O Insurgente

Julho 5, 2007

Os exames e a esquerda

Arquivar em: Comentário, Política, Portugal — Miguel @ 11:07

O PS, o PCP e o BE rejeitaram ontem a proposta do CDS para que fossem implementados exames nacionais nos 4º e 6º anos. Os motivos apresentados pelos partidos mais à esquerda (*) são dignos de registo.

Para a deputada Paula Barros, do PS, “[e]sta proposta é reveladora de uma profunda insensibilidade social que só nos permite classificá-la como discriminatória“, posição este secundada por comunistas e bloquistas. Já sabemos que é profundamente errado discriminar entre os bons e os maus alunos e que é socialmente preferível que estes continuem a sua progressão mesmo que não tenham aprendido nada. É mesmo socialmente preferível que estes só descubram a profundidade da sua ignorância quando forem maiorzinhos. Para além disso era capaz de ficar mal nas estatisticas. Outro argumento imbatível foi o do CDS nunca ter apresentado proposta idêntica enquanto esteve no governo. Este fica para memória futura.

João Oliveira do PCP disse que os exames não iriam “não resolve[r] os problemas do nosso sistema educativo“. Pois não. Mas enquanto aguradamos pela uma “solução final” que o PCP no pretende oferecer poderiamos ficar com uma noção da qualidade do ensino ministrado. É perfeitamentemente natural que o PCP não queira salvaguardar os docentes da exposição pública. Afinal este é um dos últimos bastiões comunistas.

Finalmente, para o BE o CDS “passa(…) ao lado” dos grandes problemas do ensino português“. Já sabemos quais as soluções. Mais “democracia nas escolas”, “mais investimento”, etc, etc. As mesmas que têm contribuido para piorar a olhos vistos a qualidade do ensino em Portugal.

(*) Infelizmente a notícia não esclarece a posição do partido de esquerda (por vezes) mais à direita que, vulgo PSD.

Nota: Felizmente que, à esquerda, ainda há quem pense de forma diferente.

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  1. O melhor é as maternidades darem também uma licenciatura apenas os meninos caiam nesta cloaca

    Comentário por Miles — Julho 5, 2007 @ 11:36

  2. E depois são os tipos do BE que fumam droga… Felizmente o governo PSD pôs um travão a estas “coisas” do PP.

    Comentário por Jam — Julho 5, 2007 @ 12:13

  3. «Felizmente que, à esquerda, ainda há quem pense de forma diferente.»

    Tem razão. Há muita gente à esquerda que é a favor dos exames. Eu, pessoalmente, preferia exames à entrada de cada ciclo (com excepção, naturalmente, do primeiro) e não à saída. E à entrada do ensino superior, é claro.

    Deste modo os exames não precisariam de ser nacionais, uma vez que cada escola teria todo o interesse em fazê-los de modo a seleccionar os melhores alunos vindos das escolas a montante e em preparar o melhor possível os seus alunos para a admissão nas escolas a jusante.

    Isto evitaria o pesadelo logístico e burocrático que já é a época de exames, mesmo sem provas nacionais no 4º e 6º anos, o que seria uma vantagem imediata de ordem prática. Mas teria também uma vantagem política em termos de liberdade de ensino, uma vez que cada escola poderia definir programas, conteúdos e avaliações sem ter que obedecer a uma filosofia educativa única imposta pelo Estado. O que traria coerência ao sistema seria, não o currículo nacional nem os exames nacionais, mas sim a necessidade que cada escola teria de operar no contexto das outras escolas.

    Este sistema só poderia funcionar se os alunos tivessem a liberdade de escolher as escolas e as escolas tivessem a liberdade escolher os alunos. Não creio que isto criasse graves problemas de discriminação social (não obstante poder haver um nicho de mercado para as poucas escolas que se quisessem especializar no ensino de meninos ricos e burros). Haveria uma selecção pelo mérito, é claro, mas as capacidades humanas são muito variadas e com um pouco de intervenção do Estado haveria sempre lugar para todos.

