Concordo com o conteúdo do que o AAA escreve aqui, ao que gostaria de acrescentar alguns comentários.
Desde logo, as preferências dos investidores são subjectivas, daí que a forma como filtram a informação seja distinta. As percepções sobre o risco do investimento, o próprio retorno esperado e o timing da sua capitalização (que pode ser de curto, médio e longo prazo) levam a que um mesmo facto possa ter efeitos difusos numa cotação. Os mercados são por isso o melhor meio para balancear (não gosto da expressão “equilibrar”) todas estas expectativas e projecções, tantas vezes de sentido inverso, de forma espontânea (só por isso há gente disposta a comprar e a vender, a vários preços, perante um facto novo; numa sessão de bolsa, e pese embora seja apresentada uma cotação, formam-se milhares de combinações de preço). Para um investidor de longo prazo, as crises na governação de uma empresa podem conduzir a uma apreciação negativa, e a uma desvalorização aos seus olhos da acção, ao mesmo tempo que o enfraquecimento do management pode, em sentido inverso, ser um incentivo para os especuladores, que acreditem que isso, v.g., reforça a probabilidade de takeover.
Acresce que nem sempre a informação é conhecida por todos os agentes ao mesmo momento. Embora haja um enorme esforço no sentido de eliminar este gap , impondo regras de transparência e divulgação da informação tida como essencial, há sempre um grau de assimetria, maior ou menor, que torna incerta qualquer projecção. A própria forma como os factos são apresentados, e o momento escolhido para a sua divulgação – mesmo notícias aparentemente espontâneas, são lançadas para arena pública selectivamente – tornam os mercados imperfeitos.
A maturidade de um mercado vê-se, não apenas pela rentabilidade das empresas, mas também pela qualidade da informação disponível, pela transparência das regras e processos, pela resposta dada pelos supervisores quando são chamados a intervir em situações mais sensíveis, pela celeridade e bom juízo dos tribunais, e pela capacidade que os intervenientes têm de filtrar e enquadrar aquilo que vai ocorrendo.
Mais: se há tendência que funciona nos mercados, é a que se estabelece entre (A) os processos de transparência, qualidade da informação e boa governação, e a (B) exigência de um retorno adicional face ao risco. Assim, quanto maior for (A), tendencialmente menor será (B). Mas mesmo esta correlação, desejável para a maioria, pode ser perversa para certo tipo de investidores, pois os mercados maduros, muitas vezes, afastam os especuladores, já que a incerteza beneficia as oscilações nas cotações, tão do agrado dos “jogadores”.
Nos mercados, não basta conhecer as “receitas”, sendo essencial saber “ler os sinais”. O bom gestor não é só o que processa os dados patrocinados pelo real, e da realidade retira ilações, mas o que é capaz de fazer o seu caminho num contexto de assimetria de informação e incerteza.
Para quando um Nobel para Kirzner?
Algumas notas:
A incerteza é um dado da realidade.
Não existe “risco” no verdadeiro sentido de se conhecerem probabilidades. Nunca se conhecem as probabilidades.
Nunca se sabe bem o que é informação “nova” e “antiga” e nunca se saberá mesmo a posteriori.
Os resultados não parecem ter sido manipulados, assim mesmo se for totalmente nova para todos, pode fazer aumentar a expectativa de maiores resultados no futuro. Ou não.
E já algo off-topoic ou talvez não:
Também não é certo qual seja o nivel de informação óptima.
No limite, a transparência a 100% significaria transmitir frase a frase dita numa empresa para o “mercado” (imaginemos tornado obrigatório pelo Estado via reguladores) mataria por completo a economia.
Ora, esta redução ao absurdo percebe-se , mas como determinar o equilibrio “óptimo” de transparência (a que é passivel de não se dar)?
Ninguém sabe. NO outro extremo e por redução (nem por isso) ao absurdo, o melhor era nem sequer ser obrigatório a publicar resultados.
Só o faria quem quer. E as bolsas poderiam ou não colocar condições para serem cotadas como publicar resultados com certa frequência e outras infromações.
A concorrência entre bolsas faria o resto. Se alguém acha que tem especial jeito para “formatar” (que informação exigir, que regras de transp. obrigar as empresas que ai desejam ser transaccionadas, etc) uma bolsa de sucesso, pode fazê-lo como empresário.
Comentário por CN — Outubro 17, 2007 @ 22:58