O Insurgente

Setembro 18, 2007

O incompreensível monopólio estatal do ensino da medicina

Filed under: Economia,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 01:26

O caso da medicina é o mais flagrante exemplo em Portugal de barreiras à entrada numa profissão assentes no controlo do acesso à formação universitária: A excepção da Medicina. Por Vital Moreira.

Enquanto na Arquitectura existem várias escolas privadas que proporcionam o acesso a quem ficar de fora do sistema público, no caso da Medicina tal não sucede, sendo o único caso de monopólio das universidades públicas. Quem não entrar tem de ir para universidades estrangeiras, públicas ou privadas (se tiver os meios necessários, naturalmente…). Ora, se o Estado, apesar de o dever fazer, não consegue oferecer vagas suficientes, mesmo aos bons alunos, deveria pelo menos abrir essa formação às universidades privadas.

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  1. Não é verdade. Todas as tentativas de abertura de escolas privadas de Medicina não tiveram sucesso pela posição da Ordem dos Médicos que se recusa a homologar os cursos.

    Se têm razão na posição que tomam, são outros quinhentos…

    Comentário por Carlos Duarte — Setembro 18, 2007 @ 09:30

  2. Claro que a responsável por este estado de coisas é a Ordem dos Médicos.
    É a única classe que tem forçado, de uma maneira ou outra, a abertura de mais vagas. Sabem perfeitamente que a escassez de oferta de médicos (ao contrário do que sucede nas outras classes) abre-lhes perspectivas de carreira excelentes, e permite-lhes a possibilidade de terem à sua disposição de trabalho quer no “privado”, quer no “público”, de preferência com acumulação.
    Por isso se comportam como uma elite, e os candidatos ao ensino superior se acotovelam para entra em Medicina. Em outros países, um médico é uma carreira como muitas outras, em que quem é bom é bem pago e tem bom emprego, e que quem não é, .. não o é.
    Imaginem o que seria se a Ordem dos Engenheiros “decretasse” que não era qualquer escola que podia formar engenheiros civis, porque “deles depende a segurança das nossas pontes e edifícios, etc., etc.”, e limitasse o seu ensino a 2 ou 3 escolas no país? Em poucos anos começariam a escassear engenheiros, e quem os quisesse (ou fosse obrigado a os ter) teria que os pagar a peso de ouro.
    As coisas são tão simples quanto isto! Só a Ordem dos Médicos é que “topou” que é assim, e só este país é continua a ser “comido de cebolada” por estes interesses corporativos sem perceber que ele é um dos grandes males do nosso sistema de saúde.

    P.S. – Já agora no sistema de ensino, o problema é exactamente o oposto: o excesso de oferta (e a dada altura, a sua falta de qualidade) acabou por “abandalhar” a classe dos professores, que hoje é desrespeitada e desprezada por todos.

    Comentário por Quico — Setembro 18, 2007 @ 10:51

  3. Pessoalmente sempre tive muitas reservas quanto à qualidade do ensino superior privado, sobretudo ao nível da avaliação. Por isso, não concordo muito com a abertura de vagas em universidades privadas.
    Também não sei se o problema está apenas na Ordem. Admitindo que ela não reconhecia os cursos, não seria possível fazer exames de admissão para, no caso de ter as competências necessárias, poder entrar na Ordem?
    Penso que a solução podia perfeitamente passar por mais universidades públicas com Medicina, e isto é uma decisão que só depende do governo.

    Comentário por Rui Carlos Gonçalves — Setembro 18, 2007 @ 11:07

  4. Eu acho mais interessante uma outra questão: nos últimos 7 ou 8 anos, as vagas para os cursos de medicina passaram de pouco mais de 500 para cerca de 1300/1400, como é que as médias continuam tão altas?

    Esta questão só se aplica às faculdades que continuam a pedir duas provas de ingresso e não a melhor de três provas de ingresso (matemática, biologia-geologia ou física-química) como fez a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa que, curiosamente, passou de ser das faculdades com média mais baixa para a que tem a média mais alta.

    Comentário por S — Setembro 18, 2007 @ 11:39

  5. Acho que também há um factor cultural importante: ser médico dá prestígio (e dinheiro). E o que acaba por acontecer, infelizmente, é que não entra em medicina o aluno que poderá ser o melhor médico, mas antes o que conseguiu notas mais altas, mesmo que venha a ser o pior médico possível…

    Comentário por Carlos Duarte — Setembro 18, 2007 @ 12:05

  6. Não confundamos as coisas: o que dá prestígio é o dinheiro (e aí sim entra o factor cultural); e o que dá dinheiro é a falta de concorrência no mercado de trabalho!

