Religion and myth are not always conservative.
MEAD, Walter Russell, The American Interest, Faith and Progress, Autumn 2007, pp. 7-16.
O Miguel Morgado ficou desiludido com este meu texto. Passo então explicar-me, agradecendo, desde já, o cuidado dos seus comentários: A direita portuguesa tem sido tudo menos liberal. Essencialmente conservadora. Nos tempos do Dr. Salazar, ser conservador deu no nacionalismo com o estado protector da pátria; depois do 25 de Abril, na defesa do estado como garante de políticas sociais caras aos católicos. Em ambos os casos a moral e os valores eram entendidos como únicos e perenes. Eram o que aprendíamos do passado e o que transmitíamos para o futuro. Eram como dogmas. Por isso, a sociedade estagnou, o país estagnou, as pessoas estagnaram. Em resultado disto a religião católica raramente incentivou o desenvolvimento e o progresso. Já escrevi sobre este assunto na Revista Atlântico e aproveito agora para desenvolver melhor o raciocínio.
É no que pode ser a direita política que dou importância à escolha. A escolha de vivermos com a nossa consciência. Com os nossos valores, a nossa moral. Dir-me-ão que isso leva a uma diversidade intolerável, mas não o creio. E não creio porque vou à Inglaterra dos séculos XVII, XVIII e XIX, à América dos séculos XIX e XX e vejo uma flexibilidade enorme alicerçada precisamente na religião. Como o define Walter Russell Mead, no seu artigo intitulado ‘Faith and Progress’ e publicado na American Interest (que por sorte estava a folhear quando vi o ‘post’ do Miguel), a religião, com os seus princípios, valores e moral, pode ser um dínamo em vez de um dogma. Um motor em vez de um travão. Que tudo é mudança, que esta nasce da escolha e os ditos valores, a dita moral, são um guia, uma ajuda, adaptável aos novos tempos, novos desafios e novas dúvidas, mas nunca algo estático que nos estigmatize, nos tolha e nos limite.
Por isso, me referi “à defesa da pessoa humana e das suas boas decisões individuais, da sua inteligência e da aceitação dos seus resultados”. Por isso escrevi não serem mais a moral e os valores, a palavra chave da direita. Poderia ter-me ficado pelos costumes e a tradição. Teria sido mais correcto, sem dúvida, e menos polémico, com toda a certeza. Mas não teria batido no ponto muito específico que é o valor da nossa consciência, a capacidade de nos julgarmos a nós mesmos, de nos integrarmos numa vida amena com os outros, aceitando-os e sendo por eles aceite, numa harmonia que se altera continuamente, precisamente porque essa moral (direi individual), esses valores (direi individuais), estão lá para nos segurar. Algo que os costumes e a tradição, por si só e por se encontrarem presos ao passado, não o podem fazer.
O Miguel alerta para o perigo de, correndo com a moral e os valores, estes nos entrarem pela porta das traseiras, num sentido contrário ao bom senso apreendido ao longos dos tempos. Sucede que, esse perigo surge nas sociedade seculares, que se pretendem unicamente racionais. Numa sociedade religiosamente dinâmica, como sucede no mundo anglo-saxónico, que conta com a dúvida e tem esperança, não se esperam certezas científicas, mas um acordo espontâneo de valores e moral.
Por esta razão, não sendo estática, a direita não se deve basear na moral, mas no direito de escolha. Na aceitação da mudança. Que nada é perene, que tudo se altera, inclusive a mais ortodoxa das crenças. O direito de escolha é chave do sucesso. Não o medo que nos faz ficar parados.
Sem concordar com tudo… é honesto!
Convem lembrar casos como os jesuitas que evoluiram dos verdugos da santa inquisiçao, para os apostolos (na america latina) da Teologia da libertaçao, tao cara a esquerda religiosa e tao funesta ao poder do vaticano!
A direita ser defensora da liberdade de escolha é algo comico. Por vezes andre, pareces-me um pouco o pacheco pereira, com aquelas suas barbas marxistas, que pensa que a social democracia do psd é a mesma social democracia que teve como seu maior representante historico o Trotsky… Estaras iludido??? como os comunistas em relaçao ao estalinismo???
Qual foi a liberdade de escolha nos regimes de direita tipo pinochet, franco, hitler, sarkosy (como se escreve o nome deste idiota:))
Mas como ateu que sou nao deixo de admirar aquela frase do Rushdie que dizia que o mundo viveria melhor sem as religios…. TODAS! Se compreendo os naturalistas e suas religioes… nao compreendo os monoteismos e os seus deuses que assassinaram todos os outros deuses.
Comentário por Sem Rosto — Agosto 23, 2007 @ 14:19
Andre… este direito a escolha pressupoe a destruiçao de campos de milho????:)))))
Pressupoe a intoxicaçao de rios, mares e oceanos????
Pressupoe atentados contra ditadores????
Pressupoe a dissidencia (com a seguida catalogaçao de comunas) seguida de prisao, tortura e morte como no democratico e capitalista Chile Pinochetiano???
Pressupoe o amor a plantas e animais??? que so os idiotas do scouts adoram???
Pressupoe que um presidente nao renove a licença de uma TV e por isso seja ditador, o outro que obrigue de novo a cantar-se o hino nas escolas e que diga que a colonizaçao nao produziu nada de mal na argelia seja um democrata????
Comentário por Sem Rosto — Agosto 23, 2007 @ 15:23
Mas os liberais têm um mecanismo a oferecer à direita moral e “conservadora”:
- Que o Estado não se intrometa nas decisões de discriminaçao/ostracismo privado (ex: empresas que não contratam consumidores de isto ou aquilo, ou que imponham determinados stndards morais com condição)
Nota. coisa que acontece via legialativa
- Que exista descentralização de regulação moral a nível local (proibição – apesar de não ser “crime” – de prostituição, aborto, etc).
