O Insurgente

Outubro 11, 2007

De pequenino é que se torce o pepino

Arquivado como: Educação, Portugal — LT @ 3:25 pm

Alguns alunos de escolas secundárias da região do grande Porto estiveram/estão hoje a manifestar-se por um “ensino de qualidade”. Entre as principais reivindicações dos estudantes encontramos:

O fim dos exames nacionais, implementação da educação sexual nas escolas, fim das aulas de substituição, redução do número de alunos por turma, redução dos programas escolares, melhoria das condições materiais e humanas na escola e fim das barreiras no acesso ao Ensino Superior.

Ora com a excepção de uma medida que me parece acertada (educação sexual - principalmente pelo papel potencialmente preventivo face às DST) e de outra que, embora válida, de tão genérica e recorrente perde parte da sua relevância (melhoria das condições materiais e humanas), todas as outras “bandeiras de luta” apontam no caminho de um facilitismo deveras preocupante.

É óbvio que quantos menos alunos uma turma tiver mais fácil se torna aos professores dedicar mais atenção a cada um deles. De igual forma, se o volume de “matéria” dada num ano se reduzir será mais fácil apreender todos os assuntos cobertos. Se as disciplinas deixarem de ter uma prova final que aborde todos os temas cobertos durante o ano e que seja igual para todos os alunos e todas as escolas, claramente será mais fácil passar de ano. Finalmente, se não existirem barreiras no acesso ao ensino superior será ridiculamente fácil entrar numa universidade, bastará para tal a vontade de o fazer.

Não tenhamos dúvidas: estas são medidas que combateriam eficazmente o insucesso escolar. Mas seria o equivalente a um saltador em altura, que se quer profissional, baixar a fasquia para uns 50 cms. E nem quero entrar pelos custos que estas medidas implicariam, para não ser acusado de ter uma visão economicista. Mas acima de tudo é perturbante verificar que estes jovens são o reflexo de uma sociedade cada vez mais preocupada com direitos (e menos ou nada com deveres) e com a descoberta do easy way out.

8 Comentários »

  1. Portanto, pela sua lógica, o ideal será avaliar os alunos da 1ª classe com exames de trigonometria.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 11, 2007 @ 3:54 pm

  2. Essa dicotomia do fácil / difícil é irrelevante, e apenas se entende por baseada em preconceitos ideológicos (o “esforço”, o “mérito”, etc.)

    Pode-se discutir que escola queremos, mas terá de ser com base nos objectivos / resultados.

    Por exemplo, a redução do número de alunos por turma é uma medida inatacável a nivel pedagógico. Note-se que, INDEPENDENTEMENTE do grau de dificuldade das matérias (e eu estou contra muito do facilitismo actual), um menor número de alunos por turma resulta numa mais “fácil” compreensão das matérias em questão. Eu pensava que o que se queria na escola era, justamente, que os alunos compreendessem as matérias em questão. Isto não tem nada a ver com afrouxar os programas para facilitar o sucesso escolar, aliás, se virmos bem, a exigência deve vir acompanhada das condições materiais e humanas para a sua execução.

    Ou então, numa lógica pedagógica retorcida ideologicamente, porque não turmas com 80 alunos, para tornar o ensino verdadeiramente DIFÍCIL?

    Cabe ainda perguntar qual o tamanho das turmas nos colégios privados mais caros e reputados.

    Quanto à redução dos programas, se, por princípio, defendo programas exigentes e completos, talvez seja bom interrogar a realidade e verificar de que programas estão estes alunos a falar. Qualquer um que acompanhe a educação de um filho entre os 10 e os 17 anos sabe o que eu digo. Serem exigentes não significa serem absurdamente extensos, impossíveis de aplicar na totalidade, cheios de “palha”, e, justamente, amputados de aspectos essenciais em troca de uma lenga-lenga interminável à volta dos mesmos assuntos. Já para não falar da absurda carga horária que os alunos actuais tem de cumprir, e que pouco tempo deixa para o estudo, e para aquela outra parte da vida que é tão importante num momento em que a pessoa se reconhece a si mesma.

    Já quanto ao Ensino Superior, estou em desacordo com os alunos.

