O Insurgente

Setembro 30, 2007

A “cultura” como mecanismo de propaganda do poder e gestão de clientelas políticas

Filed under: Cultura,Política,Portugal,União Europeia — André Azevedo Alves @ 20:48

A CULTURA “OFICIAL” DA UNIÃO EUROPEIA. Por JPP.

A reunião em Lisboa do Fórum Cultural para a Europa foi mais um passo para definir uma política da União Europeia da “cultura”, ou seja, como hoje se diz em burocratês, definir uma “agenda para a cultura”. A seu tempo, como é habitual na UE, as “agendas” transformar-se-ão em “agências”, embriões de ministérios europeus. No caso da “cultura”, isso deve corresponder à institucionalização do modelo francês Malraux-Lang como norma europeia de “cultura”. É natural que assim seja, porque os países mais dirigistas em matéria de cultura, França, Portugal, Bélgica, Espanha, adoptaram-no há muito em detrimento do modelo anglo-saxónico, menos intervencionista.

É natural que os governos, desde a direita à esquerda, dos socialistas ao PPE, estimem esse modelo construído para a glória da França de De Gaulle e Mitterrand, e que assenta na utilização da “cultura” como mecanismo de propaganda do poder, com a enorme vantagem de usar como instrumento uma realidade considerada intangível, intocável e aparentemente incontroversa, eficaz por isso mesmo. Este modelo tem duas consequências, ambas com muito “boa imprensa” e inúmeros e activos defensores com fácil acesso aos media. Uma é criar um establishment cultural dependente do Estado, muito para além da gestão patrimonial, com uma rede de “casas de cultura”, animadores, agentes, produtores, “artistas”, “trabalhadores” do cinema, do teatro, do circo, das marionetes, da “animação de rua”, etc., etc. e toda uma “economia” à sua volta. Outra, e igualmente importante nos tempos que correm, é, através desses agentes, definir uma versão liofilizada politicamente da “cultura europeia” conforme com os paradigmas da UE.

(…)

O segundo aspecto, o de definir, por inclusão e exclusão, a “cultura europeia”, é mais complicado e mexe em muito mais do que a economia. Tornar “europeia” a cultura das nações da Europa é uma tarefa difícil de levar a cabo, não muito diferente da de fazer um manual de “história europeia” que sirva de norma educativa nas escolas da Europa, também desejado pelos eurocratas. O problema é que, entendida nos seus genuínos factores de “unidade”, a cultura europeia está bem longe de ser a versão iluminista, “progressista” e multicultural que a UE precisa para legitimar a sua cosmovisão olímpica.

2 Comentários »

  1. Pensava que estávamos a abraçar um modelo multi-cultural, mas apenas o multi-cultural só serve para darmos lições de moral aos outros, porque para nós só serve uma única cultura…

    Comentário por ulaikamor — Setembro 30, 2007 @ 23:27

  2. É um texto excelente de JPP: no fundo as suas observações são pertinentíssimas – a burocratização postiçante da cultura europeia, a autonegação identitária, sobretudo no que concerne ao cristianismo, assim como as consequências de um Islão de ruptura e rejeição dos mais importantes valores da modernidade e que avança, crente na violência e na demografia, por dentro e a partir de fora da Europa.

    Comentário por PALAVROSSAVRVS REX — Outubro 1, 2007 @ 03:37


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