Quando o Secretário-Geral das Nações Unidas abre as suas declarações numa conferência dizendo que «[o] tempo das dúvidas passou. O painel intergovernamental das Nações Unidas sobre as alterações climáticas afirmou inequivocamente que o nosso sistema climático está a aquecer e que isso se deve directamente às actividades humanas», e quando outros líderes mundiais afirmam coisas equivalentes, a conclusão que podemos tirar é que o método científico passou à história e passámos a tratar assuntos científicos como posições políticas.
Nada de supreendente, na verdade. Michael Polanyi já tinha chamado a atenção, há muitos anos, para os problemas que ocorreriam quando a investigação científica passasse a ser coordenada e dirigida pelo estado ou por instituições políticas. A verdade científica só pode ser atingida por um processo iterativo de confrontação de posições adversas, testes de hipóteses e subsequente validação ou refutação. Polanyi chamou-lhe “um sistema de ordem espontânea baseado na persuasão”. Se existir qualquer impedimento a este processo iterativo, todo o sistema fica comprometido, tornando-se menos eficiente e aumentando a probabilidade de erros passarem despercebidos.
O “painel intergovernamental” referido por Ban Ki-moon, vulgo IPCC, é um orgão político, com influência em várias instituições espalhadas pelo mundo que efectuam investigação ou coordenam a atribuição de fundos para investigação. A insistência na afirmação de que existe um consenso e que já não há dúvidas é a materialização mais evidente de que o processo iterativo de confrontação foi abandonado. A argumentação deu lugar à denúncia dos cépticos como “deniers” (se possível colando-os aos outros “deniers“, os do Holocausto) e às acusações morais aos adversários, questionando os seus motivos. A confusão entre epistemologia e política acaba assim por criar também confusão entre epistemologia e moral.
Leitura Complementar: Juízos, Factos e Valores; Ciência e aquecimento global;James Hansen: do arrefecimento global ao aquecimento global.
Excelente post.
Comentário por André Azevedo Alves — Setembro 26, 2007 @ 00:03
A propósito deste magnífico post, lembro o comentário de AAA mais abaixo sobre a palestra de Vaclav Klaus. Esse sim é um homem que devia ser mais lido, mais escutado. Sobretudo por aqueles que nos querem impingir o modelo escandinavo como se tratasse do paraíso.
Comentário por JP Ribeiro — Setembro 26, 2007 @ 11:20