O Insurgente

Outubro 2, 2007

O Leviatã vestido numa bela pele de cordeiro

Filed under: Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 14:04

Atlântico 31Rodrigo Adão da Fonseca, ao seu melhor nível, na Atlântico 31:

Parte da esquerda tem como bandeira o combate à política imperialista de Bush e dos neoconservadores”, sem saber minimamente o que isso significa e sem conhecer o fenómeno político norte-americano. Afiança, dotada de uma certeza científica (que ainda assim dispensa em favor de um sistema comunicacional baseado no medo e na crença), que o mundo está a aquecer, e que nos EUA existe, ao lado de uma enorme riqueza, concentrada numa minoria, um vasto Terceiro Mundo, sem perceber que com isso insultam as populações que em boa parte do planeta vivem efectivamente na pobreza e na miséria. É sempre contra Israel e a favor da Palestina, sem conseguir explicar porquê. Cauciona todas as fórmulas folclóricas de combate à fome em África, de solidariedade promoviatlantico_das por ONG’s, pró-esmola, e de manifestações cívico-musicais, ajudam a acalmar as consciências e a aliviar a alma (e permitem papão das multinacionais). Recusa porém as soluções que facto ajudar o continente negro, como a diminuição das barreiras alfandegárias e a implementação de regras mais justas no comércio por fazerem perigar o Modelo Social Europeu. Quer acabar com os “Muros da Vergonha” em Ceuta e Melilla, mas perde fôlego quando se pede o fim dos grandes Muros, entre outros, as barreiras alfandegárias e os subsídios à agricultura na União Europeia. Tem a expressão “fascista” debaixo da língua sempre pronta para arremessar a quem não acompanhe os seus desvarios, mas fala com ternura e voz tremida das epopeias latino-americanas, da Sierra Maestra e das histórias mirabolantes de Che Guevara e seus apóstolos, de Fidel Castro, de Hugo Chávez y sus muchachos.

(…)

O socialismo real morreu, mas o Fim da História ainda não foi escrito: é longo o caminho das liberdades e penosa e lenta a construção das Sociedades Abertas. Há ainda muitos Muros por cair: as novas esquerdas, imaculadas, aparentemente menos nocivas nos seus discursos vazios e inconsequentes, miraculosamente virginais, sem as manchas do século XX, estão aí, emancipadas, livres de constrangimentos, com os seus “amanhãs que cantam” bem calibrados e, como sempre, dispostas a distribuir o ópio do costume ao povo.

25 Comentários »

  1. Caro André,
    Obrigado pela referência. Sabia também que o artigo te ia agradar:)
    Ab.
    RAF

    Comentário por RAF — Outubro 2, 2007 @ 14:22

  2. Uma excelente radiografia da “esquerda moderna”.
    Deixe-me juntar um bocadinho de sal.
    É que esta esquerda é também contra o sistema, pelas “causas fracturantes”,defensora de modos de vida “alternativos”, contra “esta” globalização,o capitalismo, o imperialismo, o “neoliberalismo”, “o Bush e o Blair, a “fotografia dos Açores”, etc, embora não ligue muito a outro tipo de fotografias no Darfur, no Zimbabwe, etc,etc.

    Rejubila com os “Fóruns Sociais”, enternece-se com a luta “zapatista”, o “comércio justo”, a “revolução bolivariana”, o estado da tripa de Fidel Castro, a “causa palestiniana”, tem estima e consideração pelo Dr Boaventura, abana a cachola embevecida pelos dislates do Bob Geldof e, no seu íntimo, acha pessoas verdadeiramente “esclarecidas” não podem deixar de ser assim mesmo.

    Claro que esta eaquerda, apesar de “compreender” algumas soluções trotskistas, maoístas, marxistas ou anarquistas, é evidentemente avessa a qualquer forma de violência sistemática, e tem a palavra “PAZ” sempre debaixo da língua, não vá a gente pensar que é mera hipocrisia.

