Só parcialmente estou de acordo com o que o João Miranda escreveu aqui. Estou de acordo com a descrição da natureza e função da Bolsa:
A bolsa de valores é uma instituição que premeia a divulgação e transação de informações. E essa é a sua função essencial. É absurdo desejar uma bolsa asséptica em que toda a informação é dada e ninguém engana ninguém. Essa bolsa mítica não existe, não pode existir e se existisse seria inútil. A bolsa de valores é uma instituição útil porque ela é o melhor mecanismo de avaliação de uma empresa num ambiente de assimetria de informação.
Mas não concordo quando o João afirma que, por o caso de perdão de dívida de que agora se fala ter ocorrido em 2004, já está há muito necessariamente incorporado no valor das acções. E não concordo porque o efeito principal da revelação da notícia é colocar em causa (justa ou injustamente é outra questão que não discuto aqui) a conduta da administração de topo do BCP. Esse efeito é muito mais relevante do que o valor dos créditos em causa, e a existência de inside information sobre os mesmos não permitiria incorporar o seu valor nas acções. Isto porque o efeito mais relevante se dá com a publicitação e não com a ocorrência do (alegado) favorecimento. Em especial no sector financeiro, onde a reputação é um bem intangível valiosíssimo.
O facto de a cotação do BCP ter reagido em baixa (num dia em que BPI e BES estiveram essencialmente flat) reforça a razoabilidade desta interpretação (indiciando que os factos não estariam incorporados no valor das acções) embora, naturalmente, não o comprove. Assinale-se também que a perda de cotação gerou uma perda de valor do banco muito superior ao valor dos créditos em causa. Não surpreende por isso que a administração do BCP esteja apreensiva e anuncie já para hoje a divulgação dos resultados de uma averiguação interna às suas operações de crédito.
A perda da cotação reflecte a deterioração dos cash flows previstos decorrente da gestão de um banco que empresta esparrames de dinheiro aos filhos e depois “deixam ficar assim”. Para além de que empréstimos a accionistas gera uma falsa alavancagem pelo que esta descoberta levanta suspeitas sobre muito mais que possa existir.
Comentário por tonibler — Outubro 16, 2007 @ 01:25
Mas como é que sabem se não há mais casos desses? Mais “perdões de dívida”.
Comentário por Filipe Abrantes — Outubro 16, 2007 @ 03:26
“Mas como é que sabem se não há mais casos desses? Mais “perdões de dívida”.”
Penso que o comentário do Tonibler responde a isso. Não se sabe mas existem suspeitas. Penso que cabe aos accionistas accionarem os mecanismos que permitam essa averiguação. Nomeadamente através de uma auditoria.
Comentário por Miguel — Outubro 16, 2007 @ 08:34
Uma das grandes funções do “mercado” é conseguir difundir informação que não conhecida por todos mas é por alguns.
Os participantes descontam os cash-floes futuros com uma taxa que incorpora a incerteza sobre a informação.
Pretender forçar a “divulgação de informação” (tendência dos “reguladores”) é mais uma subversão em moda.
Comentário por CN — Outubro 16, 2007 @ 10:59
“Pretender forçar a “divulgação de informação” (tendência dos “reguladores”) é mais uma subversão em moda.”
O que é que isso tem a ver com o post?
Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 16, 2007 @ 12:14
Ei calma, não me estava a referir ao post mas à tendência regulamentar em geral.
Comentário por CN — Outubro 16, 2007 @ 15:16
Penso que poderei estar apenas a voltar ao mesmo, mas também há que contabilizar que se surgem dúvidas sobre a idoneidade dos administradores, surgem não só suspeitas sobre outros possíveis “perdões” mas também sobre quão fiáveis serão so relatórios (é a simples questão das suspeitas: o que impede alguém de agir por nepotismo de também “aldrabar” os lucros?). Além disso estas notícias podem deteriorar a reputação do banco e assim fazer fugir clientes para concorrentes (o que será lógico se acharem que poderão ser clientes de “segunda”).
Como disse o Miguel, a auditoria poderá suavizar as críticas…
Comentário por João André — Outubro 16, 2007 @ 15:26
[...] Leitura complementar: O BCP e a assimetria de informação na Bolsa. [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Informação, conhecimento e processo de mercado — Outubro 17, 2007 @ 16:23