

  6. “neoclássicos que se dedicam a estes assuntos, já concluiram que se apenas houvesse dois agentes no mercado, um com mais informação do que outro, que então os preços revelam ao menos informado a informação do mais informado. Partiram-se todos quando tentaram generalizar os resultados para 3 agentes, e nem lhes passa pela cabeça generalizar isso para um mercado com múltiplos agentes com múltiplos níveis de informação e de “inside information”.”

    Só mais uma coisa: estando (metodologicamente falando) em minoria deve-me ser concedida margem acrescida para dar alfinetadas na ortodoxia. ;)

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 17, 2007 @ 18:58

  7. ««É que se é possível que os preços de mercado incorporem toda a informação disponível isso não é de forma alguma sinónimo de que olhando para os preços consigamos extrair de lá toda a informação.»»

    Nunca vi ninguém defender isso. É absurdo. A conversão de informação em preços é um processo irreversível pelo que não é possível recuperar a informação dos preços.

    Comentário por JoaoMiranda — Outubro 17, 2007 @ 19:02

  8. [...] João Miranda respondeu a este meu post aqui. Recomendo a leitura atenta da resposta. Se me for possível, ainda voltarei ao [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Informação, conhecimento e processo de mercado (2) — Outubro 17, 2007 @ 19:19

  9. “Só mais uma coisa: estando (metodologicamente falando) em minoria deve-me ser concedida margem acrescida para dar alfinetadas na ortodoxia. ”
    :)

    “Nunca vi ninguém defender isso.”

    João, olha que há quem defenda.
    Abraço

    Comentário por LA-C — Outubro 17, 2007 @ 19:31

  10. [...] louvável esclarecimento do André Azevedo Alves, com o qual concordo integralmente (leia-se o post todo, que vale a pena). Não percebo sequer se [...]

    Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » Is Bayesian updating imperative? — Outubro 17, 2007 @ 19:33

  11. O Joao Miranda continua a achar que a informacao nao e’ nova porque ja’ esta’ incorporada, gostava de facto que ele explicitasse o seu posicionamento face ‘a discussao entre Bayesianos e nao Bayesianos.

    Comentário por Tiago Mendes — Outubro 17, 2007 @ 20:21

  12. “Assim, a divulgação de informação relevante pode e deve conduzir a uma reavaliação dessa probabilidade com os consequentes ajustamentos nos fluxos futuros de rendimento esperados para a empresa em causa.”
    “(…) as estimativas do mercado estão em contínuo ajustamento e são afectadas por toda a nova informação relevante divulgada.”

    O que, entre outras coisas, gera um significativo mercado laboral e horas de entretenimento incalculável (see…?) para os seus participantes.
    O mesmo é válido para o reconhecimento constante de nova informação sobre todas as variáveis do negócio, para além das imesperadas revelações ligadas às práticas de gestão (ou governance).

    Comentário por LA — Outubro 17, 2007 @ 22:05

  13. [...] Concordo o conteúdo do que o AAA escreve aqui, ao que gostaria de acrescentar alguns comentários. [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Informação, conhecimento e processo de mercado (3) — Outubro 17, 2007 @ 22:15

  14. Ninguém tem a certeza que seja nova nem nunca ninguém o saberá se era ou não.

    Mesmo que seja informação nova para todos (o que não é certo) o resultado da sua incorporação é totalmente incerta.

    Pode ser considerada “Má” e fazer subir as cotações como ser considerada “Boa” e fazer descer.

    Nunca se poderá isolar bits de “informação” e dizer isto provocou a subida em x% e este outro bit de “informação” fez descer.

    Comentário por CN — Outubro 17, 2007 @ 22:18

  15. ou pior: se formos os unicos a saber uma nova informação, que vai fazer subir ou vai fazer descer (até porquque horizonte temporal se vai usar?)

    Comentário por CN — Outubro 17, 2007 @ 23:01

  16. “O que, entre outras coisas, gera um significativo mercado laboral e horas de entretenimento incalculável (see…?) para os seus participantes.”

    Fássista!

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 17, 2007 @ 23:14

  17. “Ninguém tem a certeza que seja nova nem nunca ninguém o saberá se era ou não.”

    100% de acordo. Mas é perfeitamente possível discutir o que será mais provável (ainda que sem certezas – como tive o cuidado de salvaguardar sempre).

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 17, 2007 @ 23:15

  18. [...] seguimento deste meu post, recomendo a leitura da resposta do João Miranda, deste texto do Rodrigo Adão da Fonseca e dos [...]

    Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » O caso BCP e o tratamento da informação pelo mercado — Outubro 18, 2007 @ 01:03

  19. “Partiram-se todos quando tentaram generalizar os resultados para 3 agentes, e nem lhes passa pela cabeça generalizar [a revelação de informação através dos preços] para um mercado com múltiplos agentes com múltiplos níveis de informação e de “inside information”. Ou seja, nunca um neoclássico, desde que tenha estudado a matéria, incorreria neste tipo de ingenuidade do João Miranda e também do BZ, que por mais que uma vez escreveu posts onde era implícito, ou explícito, pressupostos deste género.”

    Caro LA-C, não posso dizer que nunca cometi tal erro. Mas sobre insider trading escrevi – anos atrás – o seguinte:

    “imagine-se que o vendedor tinha a possibilidade (legal) de, baseado em informação “privilegiada”, efectuar operações de bolsa. Deste modo, ele estaria a intervir no mercado segundo a sua percepção do “real” preço das acções. No caso de [antecipadamente] acreditar no mau trimestre da empresa, ele irá vender as acções da mesma. Dado que o montante movimentado pelo vendedor não é suficiente para fazer a cotação baixar, ele continua a ser o único possuidor da informação “privilegiada”.

    Mas, então porque não continuar com esta estratégia? Porque é apenas a sua percepção… e pode estar errada! O privilégio da informação está limitado ao que ele conhece da empresa – ele não sabe o que os outros trabalhadores sabem e nem sabe o que os actuais e potencias accionistas pensam saber.”

    Quando faço referência a informação revelada pelo mercado a intenção é apontar, exclusivamente, a percepção dos investidores sobre o valor da empresa. O que um analista de mercado faz é – com a informação que tem disponível – tentar “interpretar” tais percepções.

    Em algum anterior post, ao fazer tal análise posso, inadvertidamente, ter cometido o erro de não explicitar bem que se tratava da minha interpretação, baseada em informação de que dispunha. Se isso aconteceu, aqui ficam as minhas desculpas.

    Comentário por BZ — Outubro 18, 2007 @ 12:23

  20. BZ, agora ao ler este comentario fiquei com duvidas. Com certeza que erradamente te atribui a autoria de algum texto que li.

    Comentário por LA-C — Outubro 18, 2007 @ 18:57

  21. Concordo com o comentário do Bz.

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 18, 2007 @ 22:44


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