    Sim, é verdade que a ideia do operário ou camponês como muralhas de aço da revolução, já foi chão que deu uvas, mas agora temos aí várias bandeiras ao dispor, desde o pacifismo ao multiculturalismo, passando pelo “casamento gay”, a natureza, as minorias culturais, os presos de Guantanamo, os “civis inocentes” palestinianos, o global warming do bush, etc, os OGM do Bush, etc, tudo isto bem demolhado na negação abstracta da legitimidade de quem exerce o poder, da democracia, do mercado e dos principais pressupostos da modernidade.
    E claro, esta esquerda lê Chomsky. Não interessa o livro, uma vez que o argumento é sempre o mesmo.
    Na verdade nem necessita de ler, porque tanto o poste como este comentário sintetizam o “pensamento” do Noam.
    Com mais alguma elaboração, estão aqui, nestas singelas linhas, os estatutos da 5ª Internacional, a Internacional do Contra.

    Comentário por Lidador — Outubro 2, 2007 @ 14:56

  3. O RAF ao seu melhor estilo. Pena e’ que o povo portugues nao seja capaz de perceber patavina daquilo que escreveu. Infelizmente os media portugueses filtram aquilo que se pode escrever e opinar, e insistem em trivialismos, futebois e esquerdices patetinhas.
    Ainda hoje no Jornal da Tarde, um juiz mandou desligar uma linha de alta tensao que passa por cima de populacao. So ouvi populismos e estupidezas da parte da reporter. Nem uma unica pergunta de quanto e’ que ia custar ‘a econmia portuguesa. So’ mesmo perolas como: ” as pessoas sentem-se mal naquela zona ” sem que se especifique do que e’ que sentem mal, sera’ que e’ a comida que esta’ estragada naquela regiao? Ou que havia 5 pessoas que tinham morrido de cancro. Num universo de quantas? E’ mais que a media nacional? “Jornalismo” ao seu melhor.

    Comentário por Carlos Carvalho — Outubro 2, 2007 @ 18:24

  4. E ainda digo mais: vamos esperar mais 20 ou 30 anos e aí sim contar as pessoas que morreram de cancro na zona. Aí poderemos concerteza afirmar que o número está acima da média nacional.
    E já agora, daqui em diante em vez de “pérolas”, os jornalistas deviam era ler os acordãos dos tribunais em directo, para nós sabermos exactamente se as decisões dos juízes vão provocar crises económicas ou não!

    Comentário por Pitágoras — Outubro 2, 2007 @ 19:59

  5. Obrigado a todos pelos simpáticos comentários.

    Comentário por RAF — Outubro 2, 2007 @ 21:23

  6. Ainda em relacao ‘as linhas de alta tensao:

    O juiz decidiu, esta’ decidido. Tudo bem, num estado de direito e’ mesmo assim. Mas levar a decisao do juiz como a absoluta verdade, e tudo o resto sao apenas uns mauzoes capitalistas que querem lixar o pessoal, isso e’ um nojo.
    Pessoas tem cancro em todo o lado do pais e em todo o lado do mundo… e’ preciso medir e elaborar estatisticas para se perceber se existe algum fenomeno anormal. Segundo dados cientificos, um campo electromagnetico, que se saiba, nao causa cancro. Obviamente se houver dados estatisticos que contrariem isso, entao e’ preciso estudar o assunto mais aprofundadamente. MAs sera’ que isso foi feito por este juiz? Fico sem saber! Nao sei, o que vi foram apenas populares e uma presidente da Junta a dizer que as pessoas se sentiam mal… Mal como? Nao se percebe, eles parecem todos saudaveis!
    A reportagem foi um lixo completo, e contrastou com a reportagem feita mais tarde acerca do jogo do Sporting-Kiev que foi feita ao microscopico. Prioridades…

    Comentário por Carlos Carvalho — Outubro 2, 2007 @ 22:19

  7. Meu Deus, ou OH MY GOD…

    O que me deixa tranquillo é assitir à endémica mediocridade de análise dos “liberais” (diga-se, não é deles. Uma teoria mediocre só pode originar arautos mediocres)

    O RAF, neste caso, é como o Yannick Djaló: cada vez que eu o vejo com a bola sinto-me seguro, sei que vai fazer asneira, e que nada vai surgir daquele fogo de vista. Venham muitos assim que a malta agradece.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 3, 2007 @ 03:13

  8. (resumindo a dois ou três postulados entendiveis pelas criaturas):

    - Não percebe nada.
    - Não percebe nada de História. Não percebe nada de Economia.
    - Sobretudo, não percebe nada de Filosofia. Não percebe nada de Filosofia Política.
    - Ignora conceitos essenciais: de Poder, só para dar um exemplo. Está convencido que o mundo que lhe aparece é dado. Ignora a Antropologia. Ignora o reconhecimento de si mesmo como tribal.
    - No fundo, ignora-se.