    Era conveniente, caro LT, que, por vezes, descessemos do pedestal dos princípios para que se entendam a realidade das coisas de que falamos.

    Agora tenho pouco tempo, mas hei-de voltar ao assunto um dia destes (lol)

    Comentário por André Carapinha — Outubro 11, 2007 @ 4:08 pm

  3. Mas será que o grau de exigência subiu assim tanto nos últimos 15 anos? É que quando eu tive no secundário a exigência era adequada ao que se dava de matéria. E tinha turmas com 30 alunos (e não com os 20 que eram hoje exigidos) e aulas de substituição… E trigonometria, se me lembro correctamente, era dado no 7º ou 8º (ou coisa do género).

    Não percebo onde quer chegar. Acha que se devem reduzir os programas, que somos hoje em dia demasiado exigentes com os nosso alunos???

    Comentário por LT — Outubro 11, 2007 @ 4:13 pm

  4. Fim dos exames nacionais:
    Sim, desde que substituídos por exames de entrada em cada ciclo, elaborados por cada escola em função das suas circunstâncias e objectivos. É urgente, sobretudo, pôr fim à logística grotesca dos exames centralizados tal como existem hoje.

    Educação sexual nas escolas:
    Sim, desde que não sirva de veículo a uma moral sexual particular. Como isto não é humanamente possível, o melhor talvez seja que não a haja.

    Redução do número de alunos por turma:
    Sim. Nem sempre a facilidade é facilitismo. Com um processador de texto é mais fácil redigir uma tese do que com uma máquina de escrever, e não me parece que isto represente um retocesso.

    Redução dos programas escolares:
    Sim. Não. Redução ou eliminação da parte do programa de História que não é História, da parte do programa de Filosofia que não é Filosofia, do programa de Inglês que não é Inglês, e assim sucessivamente. Com os programas tais como estão, seria possível o aparente paradoxo de os aumentar em 100% reduzindo-os em 80%.

    Melhoria das condições materiais e humanas nas escolas:
    Sim. Para começar, devia ser proibido que um único gabinete de qualquer entidade dependente do Ministério da Educação tivesse aquecimento ou ar condicionado enquanto houvesse uma única sala de aula sem condições de conforto.

    Fim das barreiras no acesso ao ensino superior:
    Sim, no que respeita as barreiras burocráticas actualmente existentes. Não, no que respeita as barreiras que os estabelecimentos quisessem estabelecer com fundamento nos seus próprios critérios de qualidade e exigência.

    Comentário por José Luiz Sarmento — Outubro 11, 2007 @ 4:19 pm

  5. “Portanto, pela sua lógica, o ideal será avaliar os alunos da 1ª classe com exames de trigonometria.”

    Se o objectivo de todos nós é o avanço e o desenvolvimento da nssa sociedade, e da humanidade em geral, a resposta a esta afirmação é SIM, espero que algum dia as nossas crianças estejam a fazer exames sobre trignometria na 1ª classe!

    Porque isso irá significar que na 5ª classe estarão a aprender Cálculo Derivativo, na 7ª classe Cálculo Integral, na 10ª classe Equações Diferenciais e no 12º ano Análise Complexa! E na altura em que elas entrarem para a faculdade, irão aprender coisas com as quais nenhum de nós aqui presentes alguma vez sonhou!

    Isso significará que a nossa sociedade avançou, que ficámos mais inteligentes, mais capazes, mais conhecedores deste Universo tão misterioso.

    E isto só é possível se puxarmos a fasquia para cima, se exigirmos mais. Mas aparentemente isso é muito difícil…

    Comentário por ulaikamor — Outubro 11, 2007 @ 4:37 pm

  6. Os alunos devem aprender aquilo que e’ possivel ensinar-lhes em determinada idade, e devem ser examinados naquilo que aprenderam ou deveriam ter aprendido.
    Uma coisa e’ certa: nada que tenha valor se consegue sem esforço. Isso significa que diplomas, sejam eles de que grau forem, têm de reflectir um verdadeiro esforço por parte do aluno para atingir um certo grau de conhecimento e competencia. De outro modo, não valem o papel em que estão escritos.
    De qualquer modo, acho ridicula a importancia que se da’ a’ opinião de pessoas que não têm maturidade suficiente para avaliar o que quer que seja. E’ um reflexo da excessiva glorificação da juventude.

