História Viva. Por Rui Ramos.
Haverá gente ansiosa por reviver o passado? Ao contrário da república actual, a de 1910 era um regime onde um partido era dono do Estado, e os outros, quando muito, tolerados desde que em submissão. O partido-dono – o Partido Republicano Português – distinguia-se então pelo laicismo. Talvez por isso, sobeja hoje rapaziada para fazer de laicistas. Falta, porém, gente para fazer de clericais – indispensáveis para justificar a soberania dos primeiros. É o velho problema, se bem me lembro, dos índios e cowboys: ninguém queria fazer de índio. Daí o afã de vários batedores para obrigar os clericais a sair do mato. Assim se festejou o último referendo como o fim do catolicismo, ou se aplaudiram as dificuldades à assistência religiosa nos hospitais. Sem grande resultado. Há duas semanas, o bispo do Porto, aliás um excelente historiador, preveniu os católicos para não se deixarem “arrastar para uma querela ideológica” à boleia do centenário de 2010. Definitivamente, os clericais são uns desmancha-prazeres. Por isso, a comissão propõe uma pega de cernelha: comemorar 1910 com alterações ao código civil. Em Espanha, teve algum efeito.
Dirão que isto não importa. Mas importa evitar apropriações do actual regime através da manipulação da história. A comissão enfeitou-se com uma citação de Goethe: “o melhor que a história nos dá é suscitar o nosso entusiasmo”. Às vezes, é outra coisa: é compreender a insensatez de certos entusiasmos.