    Trata-se de um pobre coitado que, imerso na sua infinta ignorância, é incapaz de entender, sequer, aquilo que faz dele a hipótese de ser um ser humano (um Humano). Sobre isso, limita-se a discorrer as teorias que aprendeu na escola errada, em que, nem sequer, foi capaz de aprender o verdadeiro significado de “homo economicus”. Pensa o mundo como um conjunto de vontades livres, é incapaz de entender que não existe nenhuma vontade livre no mundo, nem sequer a dele. Não percebe de onde vem e para onde vai a sua suposta “ideia” de si mesmo.

    Acima de tudo, desconhece-se a si dentro da possibilidade de existência de um Humanismo, o que não surpreende, dado a estupidez intrínseca ao que pensa saber. De um modo bem cristão, perdoe-mo-lo.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 3, 2007 @ 03:30

  9. A vantagem deste tipo de comentários como a André aqui faz, é que são demonstrativos de um certo modo de combater à esquerda. Pequenos insultos, ataques pessoais e nenhuns argumentos.

    E ainda por cima, acaba por ser risível, porque ler o André a chamar ignorante ao Rodrigo, faz-me lembrar uma anedota que por aí corria sobre uma pulga e um elefante.

    Claro que tudo isto só acontece porque o artigo do RAF acertou na mouche. Um tiro certeiro, bem no meio do coração. Quando se falha o alvo, nunca se tem resposta.

    Comentário por jcd — Outubro 3, 2007 @ 11:59

  10. “Trata-se de um pobre coitado que, imerso na sua infinta ignorância, é incapaz de entender, sequer, aquilo que faz dele a hipótese de ser um ser humano (um Humano). Sobre isso, limita-se a discorrer as teorias que aprendeu na escola errada, em que, nem sequer, foi capaz de aprender o verdadeiro significado de “homo economicus”. Pensa o mundo como um conjunto de vontades livres, é incapaz de entender que não existe nenhuma vontade livre no mundo, nem sequer a dele. Não percebe de onde vem e para onde vai a sua suposta “ideia” de si mesmo.”

    A reacção da extrema-esquerda reforça a minha convicção de que o RAF esteve mesmo ao seu melhor nível.

    Como escreveu o JCD, foi na mouche… :)

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 3, 2007 @ 13:53

  11. [...] Comentário do Lidador ao post O Leviatã vestido numa bela pele de cordeiro: Uma excelente radiografia da “esquerda moderna”. Deixe-me juntar um bocadinho de sal. É que esta esquerda é também contra o sistema, pelas “causas fracturantes”,defensora de modos de vida “alternativos”, contra “esta” globalização,o capitalismo, o imperialismo, o “neoliberalismo”, “o Bush e o Blair, a “fotografia dos Açores”, etc, embora não ligue muito a outro tipo de fotografias no Darfur, no Zimbabwe, etc,etc. [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » O Leviatã vestido numa bela pele de cordeiro (2) — Outubro 3, 2007 @ 15:41

  12. Os únicos ataques ad hominem aqui são os do jcd e do AAA sobre mim e não o contrário.

    Quem se der ao esforço de tentar entender (mas será possível, ó Deus, será possível?), facilmete percebe o que eu estou a dizer.

    Quanto à pulga e ao elefante, olhe que não, olhe que não…

    Comentário por André Carapinha — Outubro 3, 2007 @ 15:45

  13. “Os únicos ataques ad hominem aqui são os do jcd e do AAA sobre mim e não o contrário.”

    Como é evidente.

    Comentário por André Azevedo Alves — Outubro 3, 2007 @ 15:49

  14. Caro André (o Carapinha),

    Estou confuso. Por um lado sou ignorante, mas aprendi na escola errada. Afinal, como é, percebi as coisas erradas ou não sei nada de filosofia, história, política, antropologia, e outras coisas e tal?