Comentário por CN — Agosto 23, 2007 @ 15:23
Belo post.
Para incluir na categoria de “direita complexada”
Comentário por Ze Miguel — Agosto 23, 2007 @ 15:27
A esquerda sempre andou obcecada com os jesuitas. Muitos destes foram perseguidos pela inquisição. Esta foi impulsionada, em primeiro lugar, pelos dominicanos e não pelos jesuitas.
Comentário por Patricia Lanca — Agosto 23, 2007 @ 15:47
Bom post, André, mas tem pelo menos im problema básico (entre outros que não há tempo para esmiuçar). Nem na América dos sécs. XIX e XX nem na Inglaterra dos sécs. XVII-XIX a religião e a moral eram estritamente escolhas individuais. Pelo contrário, tinham uma tradução pública claríssima e por vezes constrangedora. A Inglaterra ainda hoje é um Estado confessional, ou seja, que tem uma religião oficial (o anglicanismo). Os católicos estavam impedidos de ser eleitos para a Câmara dos Comuns, por exemplo, até ao século XIX (foi Peel que acabou com isso, salvo erro). E nos Estados Unidos, além da “lei seca” e dos estados onde a sodomia era até há bem pouco tempo um crime (tal como em Inglaterra, by the way: Oscar Wilde…), a religião tem uma identidade comunitária fortíssima, embora se tenha atenuado nos últimas décadas. Por exemplo, há igrejas evangélicas quase exclusivamente negras, assim como os descendentes de irlandeses ou italianos são quase por definição católicos. Assim como os wasps são episcopalianos, metodistas, presbiterianos, mórmons ou até fundamentalistas, mas raramente baptistas (a não ser no Sul). Ou seja, a religião é vivida bem menos individualmente do que sugeres. O problema é que estás influenciado pela realidade portuguesa, onde o catolicismo foi uma religião para-oficial ou mesmo constitucionalmente oficial (até 1910). Juntemos isso à mitificação do liberalismo anglo-saxónico e temos o teu post. O que não quer dizer que não levantes questões muito pertinentes e que eu gostaria de ver discutidas mais a fundo. Mas sem mitos.
Comentário por Pedro Picoito — Agosto 23, 2007 @ 16:38
Patricia, a é com cada estocada na inteligencia que tu das com essa lança… salve-nos sr..
Verdades de LaPalice: Jesuitas perseguidos pela inquisiçao (sem duvida… o proprio Padre Antonio Vieira era um jesuita que esteve preso a mando de outros jesuitas). Foi começada pelos dominicanos (é LaPalice tb… mas depois manipulada pelos jesuitas que dominaram a igreja a partir de Trento).
Esquerda obececada pelos jesuitas???? Falei eu nos jesuitas apostolos da Teologia da libertaçao??? Estes sao nossos amigos. Religiosos bem vermelhinhos que ajudam em alguns casos os vermelhuscos guerrilheiros latino americanos. Por isso mortos pelos negritos FAXOs apoiados pelos EUA… e quase excomungados pelos cristaos vaticanados.
viva os jesuitas… pelo menos estes e o padre antonio vieira
Comentário por Sem Rosto — Agosto 23, 2007 @ 17:04
Pedro Picoito:
Se não estou em erro, a emancipação dos católicos coube a Wellington. Do mesmo partido, o Tory, em 1829.
Sem Rosto:
Quem “mandava” na Inquisição eram os Dominicanos, não os Jesuítas. De resto, uns e outros não se podiam ver. “A partir de Trento” surgiram os Jesuítas com o seu papel de missionação e proselitismo, mas o Santo Ofício, que prosseguiu o trabalho da Inquisiçao medieval, ficou com os mesmos: os Dominicanos. Que já orientavam a estrutura séculos antes de Sto. Inácio de Loyola e Companhia (com maiúscula, que é de Jesus.
Cordialmente,
Fernando Barragão.
Comentário por fbarragao — Agosto 23, 2007 @ 19:55
Desculpem. O parêntesis ficou por fechar.
Comentário por fbarragao — Agosto 23, 2007 @ 19:56
Embora achar que não val a pena responder a quem aparece ‘sem rosto’, por respeito pelos leitores, faço notar o seguinte:
É realmente verdade que desde o aparecimento dos sub-marxistas da ‘teologia da libertação’, alguma esquerda começou a namorar esse tipo de jesuita. O que não infirma a minha observação respeitante à obsessão da esquerda com os jesuitas. Ou então porque foi que alguns oposicionistas, desafiando a PIDE e arriscando serem presos, pintaram o monumento do Marquês de Pombal com a frase lapidar: ‘Vem cá baixo Marquês, porque eles estão cá outra vez.’? Foi uma façanha propagandeada ad nauseam durante muitas décadas do Estado Novo para ilustrar o ódio que a oposição nutria quanto aos jesuitas. Muitas vezes até alegavam que Salazar fosse um ‘jesuita laico’. Os ‘sem rosto’ não conhecem a sua própria história.
Comentário por Patricia Lanca — Agosto 23, 2007 @ 20:45
[...] Pedro Picoito comentou e respondeu ao meu texto sobre a moral individual. Comecemos pelo seu comentário e terminemos, [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » A moral Individual (2) — Agosto 28, 2007 @ 11:08
É muito mesmo adoro, obrigado .
Comentário por rosilne — Junho 9, 2010 @ 21:33