O Insurgente

Agosto 29, 2007

Teoria da Relatividade

Filed under: Comentário,Economia,Internacional — Miguel Botelho Moniz @ 17:27

O DN hoje conta-nos que há mais de 36 milhões de pobres nos Estados Unidos, ou 12,3% da população. Bom, para ser inteiramente correcto, conta-nos que eles estão abaixo do limiar de pobreza. Ao contrário de outras reportagens que ocasionalmente tocam neste assunto, esta menciona qual o referido limiar: 13167 dólares para um agregado familiar com duas pessoas. Não está mal, hã?

O problema destas coisas é a impressionante relatividade das medidas. A ONU, por exemplo, considera esse limiar como dois dólares por dia per capita, que é como quem diz 1460 dólares anuais para o mesmo agregado familiar de duas pessoas acima referido. Mesmo admitindo que o valor da ONU seja líquido enquanto o do U.S. Census Bureau seja antes de impostos, a relatividade destas medidas é enorme.

Mas há mais. Mesmo se ignorarmos o limiar da ONU, que, afinal de contas, é um exemplo limite de subsistência, a estatística americana acaba por não ter muito significado. O valor determinado para o limiar é único para todo o país. É como se quiséssemos comparar o nível de vida de um português com o de um luxemburguês. Só para termos um termo de comparação: Em Espanha, há três anos, a percentagem da população abaixo do limiar de pobreza (usando uma medida nacional) era de 16,9%. Contudo, se fosse usado o limiar médio europeu essa percentagem subiria para 43,7%. De igual modo, a taxa europeia (média ponderada das várias taxas nacionais) era de 15,5%. No entanto, se fosse usada um único limiar médio europeu essa taxa subiria para 18,2%. Se a mesma metodologia fosse usada na UE (a 15), o DN teria de reportar que “mais de 65 milhões de europeus vivem abaixo do limiar de probreza”.

8 Comentários »

  1. leitura complementar

    http://article.nationalreview.com/?q=MjE3NTA4Yjc0NjQxMDA4ZjhlZjczMWM0YWNlM2JhOTg=

    Comentário por JEM — Agosto 29, 2007 @ 18:46

  2. O curioso é que a própria teoria da relatividade estabeleceu em boa verdade um absoluto que foi a a velocidade da luz.

    Para quem não percebeu: o que foi estabelecido foi mesmo um Absoluto, a partir do qual tudo é medido (incluindo o tempo).

    Devia assim chamar-se Teoria do Absoluto. Tinha-se poupado a inenarrável série de pensadores que acharam que até a física era relativa, como quem diz, “então o resto…”

    PS: Quando comentei isto na CL, alguém nos comentários afirmo que o próprio Einstein não gostava do termo “Teoria da Relatividade”.

    Comentário por CN — Agosto 29, 2007 @ 22:45

  3. Voltando ao assunto:

    Alguém devia decidir qual o rendimento (ajustado ao poder de compra) absoluto que define pobreza, tendo em conta toda a população mundial. Aí na casa dos 30%, digamos.

    Depois é ver a % que não são pobres nos países “capitalistas” (antes fossem, mas ok…).

    Comentário por CN — Agosto 29, 2007 @ 22:50

  4. 2 apontamentos:
    - eu tenho a experiência de viver nos EUA, numa zona urbana de grande dimensão mas relativamente barata, e 13167 dólares para um agregado de 2 pessoas é mesmo muito pouco (como comparação, o meu orçamento de estudante remediado, ignorando todos os custos relacionados com educação, viagens fora da cidade, etc., era de 28 mil dólares/ano).
    - O International Herald Tribute publicou hoje um editorial sobre os dados mais recentes do Census americano (http://www.iht.com/articles/2007/08/29/opinion/edincome.php). Os dados são bastante deprimentes porque, de acordo com o artigo, o median household income em 2006 (que eu assumo ser nominal) é inferior em 1000 dólares ao que era no ano 2000. Ou seja, apesar de todo o crescimento económico nos últimos 6 anos, o americano mediano está mais pobre.

    Comentário por Hugo — Agosto 30, 2007 @ 02:23

  5. Caro Hugo,

    Não diga isso, relativamente ao resto do mundo, os E.U.A. são um paraíso, só é pobre quem quer, só fica doente quem quer, etc…

    P.S.: Já foi provado que a velociadade da luz nem sempre foi constante.

    Comentário por guna — Agosto 30, 2007 @ 09:49

  6. É preciso também ter cuidado com o que se diz relativamente ao americano. Tenho um amigo americano que, diria, pertence à classe média-baixa, e a família dele de 6 pessoas (a irmã mais velha já saiu de casa) tem 6 carros (ou tinha antes da mãe ter batido com o mini-van deles). Muitas vezes os números e as estatísticas não conseguem mostrar tudo.

    No entanto, é preciso compreender que os EUA são um país que impõe uma pressão muito grande sobre as comunidades mais pobres, não por discriminação, por opressão, ou por falta de liberdade e/ou oportunidades, mas pela velocidade com que aquele país avança. Enquanto uma parte da sociedade americana está a avançar a uma velocidade elevada, existe uma parte que não consegue acompanhar.

    Um último comentário lembra-me uma notícia que li na CNN, que falava de uma americana de 30 muitos anos, que ao longo da vida tinha conseguido poupar 1 milhão de dólares. No entanto, preocupações com a educação dos filhos, cuidados médicos para os pais e para ela, e muitas outras coisas, faziam-lhe entender que o milhão de dólares que tinha não era garantia de um futuro seguro. Ou seja, nos EUA já não basta ser-se milionário.

    Comentário por ulaikamor — Agosto 30, 2007 @ 14:20

  7. The following are facts about persons defined as “poor” by the Census Bureau, taken from various government reports:

    Forty-six percent of all poor households actually own their own homes. The average home owned by persons classified as poor by the Census Bureau is a three-bedroom house with one-and-a-half baths, a garage, and a porch or patio.

    Seventy-six percent of poor households have air conditioning. By contrast, 30 years ago, only 36 percent of the entire U.S. population enjoyed air conditioning.
    Only 6 percent of poor households are overcrowded. More than two-thirds have more than two rooms per person.

    The average poor American has more living space than the average individual living in Paris, London, Vienna, Athens, and other cities throughout Europe. (These comparisons are to the average citizens in foreign countries, not to those classified as poor.)

    Nearly three-quarters of poor households own a car; 30 percent own two or more cars.

    Ninety-seven percent of poor households have a color television; over half own two or more color televisions.

    Seventy-eight percent have a VCR or DVD player; 62 percent have cable or satellite TV reception.

    Seventy-three percent own microwave ovens, more than half have a stereo, and a third have an automatic dishwasher.

    Read more

    Comentário por zero — Agosto 30, 2007 @ 18:16

  8. Falta saber qual o resultado de aplicar o critério da ONU aos Estados Unidos.

    Além disso, seria melhor dispormos aqui duma medida que leve em conta o custo de vida. Atenção que não podemos usar necessidades diferentes para países diferentes, i.e. não podemos pôr “ter um carro” nas necessidades básicas dum americano e já não o fazer para um país como o Chile, por exemplo.

    Comentário por LPedroMachado — Agosto 31, 2007 @ 19:08


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

Gravatar
WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 354 other followers