    Se eu tivesse vivido em Moscovo, talvez fizesse sentido dizer que “não existe nenhuma vontade livre no mundo”, nem sequer a minha. Na verdade, o socialismo real matou o indivíduo, e o seu arbítrio, enbora não a liberdade. E concordo que os comunistas perceberam melhor do que eu o verdadeiro significado de “homo economicus”, antes de o tentar aniquilar. Correu-lhes mal, e esse tipo, lá o “economicus”, anda aí em grande forma.

    Fiquei ainda esclarecido: o que escreves, é da mais p+ura racionalidade crítica; já os comentários do JCD e do AAA, são ad dominem. É mais ou menos como as ditaduras: as de esquerda, são idolatradas, as de direita, são facínoras. Tá bém, tá.

    Já agora, não precisas insultar o Djaló, que não merece ser comparado a um porco libertário, ignorante nos mais variados ramos das humanidades, como este pobre coitado.

    E boa sorte, deve ser difícil ser comunista no séxulo XXI:)

    Comentário por RAF — Outubro 3, 2007 @ 16:16

  15. “André Carapinha diz:

    Os únicos ataques ad hominem aqui são os do jcd e do AAA sobre mim e não o contrário.”

    Surreal.

    Comentário por jcd — Outubro 3, 2007 @ 16:18

  16. RAF:

    Em primeiro lugar, eu não sou comunista. Essas confusões, porém não me espanta. Por estes lugares, tudo o que estiver à esquerda do Sócrates é imediatamente despachado para a rotulagem menorizante dos amigos do Lenine. Fica sabendo que não sou e nunca fui.

    O único comentário que me apraz ter é o de que, como habitualmente, os insurgentes e afins adoptam a táctica da virgem ofendida. E isto depois de um texto que practicamente chama imbecis à esquerda (falam do que não sabem, não são coerente, setc.).

    Tomando o estilo de um comentário teu no meu blogue, tivesses lido tu um bocadinho, mas só um bocadinho, de autores não “liberais” com aspas, tipo o Deleuze ou o Zizek, e não escrevias alarvidades como esta.

    E, se soubesses alguma coisa de Filosofia, serias capaz de entender que “não existe nenhuma vontade livre no mundo”, nem a tua.

    Conto responder a este post em post, isto se o tempo mo permitir, porque enquanto não chegar a ditadura do proletariado, o fim dos tempos do paraíso liberal, ou o Euromilhões, o trabalho que faço para pagar a Internet ocupa-me mais do que eu gostaria.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 4, 2007 @ 03:03

  17. Caro Carapinha,
    Não há paciência, mas estás à vontade para continuar na tua saga rumo a lado nenhum. Embora essa tua decisão de nos massacrar o juízo com opiniões algo subjectivas não seja livre, mas fruto de um contexto exterior que te impele a dizer disparates.
    O Zizek é uma grande seca.
    Abraços
    RAF

    Comentário por RAF — Outubro 4, 2007 @ 09:21

  18. [...] temos de estar abertos à critica, mesmo quando ela roça o insulto e até os ataques pessoais, como aconteceu na caixa de comentários do Insurgente. Agora, de facto, fico algo surpreendido por ter no Corta-Fitas 3.536 caracteres (com espaços) de [...]

    Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » É o que dá dormir a sesta — Outubro 4, 2007 @ 16:22

  19. Quando alguém atira com Deleuze para a mesa, como se tivesse o Universo na barriga, a patologia é grave, porque os seus textos são de uma obscuridade deliberada, de modo a que ninguém se atreva a dizer que o rei vai nu.
    Mas vai.

    Alan Sokal deu-se ao trabalho ( Imposturas Intelectuais) de analisar algumas postas de Deleuze e chegou à conclusão de que se trata de mera impostura, rendilhados verbais que escondem o nada, tentando alardear erudição.

    Um exemplo:

    “ A filosofia pergunta como guardar as velocidades infinitas ao mesmo tempo que se ganha a consistência, dando um conhecimento próprio ao virtual”

    Que quer isto dizer?
    Pensamento profundo, dirão os patetas, para não parecerem patetas
    Nada, explica Sokal.