    Comentário por José Luiz Sarmento — Julho 5, 2007 @ 12:18

  4. Subscrevo.

    Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 12:30

  5. Uma coisa que eu gostaria de saber acerca dos exames propostos pelo CDS – se um aluno chumabasse neles, teria qué repetir o último ano do ciclo em questão ou teria que repetir todos (imagino que fosse só o ultimo, não)?

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 13:33

  6. Imagino que sim mas a notícia não esclarece.

    Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 13:40

  7. “Este sistema só poderia funcionar se os alunos tivessem a liberdade de escolher as escolas e as escolas tivessem a liberdade escolher os alunos. ”

    Esses dois presupostos contradizem-se mutuamente – se uma escola tem liberdade de não aceitar um dado aluno, então os alunos (ou os seus tutores) não têm liberdade de escolher a escola. eu, pessoalmente, sou a favor de, nas escolas públicas, os alunos poderem escolher a escola (em vez de ser a da área de residência) e as escolas terem que aceitar todos os alunos que se inscrevam.

    “Não creio que isto criasse graves problemas de discriminação social”

    Criaria, porque isso teria como resultado os melhores alunos irem para as melhores escolas e os piores para as piores escolas, criando um feed-back positivo que ampliaria as desigualdades originais. O que tem lógica seria o oposto – mandar os piores alunos para as melhores escolas (até porque, como os bons alunos aprendem bem sozinhos, penso que os efeitos de terem um bom ou um mau professor são menos acentuados do que para os maus alunos).

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 13:45

  8. Muito bem José Luiz Sarmento.

    Comentário por AA — Julho 5, 2007 @ 13:55

  9. “Esses dois presupostos contradizem-se mutuamente – se uma escola tem liberdade de não aceitar um dado aluno, então os alunos (ou os seus tutores) não têm liberdade de escolher a escola. eu, pessoalmente, sou a favor de, nas escolas públicas, os alunos poderem escolher a escola (em vez de ser a da área de residência) e as escolas terem que aceitar todos os alunos que se inscrevam.”

    Não vejo nenhuma contradicção fundamental. O que pode existir são interesses concorrentes em que deve prevalecer o direito negativo.

    Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 13:55

  10. “Criaria, porque isso teria como resultado os melhores alunos irem para as melhores escolas e os piores para as piores escolas, criando um feed-back positivo que ampliaria as desigualdades originais.”

    Por outro lado este sistema criaria incentivos para que todas as escolas melhorassem a qualidade do ensino por forma a atrariem mais e melhores alunos.

    Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 13:57

  11. Esses dois presupostos contradizem-se mutuamente

    Obviamente que não. Ter liberdade de fazer alguma coisa (ser livre de ir jogar à bola com o Papa por exemplo) não significa ter o direito a fazê-lo. Significa ter o direito a não ser impedido de o fazer.

    um feed-back positivo que ampliaria as desigualdades originais

    Não, só significaria que os alunos provenientes de melhores meios económicos tenderiam a ir para escolas que prestassem serviços para as suas preferências, e os de menores, o equivalente.

    O preço da educação não está directamente relacionado com a “qualidade” da mesma. É possível dar uma instrução excelente, passar excelente ética de trabalho, com meios espartanos – e seria o que tenderia a acontecer com alunos mais pobres.

    Isto é demonstrado pelo dados empíricos das experiências que já foram feitas. Os alunos mais favorecidos tendem a ser os provenientes de minorias, pois as suas escolas passam a focar-se nas suas necessidades educativas, em vez das necessidades de políticos, burocratas de remotos ministérios e da imensa classe média que os elege…

    Comentário por AA — Julho 5, 2007 @ 14:05

  12. “Não, só significaria que os alunos provenientes de melhores meios económicos tenderiam a ir para escolas que prestassem serviços para as suas preferências, e os de menores, o equivalente.”

    “O preço da educação não está directamente relacionado com a “qualidade” da mesma.”

