Nos últimos dias foram publicados muitos textos interessantes numa discussão que me interessa particularmente mas em que a falta de disponibilidade me obriga a abster-me – por agora – de participar. Sem pretender ser exaustivo, destaco de seguida alguns desses textos:
Porque sou liberal e conservador. Por Rui Albuquerque.
Há ser conservador e ser conservador. André Abrantes Amaral.
Liberalismo e valores. Por Pedro Picoito.
Há conservadorismos ingleses e conservadorismos ingleses. Por Francisco Mendes da Silva.
Um bom apanhado de textos sobre tema tão candente para uma significativa fatia da sociedade portuguesa,que ajudam a clarificar ideias.
Comentário por Cristina Ribeiro — Setembro 2, 2007 @ 10:41
Relativamente ao liberalismo anglo-saxónico, há que notar e aceitar que este povo foi sempre muito mais individualista, na perspectiva da construção da sociedade, do que o povo europeu continental. Esta tendência não é de todo recente e pode-se datar do evento da criação da Magna Carta, evento tal que marcou a distinção da evolução da sociedade anglo-saxónica da europeia continental: a Magna Carta marca o primeiro passo para a descentralização do poder monárquico quando na Europa Continental a monarquia absorve cada vez mais poderes.
A fusão, e posterior confusão, entre o liberalismo e o conservadorismo é, na minha opinião, mais uma evolução natural resultante da grande derrota que o conservadorismo sofreu durante as revoluções idelógicas europeias. Hayek tem razão quando explica por que não é conservador, porque o conservadorismo, no seu fundamento, está associado à monarquia, ao clero e à nobreza, e, por conseguinte, à manutenção das divisões sociais por hereditariedade, algo completamente contrário aos ideiais liberais. As premissas ideológicas deste conservadorismo foram completamente ultrapassadas pelo tempo e hoje a sua influência é de todo negligente.
No entanto, há que distinguir o conservadorismo europeu, como descrito acima, do conservadorismo americano, claramente anti-monárquico. Este último conservadorismo é de todo liberal e as suas origens estão bastante ligadas aos primeiros pioneiros que começaram a habitar o Novo Mundo. Estes pioneiros eram considerados, na Inglaterra da altura, como os reaccionários porque constantemente pediam por novos direitos e por mais poderes para a gestão das suas comunidades, razões também de todo ligadas aos seus próprios movimentos religiosos, tendo posteriormente decidido abandonar o Velho Continente e arriscar tudo, em nome da sua liberdade, no Novo Continente, algo que não desagradou nada aos poderes instituídos, dado que se estariam a livrar de um problema.
As novas comunidades coloniais criadas no Nordeste Americano, em estados como New England, foram os percursores do conservadorismo americano, tendo, posteriormente, aliado a conservação dos bons valores éticos, morais e familiares à conservação da sua democracia, liberdade e, também, da sua constituição como definida pelos “Founding Fathers”.
O novo marco para a evolução do conservadorismo e do liberalismo veio nas décadas de 60 e 70, com o libertar das amarras sociais impostas pelos bons valores morais, com o surgimento da geração de Woodstock e com o desafio desmedido à autoridade. O liberalismo moveu-se para a esquerda, com muitos dos seus apoiantes a acompanharem o movimento. O novo liberalismo passou a ser mais semelhante ao socialismo, e o conservadorismo aproximou-se do liberalismo no sentido clássico, daí o “liberal na economia” e “conservador nos valores”.
Acho que mais foi feito pelo liberalismo clássico pelos partidos denominados conservadores do que pelos partidos denominados liberais, porque ideologicamente falando os partidos conservadores actuais são liberais no sentido clássico, enquanto que os partidos liberais actuais são neo-liberais, mais virados para o intervencionismo do estado, mais próximos do socialismo.
Comentário por ulaikamor — Setembro 2, 2007 @ 14:49