    Outro:
    “ A ciência é uma desacelaração fantástica. Uma função é uma Desaceleração”
    Extraordinário, garantem os tolos, que tb não percebam nada, mas acham que os desígnios de Deus são insondáveis.
    Banalidades completamente desprovidas de sentido, esclarece Sokal

    Bem , mas talvez Sokal , eu e 99,99999 % dos leitores sejamos umas bestas, incapazes de ver o brilho da pepita.
    E, uma vez que temos aqui um especialista em exegese de textos deleuzianos, peço-lhe que derrame sobre nós a interpretação correcta do seguinte texto:

    “O perspectivismo ou relativismo científico nunca é relativo a um sujeito: não constitui uma relatividade do verdadeiro, mas sim, pelo contrário, uma verdade do relativo, quer dizer, das variáveis cujos casos ele ordena, conforme os valores que extrai do seu sistema de coordenadas ( assim, a ordem das secções cónicas é obtida conforme as secções do cone cujo cume é ocupado pelo olho)” ( Deleuze e Guattori, 1991, Qu’est-ce que la philosophie?)

    Que é que esta porra quer dizer, em linguagem de gente?

    Comentário por Lidador — Outubro 5, 2007 @ 08:28

  20. Olha,este agora vem com o pateta do Sokal.

    É triste que alguém incapaz de entender transforme essa ignorância numa profissão de fé, e a partir daí numa tese. Mas cada um tem os mestres que quer ter.

    Agora, eu não quero acreditar que 99,999 % dos leitores,estando mais ou menos próximos desta perspectiva, não entendam a passagem:

    «O perspectivismo ou relativismo científico nunca é relativo a um sujeito: não constitui uma relatividade do verdadeiro, mas sim, pelo contrário, uma verdade do relativo, quer dizer, das variáveis cujos casos ele ordena, conforme os valores que extrai do seu sistema de coordenadas ( assim, a ordem das secções cónicas é obtida conforme as secções dmo cone cujo cume é ocupado pelo olho»

    Tem mesmo a certeza que se quer envergonhar ao ponto de eu lhe explicar uma coisa de tão fácil entendimento?

    Comentário por Andé Carapinha — Outubro 5, 2007 @ 14:07

  21. Quero…derrame lá exa exegese sobre nós, os ignaros, os que nos atrevemos a dizer que o rei parece ir nu…

    P.S. Chamar pateta ao Sokal, é obra é como uma amiba chamar enfezada a uma baleia azul.

    Uma das suas “patetices” foi conseguir fazer publicar um paper numa revista famosa pela sua “investigação social e filosófica”, cheio de frases igualmente anedóticas.

    E vir depois mostrar o feito, causando uma momumental casquinada e pondo em fúria os deleuzes, os derridas, os lacans, etc.

    O nada indigna-se quando é posto a nu.

    Mas venha de lá essa exegese…

    Comentário por Lidador — Outubro 5, 2007 @ 14:39

  22. Ok, vou explicar-lhe como se você fosse muito burra.

    Como método, penso que o melhor será uma hermeneutica muito simplista, assim mais ou menos como se explicam os textos de Filosofia do 10º ano aos adolescentes.

    Então vamos lá:

    Vamos começar por dividir o texto em secções de mais fácil entendimento:

    - O perspectivismo ou relativismo científico,

    - nunca é relativo a um sujeito:

    - não constitui uma relatividade do verdadeiro, mas sim, pelo contrário, uma verdade do relativo,

    - quer dizer, das variáveis cujos casos ele ordena, conforme os valores que extrai do seu sistema de coordenadas

    - ( assim, a ordem das secções cónicas é obtida conforme as secções do cone cujo cume é ocupado pelo olho)»

    Após efectuarmos esta divisão, temos já uma noção (isto é, eu calculo que tenha), de que este texto, se analisado deste modo, não é tão complicado como parece. Como vê, quando olhamos para um “todo”, aparentemente “confuso”, por vezes a confusão está no olhar, e não no olhado. Mas continuemos:

    - «O perspectivismo ou relativismo científico» – aqui temos a corrente filosófica, ou de pensamento, que está em análise neste pequeno excerto. Embora o que é defendido por esta corrente não seja á partida relevante para que se entenda o significado deste excerto tão complicado, há uma caracterísitica que é importante para o ponto abaixo: “perspectivismo” ou “relativismo” implicam o abandonar de noções absolutas, em troca da noção de “perspectiva” perante as coisas. Mas mesmo isto não me parecer excessivamente complicado.

