O Insurgente

Outubro 2, 2007

O desprezo de Che Guevara

Arquivado em: Internacional, Política — André Azevedo Alves @ 01:30

Atlântico 31Rui Ramos na Atlântico 31:

O “povo” foi a grande companhia imaginária de Guevara. “Sem o apoio da população” nada podia ser feito, repete vezes sem conta. Mas essa população não era a das pessoas que existiam. Era um povo teórico, que o próprio Guevara se propunha criar submetendo a população à hierarquia e disciplina rígidas do exército revolucionário. Fora da hierarquia e da disciplina revolucionária, o povo não lhe interessava: “a democracia revolucionária não se exerce na condução dos exércitos em nenhuma época e em nenhuma parte do mundo, e onde isso foi tentado, acabou em fracasso”. Fala muito dos “camponeses pobres”. Mas diante deles, no Congo e na Bolívia, percebeu que não podia comunicar com eles. No Congo, porque os revolucionários cubanos que o seguiam nunca levaram a sério os nativos: “Os nossos eram estrangeiros, seres superiores, e faziam-no sentir com demasiada frequência”. Ele, porém, não era melhor, quando escrevia que viera para “cubanizar os congolenses”, impor ao seu desleixo a regra ascética do exército revolucionário (ficando furioso quando julgou assistir à “congolização dos cubanos”, contaminados pela anarquia local).

Na Bolívia, os camponeses que o viram e ao seu bando chamaram-lhes, como Guevara notou no diário, “os gringos”. Era o nome dado aos brancos dos EUA. Guevera, o inimigo dos gringos, era um gringo: o filho literato de uma família de aristocratas e milionários argentinos, definido acima de tudo pelo ancestral ressentimento das elites espanholas da América contra os EUA – um sentimento suficientemente forte para a família se lembrar que Guevara, em 1945, se opôs à entrada da Argentina na guerra contra a Alemanha nazi, porque considerava os EUA, e não o nazismo, o inimigo principal.

7 Comentários »

  1. A Argentina foi sempre neutral durante a II Guerra, embora o seu governo de então fosse apoiante do Eixo.
    E a teoria de considerar o imperialismo Estado-Unidense o inimigo e não o nazi-fascismo está correcta, do ponto de vista comunista.

    Comentário por Igor Marques — Outubro 2, 2007 @ 03:50

  2. [...] O “povo” foi a grande companhia imaginária de Guevara. [...]

    Pingback por Cortar a Direito :: Heil Che :: October :: 2007 — Outubro 2, 2007 @ 09:27

  3. E novidades ?

    Comentário por Pedro Sá — Outubro 2, 2007 @ 09:29

  4. Em suma, Che dá umas boas T-shirts e nada mais.

    Comentário por PALAVROSSAVRVS REX — Outubro 2, 2007 @ 10:41

  5. Curiosa a informação hoje veiculada pela TSF – médicos cubanos restabeleceram a visão ao soldado boliviano que matou o Guevara. O homem apresentou-se com outro nome e conseguiu a intervenção cirúrgica; por esta nem a família Castro poderia agora esperar (mesmo que sabuja).

    Comentário por Guilhotina — Outubro 2, 2007 @ 12:34

  6. Interessante a análise da psicologia do Che. Menino de “boas famílias”, arquimimado e superprotegido pelos pais devida à asma crónica de que sofria é o arquétipo perfeito de muitos socialistas (não significa que tenham de sofrer de asma), basta pensarmos em Mário Soares, Jorge Sampaio, Sottomaior Cardia, Teotónio Pereira, Manuel Alegre e quejandos. Essa superprotecção leva-os a terem medo de ser livres, logo, a abominar a responsabilidade que procuram descartar para cima dos outros. Isto leva-os a querer a viver à custa do trabalho dos outros, que é nem mais nem menos do que o objectivo do socialismo. Isto pode ser conseguido de uma forma sanguinária, no caso do comunismo, ou sem violência no caso da nossa “querida” república jacobina. Pensemos apenas nas benesses de nomenclatura da república, os rendimentos de que auferem, e que nada têm a ver com trabalho efectuado, e que nós todo pagamos (quer queiramos quer não) com os nossos impostos. Leia-se a propósito o excelente capítulo do livro “The lost literature of socialism”, já aqui referido por Patrícia Lança, intitulado “The tory tradition of socialism” que analisa muito bem o estado de espírito que leva ao socialismo.

    Comentário por António Bastos — Outubro 2, 2007 @ 16:01

  7. Isto leva-os a querer a viver à custa do trabalho dos outros, que é nem mais nem menos do que o objectivo do socialismo.

    ????

    Comentário por Igor Marques — Outubro 3, 2007 @ 06:56


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