    Comentário por Pedro Beirao — Outubro 11, 2007 @ 5:19 pm

  7. Caro LT:

    Como se depreende do que escrevi antes (caso contrário, perdoe-me não ter sido suficientemente explícito), não acho que o grau de exigência tenha subido, antes pelo contrário (eu escrevi “o facilitismo actual”).

    O que eu acho, e que foi o que lhe disse antes, é que a redução do número de alunos por turma é um objectivo que deve ser visto independentemente de se estar a dar um programa fácil ou difícil, porque pedagogicamente é evidente que as matérias são melhor transmitidas e trabalhadas pelos professores e alunos. Aliás, nem consigo entender como pode pensar de outro modo, a não ser como um tiro ao lado motivado por evidentes premissas ideológicas.

    Por exemplo, saiba o caro LT que estudei a primária em Angola, com turmas de 45 alunos. Acha então que foram as minhas turmas melhores para a minha aprendizagem do que as suas turmas de 30 alunos?

    Por isso mesmo eu escrevi antes que essa dicotomia “fácil/difícil” é outro tiro ao lado. Não há nada de errado em facilitar a aprendizagem aos alunos, o que é errado é facilitar a sua transição de ano sem que tenham aprendido o que quer que seja, e que é, infelizmente, a tendência actual (em que os alunos são divididos entre “os que querem acabar o 12º”, que não sabem quase nada, e “os que tem aspirações de futuro” -i.e., ensino superior -, que vão sabendo umas coisas, mais por sua iniciativa que por mérito da escola, e isto desde a sua divisão em turmas, e a sua divisão por diferentes escolas, ou pelo ensino tecnolíco e o ensino “clássico”, mas isto levar-nos-ia por caminhos certamente importantes, mas que não cabem neste curto espaço - Agora tenho pouco tempo, mas hei-de voltar ao assunto um dia destes (lol)).

    Quanto aos programas, penso ter sido suficientemente explicito: os programas actuais não são fáceis nem difíceis: são maus. Porque sobrecarregam os alunos de inutilidades enquanto falham naquilo que é importante. Por isso entendo muito bem os alunos quando pedem programas menos extensos: fartos estão eles de absurdos pedagógicos, já para não falar da criminosa carga horária a que estão sujeitos.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 12, 2007 @ 2:47 am

  8. Nem tanto ao mar nem tanto à terra:

    1. Como é mais que evidente, isto foi manipulação do PCP e/ou do BE.

    2. Se retirarmos a questão da educação sexual, relativamente à qual apenas os efectivamente reaccionários discordam, o que me pareceria interessante seria perguntar quais as razões pelas quais defendem isso.

    Em concreto, aqui vão as minhas opiniões:

    a) Os exames nacionais não servem para rigorosamente nada, e a ligação umbilical que se tem feito entre exames nacionais e exigência é profundamente cretina;

    b) Haver aulas de substituição no actual Ensino Secundário (10º/12º) é profundamente cretino, é estar a chamar a pessoas dos 15 anos para cima crianças pequenas. Porque a verdadeira razão por trás da sua existência é uma perigosíssima lógica de “eles estão bem é dentro da sala de aula e qualquer recreio ou intervalo é perigoso”. Sobre isso, remeto para o último artigo do Carlos Abreu Amorim no Correio da Manhã - não é por acaso que os horários chegaram a ser verdadeiramente insuportáveis, e as coisas agora estão menos mal, ainda que insuficientemente, na sequência das enormes pressões da inefável Boléo Tomé e da sua confederação de associações de pais no final dos anos 80 e início dos anos 90, que tinham por objectivo fazer as pobres criancinhas estarem na escola de manhã à noite.

    c) Redução do número de alunos por turma é um objectivo a cumprir dentro das limitações orçamentais, como é evidente. Melhoria das condições materiais e humanas, idem aspas.

    d) Fim das barreiras no acesso ao Ensino Superior é algo que no mínimo é patético.

    Comentário por Pedro Sá — Outubro 12, 2007 @ 9:37 am

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