    - «nunca é relativo a um sujeito» – significa que o tal “perspectivismo ou relativismo científico”, de acordo com o autor, não se refere a um indivíduo. Isto pode significar que o autor o considera referente a noções como “comunidade”, ou outras. De qualquer maneira, o que interessa é que ele diz que o “relativismo” é referente a um conjunto, e não a um sujeito, assim questionando a hipótese (filosófica) de um sujeito existir isoladamente.

    - «não constitui uma relatividade do verdadeiro, mas sim, pelo contrário, uma verdade do relativo» – Ou seja, a tal questão da perspectiva: o que interessa não é que seja a nossa perspectiva a moldar o nosso olhar para o mundo (relatividade do verdadeiro), mas que a nossa perspectiva do mundo nos molde o nosso olhar para nós (verdade do relativo). Como deve entender, estou a explicar-lhe estas coisas tão complicadas como se você fosse muito burra.

    - «quer dizer, das variáveis cujos casos ele ordena, conforme os valores que extrai do seu sistema de coordenadas» – Decorrendo do acima explicado, significa muito simplesmente que ordenamos as possibilidades que encontramos nas nossa análises de acordo com uma relação que integra o nosso sistema de partida (“de coordenadas”) – voltamos a recordar que o autor pretende explicar o que seja “o relativismo científico”

    - ( assim, a ordem das secções cónicas é obtida conforme as secções do cone cujo cume é ocupado pelo olho)» – Esta parte é uma rasteira, uma vez que este texto, que eu conheço, tem anteriormente outros exemplos que introduzem este (que falam do olho e do cone). De qualquer maneira, não deixa de ser muito fácil de entender o que isto significa em relação ao tal “relativismo”.

    Se se desse o caso de o Deleuze, ou qualquer outro autor com o mínimo de interesse dos últimos 50 anos, ser estudado nos cursos de Filosofia deste país, eu agradeceria ao Lidador o estímulo.

    Não sendo assim, o que devo dizer é que esse imbecil do Sokal serve às mil maravilhas a determinadas pessoas que de tão ignaras cultivam o ressentimento. Sobre o texto de que falamos, parece evidente, podemos discordar, concordar, debater (e note-se, este texto é uma mera análise que nem é relevante no contexto da obra de Deleuze); mas o que faz o Sokal, e que o Lidador tão gosta (e atrevo-me a supor que uns quantos dos bloggers deste espaço), e assumir a limitação, a rejeição de pensar como tese antropológica. Ora, isso define os que a praticam. O que isso quer dizer, entenda você como quiser.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 6, 2007 @ 04:39

  23. E já agora não resisto: a maioria dos melhores professores de Filosofia que tive na faculdade (pois…) eram de Direita. Alguns deles escreveram textos no Público a favor da guerra do Iraque, e chegaram mesmo a dar uma famosa conferência de imprensa em apoio do sr. Bush.

    Pergunte-lhes lá o que eles acham do Sokal.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 6, 2007 @ 04:58

  24. Caro André, há uma diferença abismal entre pensamentos tão profundos cuja expressão não pode ser compreendida pela maioria das pessoas, e linguagem concebida para ser ininteligível, de modo a ocultar a ausência de verdadeiro pensamento.
    O texto que lhe pedi que me “explicasse”, é um exemplo da 2ª categoria.
    A sua palavrosa exegese, demonstra que a principal característica dos textos de Deleuze é a ausência de clareza. Por isso têm de ser clarificados…interpretados pelos discípulos.
    Foi o que você fez…uma interpretação. Podia ter feito dezenas de outras diferentes, sustentadas com a mesma verbosidade oca, “provando” que é um dos priviliegiados que consegue ver e descrever as inexistentes vestes do rei.
    Este texto refere-se à filosofia da ciência. Fala de “interpretações subjectivas da termodinâmica, da relatividade e da física quântica”.
    Não faz qualquer sentido, é puro malabarismo verbal, jogos de palavras com inclusão coreográfica de termos científicos, na tentativa de confundir os cépticos e lograr a admiração dos crentes.