    Se as escolas tiverem exames à entrada para escolher os melhores alunos, como o José Luiz Sarmento defende, parece-me evidente que seriam os melhores alunos a irem para as melhores escolas (note que eu não falei, nem em “preços”, nem em “meios económicos” -falei só em piores e melhores alunos)

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 14:33

  13. “Por outro lado este sistema criaria incentivos para que todas as escolas melhorassem a qualidade do ensino por forma a atrariem mais e melhores alunos”

    Para isso, o “meu” sistema de os alunos poderem se inscrever em qualquer escola também servia (se as escolas forem financiadas em função do número de alunos inscritos).

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 14:35

  14. Presumo que num modelo destes a forma e os critérios de admissão fossem deixados ao critério das escolas.

    Provavelmente nas escolas mais prestigiadas realizassem um exame de admissão ou que este fosse, pelo menos, mais valorizado.

    Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 14:37

  15. “Para isso, o “meu” sistema de os alunos poderem se inscrever em qualquer escola também servia (se as escolas forem financiadas em função do número de alunos inscritos).”

    Mas nesse caso maximizar a número de inscrições seria um fim e não melhorar a qualidade do ensino para com isso procurar atrair mais alunos.

    Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 14:39

  16. Caro Miguel,
    A prioridade deste e doutros governos é o cimento, não é a educação.

    Comentário por José F. — Julho 5, 2007 @ 14:44

  17. “Mas nesse caso maximizar a número de inscrições seria um fim e não melhorar a qualidade do ensino para com isso procurar atrair mais alunos.”

    Penso que iria dar ao mesmo (ou a algo muito parecido).

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 15:03

  18. «Mais “democracia nas escolas”, “mais investimento”, etc, etc. As mesmas que têm contribuido para piorar a olhos vistos a qualidade do ensino em Portugal»

    Mas, afinal, vocês não costumam dizer que a culpa dos males do sistema de ensino é da “burocracia do Ministério”? Agora já é da “democracia nas escolas” (que me parece o inverso do “centralismo burocrático”)?

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 15:05

  19. parece-me evidente que seriam os melhores alunos a irem para as melhores escolas

    É preciso não fazer uma análise estática. Obviamente que seria uma tendência inicial. E, em consequência, todas as escolas teriam todos os incentivos para melhorarem os seus padrões de educação, de forma a obterem os melhores resultados com os seus alunos.

    Como consequência da concorrência, o nível geral da instrução aumentaria – em vez de ser condicionado pelas experiências educativas centralistas do ministério, e as suas absurdas regras administrativas.

    Comentário por AA — Julho 5, 2007 @ 15:36

  20. Este tipo de discurso esquerdista sobre as “melhores” ou “piores” escolas é muito estranho até parece que no tempo dos Romanos não se aprendia a ler a escrever em condições com recursos muito inferiores. Com os recursos disponíveis só o monstro Socialista-Politicamente Correcto que controla a educação em grande parte do Ocidente(incluíndo os EUA) poderia ter os resultados desastrosos que tem.

    “Criaria, porque isso teria como resultado os melhores alunos irem para as melhores escolas e os piores para as piores escolas, criando um feed-back positivo que ampliaria as desigualdades originais.”

    Esse é um sistema melhor e mais justo do que ter todos burros. O resultado do que propões é que os melhores não são recompensados algo que já vem desde os anos 80 quando os 0-20 deixaram de ser usados para chegarem os 0-5. Essa engenharia social deu os lindos resultados actuais.

    Comentário por lucklucky — Julho 5, 2007 @ 20:56

  21. “O resultado do que propões é que os melhores não são recompensados”

    Os melhores já são recompensados por natureza – ficam a saber mais (além de que os pais podem sempre indexar a mesada dos filhos às notas).

    Mas, se o lucklucky quer mesmo que os melhores sejam recompensados, porque não uma maneira que não amplie as desigualdades originais, p.ex., aumentando o valor do abono de família para os alunos com melhores notas?

    Comentário por Miguel Madeira — Julho 5, 2007 @ 23:43

  22. [...] Porquê tanto medo dos exames? Os exames e a esquerda [...]

    Pingback por Yet Another Blog » Blog Archive » Sugestões de leitura (2) — Julho 8, 2007 @ 15:38


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