A quebra de produção de leite em Portugal está a chegar a níveis “preocupantes” e já não chega para abastecer o mercado interno. A escassez, “que não pode ser resolvida com importações”, levou a uma subida de preço nos produtores, mas a indústria teme um aumento maior, se a produção continuar a descer 5%, como está a acontecer.
“Os resultados da última campanha [que terminou no final de Março] revelam situações preocupantes, com um défice de 77 milhões de toneladas face à quota leiteira nacional, que está equilibrada com o consumo em Portugal“, afirmou ao “Diário de Notícias” Fernando Cardoso, secretário-geral da Federação Nacional de Cooperativas de Leite e Lacticínios (Fenalac).
(…)
Este decréscimo já provocou um aumento de preço nos produtores, entre um a dois cêntimos por litro (que custa em média entre 29 e 30 cêntimos), num sector que trabalha com “margens muito reduzidas”. A quebra de produção deve-se a factores meteorológicos (que levou ao aumento de preço da alimentação animal), às dificuldades em adquirir animais e a questões legais, tanto a nível nacional como comunitário. “As dificuldades de licenciamento das explorações, a ausência de um apoio forte no plano de desenvolvimento rural e o desligamento dos subsídios comunitários da produção (cada produtor recebe um montante independentemente do que produz) estão a incentivar o abandono da actividade”.
Segundo Fernando Cardoso, é necessária uma intervenção urgente do Estado para inverter a tendência, caso contrário, Portugal terá, já no final do ano uma situação “complicada”, podendo, no futuro, “pôr em causa o abastecimento da indústria”.
Jornal de Negócios, com negritos meus.
A União Europeia, por via da sua famosa Política Agrícola Comum, faz um conjunto de raciocínios curioso: estabelece mecanismos de incentivo e subsídio à produção; simultaneamente, estabelece quotas dessa produção para cada país e penaliza com pesadas multas os excessos de produção que ultrapassem essa marca.
O que temos? Um mercado que, de tão condicionado, perdeu praticamente toda a ligação com a realidade da produção agrícola, com normais mecanismos de oferta e da procura, e que se deslumbra em soluções de novo intervencionismo para colmatar a realidade das consequências dos intervencionismos anteriores. Senão veja-se o que acontecia há um ano:
[F]oram divulgados os dados das entregas de leite no período Abril 2005 – Março 2006, as quais registaram um crescimento homólogo de +0,5 por cento no Continente, ou seja, um acréscimo de sete mil toneladas em relação a igual período do ano transacto, enquanto que nos Açores o crescimento foi de +2,4 por cento.O aumento da produção no Continente resulta essencialmente de um excesso no início da campanha, na medida em que nos últimos meses se verificou uma redução homóloga da produção, como ilustra a situação do mês de Fevereiro, com um queda de -1,6 por cento, e de Março (-5,0 por cento).
Não obstante estes dados poderem sofrer ligeiras alterações decorrentes de correcções que venham a ser efectuadas posteriormente, tudo aponta para que a ultrapassagem de quota no Continente atinja, no máximo, duas mil toneladas, o que corresponde a uma multa máxima de 618 mil euros.
Está aliás bem presente na memória de todos as multas a que foram submetidos os produtores do continente e dos Açores em anos recentes, exactamente por excederem os referidos valores de quotas.
Naturalmente, o expectável receio de incorrer em mais multas, conjugado com um estado com vontade de demonstrar serviço e postura de “bom aluno” e portanto rápido em relatar as violações das quotas, contribuíram para um retraimento forçado (por não depender da oferta) e artificial da produção, que redundou no estado presente das coisas.
A somar a isto, o facto de os vários estados europeus estarem limitados pelo mesmo sistema de quotas contribui para que as faltas não sejam facilmente supridas por recurso à importação, já que se torna naturalmente mais atractivo (por ter menores custos) suprir as procuras nacionais do que investir em exportar. Esta rigidez no comércio trans-fronteiriço, aliás em clara ruptura com o ideal europeu de mercado livre e aberto, motivou além disso no nosso caso que houvesse uma concentração da oferta, sendo que o mercado é praticamente dominado por um oligopólio de cooperativas de produtores que ganham, fruto do elevado condicionamento e dificuldade de entrada de competidores no mercado, carta branca para intervir nos preços.
Ou seja, temos um cenário em que não há motivação para produzir, já que os produtores recebem incentivos significativos independentes da produção, e além disso é-lhes acenado o risco de multas elevadas, há garantia de severas dificuldades à entrada no mercado de concorrencia estrangeira, e temos um mercado dominado (em grande medida com o patrocínio do estado) por um monopólio (mais concretamente um oligopólio) com grande margem de manobra para gerir a oferta e o preço.
Quem perde, como será de prever, é o consumidor, amarrado que está por uma teia intervencionista europeia e pela vontade do estado português de fazer boa figura e de de apresentar powerpoints de “grandes projectos nacionais”. Por se perder a noção de encontro entre oferta e procura, subjugado este que está a uma enormidade chamada PAC que continua a sorver os recursos dos orçamentos comunitários.
Excelente post.
Comentário por André Azevedo Alves — Junho 15, 2007 @ 23:28
“77 milhões de toneladas”
De certeza? Ou enganaram-se por 1000?
Comentário por Range-o-Dente — Junho 16, 2007 @ 10:03
77 milhões de toneladas são 7700 litros de leite por português …
Comentário por Range-o-Dente — Junho 16, 2007 @ 10:06
[...] A política mais estúpida da Europa. Por João Luís Pinto. A União Europeia, por via da sua famosa Política Agrícola Comum, faz um conjunto de raciocínios curioso: estabelece mecanismos de incentivo e subsídio à produção; simultaneamente, estabelece quotas dessa produção para cada país e penaliza com pesadas multas os excessos de produção que ultrapassem essa marca. [...]
Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » A escassez artificial de leite e a PAC — Junho 16, 2007 @ 13:03
[...] Para maior desenvolvimento do tema, recomendo este excelente post do JLP. [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Como gerar uma escassez artificial de leite — Julho 4, 2007 @ 14:07
77 milhões de toneladas… Aqui há gato…
77000000t * 1000l / 1,035t = 74396135265,7 l / 10 642 836 portugueses = 6990,25 litros / portugues
Alguém conhece um português que beba 19 litros de leite por dia, todos os dias?
http://en.wikipedia.org/wiki/Portugal
http://hypertextbook.com/facts/2002/AliciaNoelleJones.shtml
Comentário por Damien Vessa — Julho 4, 2007 @ 22:21
Caro Damien Vessa, o leite é também usado na produção de queijo, manteiga, iogurte ou leite em pó (para referir apenas os principais). Nalguns casos (como no do queijo) o factor de produção não é de 1 para 1.
Comentário por Miguel — Julho 5, 2007 @ 09:12
[...] Antevejo uma quebra de produção a níveis “preocupantes” e uma escassez generalizada de vinho… [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » A política mais estúpida da Europa (2) — Julho 5, 2007 @ 15:02
[...] avisos foram sendo mais que muitos: desde os cíclicos anúncios de “escassez de leite” ou de cereais (repercurtidos em anúncios catastróficos ligados ao preço do pão e aos [...]
Pingback por A big round of applause « O Insurgente — Maio 5, 2008 @ 18:50