    “Uma função é uma Desaceleração”?

    Que absurdo!
    Mas até eu posso, com o seu “método”, interpretar este dislate do Deleuze.
    Posso por exemplo dizer que a incompletude topológica do excesso do partitivo estipula que o que existe em si é inerentemente concebido, faltando-lhe a causa de si mesmo.
    E que tal falta, pendente sobre o elementar, alimenta a hipotese do contínuo e faz lei daquilo que o excesso no múltiplo não consigna, a não ser a ocupação do lugar vazio, a existência do inexistente próprio do múltiplo inicial.
    É claro que esta filiação mantida da coerência demonstra que o que excede interiormente o todo, mais não faz do que nomear o ponto limite desse todo, ou seja, uma função.
    Mas a hipótese do contínuo não é demonstrável, podendo mostrar-se que as aporias levantadas pelo teorema de Godel nascem, dessa distância enganadora que separa o tempo ficticio, o tempo em que não estamos, do tempo real, por um efeito de refracção ilusória, em durações múltiplas nas quais a simultaneidade se estende em sucessão desacelerada.
    Esta parte é uma rasteira, claro, mas de qualquer maneira, não deixa de ser muito fácil de entender o que isto significa em relação à tal “desaceleração”.

    Como vê, “interpretei” .
    Tal como Deleuze e o André, não disse a ponta de um corno, claro, mas fiz uma figura do caraças, manipulei frases sem sentido e intoxiquei-o com palavras alucinantes.

    Quanto ao “imbecil” do Sokal mais o Jean Bricmont, trata-se apenas do seu “sistema de coordenadas”, pelo que devia ser menos absoluto no insulto tabernícola. O seu pedantismo resulta claramente do facto de permitir que “seja a sua perspectiva a moldar o seu olhar para o mundo (relatividade do verdadeiro)”

    O que é facto é que o “imbecil” agitou o formigueiro de determinados círculos intelectuais, e mostrou que a moderna filosofia francesa é um amontoado de disparates.
    Mostrou que Deleuze (e outros) abusaram repetidamente da terminologia científica da qual tinham uma ideia muito vaga, lançando o jargão científico à cara dos leitores, para impressionar e intimidar.

    “Como deve entender, estou a explicar-lhe estas coisas tão complicadas como se você fosse muito burro”.

    Comentário por Lidador — Outubro 8, 2007 @ 10:18

  25. Meu caro,

    Como você mesmo diz, «há uma diferença abismal entre pensamentos tão profundos cuja expressão não pode ser compreendida pela maioria das pessoas, e linguagem concebida para ser ininteligível, de modo a ocultar a ausência de verdadeiro pensamento.»

    Embora eu ressalve que não considero que haja “pensamentos tão profundos cuja expressão não pode ser compreendida pela maioria das pessoas” (precisam é que se puxe um bocado mais pela cabeça), se não consegue distinguir a diferença entre um e outro tipo, então o problema é seu.

    Quanto ao Deleuze, estamos conversados – de facto, v. é incapaz de o entender. Mas posso dar-lhe uma pista: poderá começar por “interpretar” os seus textos à luz do sistema de conceitos da Filosofia, e não da Ciência.

    Eu não sou favorável a que se escreva de um modo essencialmente ininteligível, agora, há determinadas matérias que não se podem abordar de forma frívola. A Filosofia é uma delas. Por isso é que existem também as obras de divulgação. Pretender que a Filosofia seja escrita de um modo imediatamente acessível, é como querer que os matemáticos simplifiquem os axiomas, de modo a que qualquer um os entenda.

    E quanto ao Sokal, vou-lhe dar só um exemplo: sabia que o Kant, quando escreveu a “Crítica da Razão Pura”, foi atacado pelos sokais do seu tempo, justamente por escrever de um modo ininteligível?

    Pois é, mas a obra impõs-se. Os cães ladram e a caravana passa.

    My case is closed. Não pretendo passar os meus dias em debates intermináveis consigo (nada de pessoal, consigo ou com qualquer outro), por isso antecipo-lhe já que não responderei novamente à sua (eventual) réplica.

    Comentário por André Carapinha — Outubro 9, 2007 @ 17:11


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