Tenho alguma dificuldade em aceitar as críticas à demissão de Dalila Rodrigues da direcção do Museu Nacional de Arte Antiga, e em compreender as comparações feitas com o caso Charrua. A sua demissão suscita de mim as mesmas lágrimas que suscitaria a putativa demissão da directora da DREN Margarida Moreira. Nenhumas.
Tanto uma como outra foram (ou são) titulares de cargos de confiança política. Foram nomeadas por critérios de confiança pessoal, e não por concurso público ou por particulares critérios de mérito ou de valor para o seu cargo. Independentemente dos méritos que possam colher ou não no exercício desses cargos, estão (ou deveriam estar) conscientes de que a sua posição depende da sintonia com a tutela que os empossou e lhes deu emprego. Quando essa confiança política termina, termina. É uma decisão política, que deve ser alvo dos métodos vigentes de escrutínio político das decisões dos ministros e do primeiro-ministro.
Com certeza não se poderia estar à espera de uma sã convivência entre um titular de um cargo político e o ministro da tutela, quando o primeiro venha a publico criticar a linha política estabelecida, o próprio ministro, ou venha no exercício das funções a agir à revelia das orientações e do programa político determinado superiormente.
Não podemos estar à espera que, com um ministério da saúde (por exemplo) que defenda um SNS completamente público e que todos os actos médicos sejam nele praticados (não estamos a criticar a bondade da escolha), perdure um director-geral que venha a público defender a privatização dos hospitais ou um administrador hospitalar que faça outsourcing dos seus serviços.
Dalila Rodrigues é tão somente um dos imensos comissários políticos que navegam ao sabor da alternância democrática do nosso centrão, uma imensa clientela de cargos de confiança política, que vai ascendendo ou descendendo ao sabor dos ciclos de poder vigentes.
A questão que se está a colocar está (quanto a mim) deslocada, e devia ser outra. Deveria ser porque raio é que a direcção de um museu (como tantos outros cargos) é um cargo de confiança política, e porque é que não é tão somente um cargo sujeito a concurso público em que o juízo dominante seja o de mérito e de adequação ao cargo. Isso sim, levanta-me as maiores dúvidas.
Nessa altura, estaríamos a discutir (aí sim) porque é que se demite alguém que demonstrou bons argumentos no exercício das suas funções, e que obteve esse cargo por essas capacidades.
[...] Mais leituras sobre este tema: [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Os comissários (2) — Agosto 3, 2007 @ 18:43
A questão é: Uma directora de um Museu precisa de estar de acordo com a política para fazer bem o seu trabalho?
Á primeira vista diria que sim. Mas não conheço o suficiente da organização de um Ministério que nem devia existir.
Comentário por lucklucky — Agosto 3, 2007 @ 18:48
Meu caro:
Dá-se de barato a colocação da senhora como comissária política (sendo que não tem especial relevância no acto da saída ou recondução).
Na lógica da liberdade de expressão como valor absoluto (que defendes plenamente), a senhora tem todo o direito em não concordar com o modelo de gestão e de o manifestar publicamente.
E está longe de estar provado que a sua conduta se revelou contrária à política ministerial, nos actos exclusivos de gestão à frente do MNAA.
Basta ver a explicação para a sua saída.
Tal como ontem
, continuo a discordar de ti.
Há ainda mais um detalhe, nada irrelevante na conduta liberal não partidária:
A caracterização “o sistema é assim, voçês já sabiam, agora amanhem-se” não pode nem deve inibir a crítica feroz a algumas decisões decorrentes do mesmo.
Até porque esse(s) pode(m) ser o(s) ponto(s) de partida para se ir desmontando a falácia da construção da administração pública com base na confiança (leia-se carreirismo) política.
Comentário por Cirilo Marinho — Agosto 3, 2007 @ 18:54
Como ontem
, concordo com o JLP nesta questão. Em tudo, visto que também não vejo qualquer razão para que o cargo em causa seja “de confiança política”. Mas o facto é que é e que a senhora não poderia deixar de saber que a sua continuação no cargo dependia da convergência das suas ideias com as do governo. Também me parece mal – e isso ninguém diz – que as pessoas em Portugal aceitem sempre os cargos sem condições. A entrevista da ex-directora no Público é exemplar a esse respeito: mesmo não tendo as condições mínimas para fazer o trabalho que ela considerava dever ser feito, aceitaria de bom grado continuar no museu. Tenho certas dificuldades em entender tanto amor à causa pública.
Comentário por José Barros — Agosto 4, 2007 @ 03:52