    Apesar das vagas terem triplicado, o número anterior era tão ridiculamente baixo que não invalida o que eu disse atrás.

    Comentário por Quico — Setembro 18, 2007 @ 14:02

  7. Claro que não invalida, mas demonstra bem que a Ordem perdeu bastante do seu poder corporativista nos últimos anos, o que também seria um tema interessante.

    Um outro tema bastante interessante seria discutir até que ponto este aumento enorme de vagas (só abriram mais duas faculdades com os seis anos de curso neste período de tempo – UM e UBI – o que significa uma enorme sobrecarga nas outras 5) não terá um efeito nefasto na educação e treino médicos. Confesso que as histórias que oiço de amigos e conhecidos que são alunos nos anos clínicos não são nada animadoras.

    Comentário por S — Setembro 18, 2007 @ 15:04

  8. “Um outro tema bastante interessante seria discutir até que ponto este aumento enorme de vagas (só abriram mais duas faculdades com os seis anos de curso neste período de tempo – UM e UBI – o que significa uma enorme sobrecarga nas outras 5) não terá um efeito nefasto na educação e treino médicos. Confesso que as histórias que oiço de amigos e conhecidos que são alunos nos anos clínicos não são nada animadoras.”

    Isso parece-me mais um argumento para permitir a abertura de novas faculdades de medicina.

    Comentário por André Azevedo Alves — Setembro 18, 2007 @ 17:20

  9. 1. Não há falta de médicos em Portugal. O que existe é um SNS infeciente. Comprovem estatisticamente o que afirmam quando dizem que há falta de médicos!

    2. Se surgir um projecto de ensino privado que não represente encargos para o Estado e que tenha qualidade não vejo motivos para qualquer oposição à sua abertura. No entanto, sou frontalmente contra o financiamento de novos licenciados em Medicina para além das necessidades do país. Os números actuais já estão acima das necessidades do país.

    3. E os alunos que ficam de fora da Faculdade de Direito? O Estado não devia também acautelar o interesse desses alunos? E, já agora, daqueles que, mesmo tirando 6 valores a Matemática, gostavam de ser Engenheiros?

    4. As médias são altas porque existe procura. É o mercado a funcionar.

    5. Sabiam que ainda não foram anunciadas as capacidades formativas para a formação pós-graduada dos alunos que terminaram o curso de Medicina em Julho passado? Sabiam que isso sucedeu porque as capacidades formativas que os hospitais informaram ao Ministério da Saúde não chegavam para garantir a formação de todos os recém-licenciados? Esta situação demonstra que, num curto espaço de tempo, não será possível garantir a formação pós-graduada a todos os estudantes de Medicina e o factor limitante deixa de ser a entrada no curso para passar a ser o acesso ao Internato Médico. Num país com falta de engenheiros e outras profissões técnicas, é preciso ter muita falta de visão para se defender a formação de licenciados para o desemprego (e daqui a uns anos estarão os Vitais Moreiras e outros a exigir ao Ministro da Saúde que dê emprego a toda essa gente como sucede actualmente com o Ministério da Educação).

    Deixem-se de demagogia.

    Alguns links sobre este tema:
    Excesso de vagas em Medicina: http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=854643&div_id=302

    Ao contrário do que diz a imprensa, a média de acesso a Medicina baixou:
    http://avenidacentral.blogspot.com/2007/09/das-colocaes-no-ensino-superior.html

    Contra a demagogia da falta de médicos em Portugal:
    http://avenidacentral.blogspot.com/2007/09/contra-demagogia.html

    As Estranhas Causas de Vital Moreira:
    http://avenidacentral.blogspot.com/2007/08/estranhas-causas.html

    Demagogia:
    http://avenidacentral.blogspot.com/2007/04/demagogia.html

    Comentário por Pedro Morgado — Setembro 18, 2007 @ 17:52

  10. Caro AAA,

    Pois… deviam “normalizar” as vagas nos cursos existentes – de forma a evitar a sobrecarga nos hospitais “cooperantes” – e aumentar sim o número de faculdades.

    No entanto, é preciso ter em conta que não se pode abrir faculdades de medicina a “torto e a direito” e que as exigências para o fazer, quer a nível de corpo docente, cooperação hospitalar e programas, deve ser MUITO apertado.

    Eu não tenho nada contra – ao contrário de muito boa gente neste blogue – ser a Ordem dos Médicos a definir o CRITÉRIO para a abertura de novos cursos. Mas devem ficar por aí, pelo critério, e não pela selecção das candidaturas. Essa selecção deve ser da competência do Ministério respectivo.

    Em relação às universidades privadas, da maneira que elas existem em Portugal, tenho sérias dúvidas. Mais ainda quando se falava de serem em “cooperação” com hospitais privados (Deus nos livre!!!)

    Comentário por Carlos Duarte — Setembro 18, 2007 @ 17:57

  11. Só mais um acrescento:

    “Também se dizia em 2002 que havia falta de 12000 enfermeiros e hoje temos licenciados em enfermagem desempregados.”

    Na realidade, a não ser que tenham a portuguesa “cunha”, praticamente nenhum dos enfermeiros formados nos últimos 12 meses está empregado. Eu pergunto: em que é que o aumento descontrolado de vagas em Enfermagem, no ensino público e privado, melhorou a qualidade dos serviços de saúde prestados aos cidadãos? O que é que ganhamos em ter centenas de jovens licenciados em enfermagem em casa sem exercer a profissão para a qual recebemos formação? Qual o retorno do investimento público feito na formação destes jovens?

    Comentário por Pedro Morgado — Setembro 18, 2007 @ 17:57

  12. A classe médica é a única a quem nunca o estado domesticou.Fez reduzir a oferta e agora temos médicos estrangeiros…
    Ainda me lembro duma guerra com a Beleza por causa do emprego dos médicos , muitos na altura…

    Comentário por Miles — Setembro 18, 2007 @ 18:59

  13. Caro AAA, admito que não tenho nada contra a abertura de mais faculdades de medicina, especialmente se isso significar pelo menos uma redução parcial das vagas nas faculdades que se encontram já numa situação de “rebentar pelas costuras”.

    Porém, conhecendo minimamente as necessidades dos cursos de medicina em termos de corpo docente (principalmente o ratio de médico por alunos nos anos clínicos), hospitais com um mínimo de “variedade” de patologias e serviços, investigação e por aí fora, não me parece de todo possível que haja verbas para isso no Estado (quanto é que custou a UM nos últimos anos?). Por outro lado, não tenho grande fé no ensino superior privado português (com algumas e honrosas excepções) e, sabendo os elevadíssimos custos de um curso de medicina, há duas opções:
    - os cursos são óptimos e o preço que se paga é absolutamente estrondoso, apenas acessível à classe alta;
    - os cursos são “acessíveis” mas a sua qualidade irá deixar muito a desejar.

    Comentário por S — Setembro 18, 2007 @ 19:14

  14. Pedro Morgado disse:
    “Na realidade, a não ser que tenham a portuguesa “cunha”, praticamente nenhum dos enfermeiros formados nos últimos 12 meses está empregado. Eu pergunto: em que é que o aumento descontrolado de vagas em Enfermagem, no ensino público e privado, melhorou a qualidade dos serviços de saúde prestados aos cidadãos? O que é que ganhamos em ter centenas de jovens licenciados em enfermagem em casa sem exercer a profissão para a qual recebemos formação? Qual o retorno do investimento público feito na formação destes jovens?”

    Então?! É o mercado a funcionar!… Ou o mercado só deve funcionar quando há escassez de oferta de profissionais? Ou acha que o estado deve garantir emprego a quem livremente escolheu o seu curso? Alguém garante empregos ou pensa nas necessidades do mercado de trabalho nos cursos de Engenharia ou Direito? Não.
    Quem escolhe o curso para que concorre que pense na viabilidade da opção que toma.

    Comentário por Quico — Setembro 19, 2007 @ 10:42

  15. Quico, tenho quase a certeza absoluta que muitos dos enfermeiros desempregados entraram para o curso a pensarem que teriam emprego no fim, porque estava sempre a falar-se da falta de enfermeiros. Eles até pensaram bem na viabilidade, mas o SNS não.
    E, sinceramente, alguém tem fé na selecção que se efectua no SNS??? Se é como a dos médicos (exame de especialidade absolutamente estúpido para aceder a esta, p ex), acho que podemos estar seguros que é absolutamente idiota.

    Comentário por S — Setembro 19, 2007 @ 11:01


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