A regra social por “default” é de que as relações sexuais acontecem entre pessoas de sexo diferente. O meio social reprime manifestações de homossexualidade. Muitas das pessoas, em especial do sexo masculino, que se dizem heterossexuais, nunca sequer experimentaram ter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo pelos factores atrás mencionados. Justifica-se aqui algum tipo de intervenção liberal-paternalista (p.e.: 5 anos em que só são permitidas relações sexuais homossexuais seguidos de um período de liberalização)?
Maio 29, 2007
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E’, de facto, bastante disparatada. O que podera’ justificar uma medida temporaria – no caso do fumo – tem que ver com o conflito de direitos, entre fumadores e nao fumadores, e com uma regra social instituida. Nao e’ uma medida para “salvar ninguem”. Nao vejo, na tua pergunta, onde e’ que ha’ um conflito de valores. O objectivo da intervencao temporaria nao e’ “experimentar” nem tornar tudo “igual”, mas sim procurar uma solucao mais justa. Face ao contexto – a tal regra social que evolui e que consubstancia uma assimetria nos direitos de uns e outros -, e’ possivel que uma solucao mais justa envolva uma limitacao temporaria de algumas liberdades.
Parece-me que nao percebestes bem esta questao – de procurar uma solucao mais “justica” -, uma vez que insistes na tonica, bem mais facil (para nao dizer automatica), de achar que o Estado interviria, no caso em que citas (do fumo), para “salvar” ou “ajudar” alguem (que e’ a unica ponte que eu vejo como possivel, mas sou capaz de nao estar a ver bem a coisa). Nao. A motivacao era procurar uma solucao mais justa e equilibrada. Acima da Liberdade esta’ a Justica. A defesa da liberdade faz-se, para um liberal, em grande parte (senao toda) porque e’ justo que cada um tenha uma esfera de liberdades individuais inviolaveis, porque e’ justo que cada um tenha direito ‘a sua propriedade.
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 14:29
Tiago,
“Acima da Liberdade esta’ a Justica.”
Agora de repente fizestes-me lembrar o nosso primeiro (vénia reverêncial e cumprimentos à mãezinha), com o seu famoso “É a lei que dá a Liberdade”…
Comentário por João Luís Pinto — Maio 29, 2007 @ 14:33
Eu falei em Justica, nao falei em lei, caro Carlos. O que tu estas a dizer e’ uma coisa diferente: sem lei, nao ha’ liberdade. Ou seja, a existencia de um estado de direito e’ condicao necessaria para a vivencia da liberdade. O Henrique Raposo escreveu imenso sobre isto, podes googlar (acho que “sem mao de ferro nao ha’ mao invisivel” ou algo parecido, se a memoria nao me trai).
O que eu digo e’ muito diferente e apenas lembra o caracter normativo do liberalismo (que nao faz dele necessariamente uma “ideologia”, com todas as interpretacoes que esta palavra tem). O ponto e’ que tu defendes principios liberais (ou outros) porque consideras que isso e’ o “justo”. Essa e’ a tradicao milenar da (filosofia) politica.
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 14:41
“A defesa da liberdade faz-se, para um liberal, em grande parte (senao toda) porque e’ justo que cada um tenha uma esfera de liberdades individuais inviolaveis, porque e’ justo que cada um tenha direito ‘a sua propriedade.”
Receio bem que não.
A principal razão porque um liberal gosta da liberdade é porque não gosta da coerção. É simples. Não tem nada que ver com justiça.
Comentário por jtcb — Maio 29, 2007 @ 14:41
“(p.e.: 5 anos em que só são permitidas relações sexuais homossexuais seguidos de um período de liberalização)”
Por este andar, lá chegaremos. Mas nessa altura, prefiro emigrar para a Arábia Saudita…
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 14:41
“(p.e.: 5 anos em que só são permitidas relações sexuais homossexuais seguidos de um período de liberalização)”
Uma questão importante: durante esses 5 anos seria permitido fumar em propriedade privada ou o intervencionismo liberal-paternalista não o permitiria?
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 14:43
“O meio social reprime manifestações de homossexualidade.”
Admitindo que a actual promoção da homossexualidade pelo Estado e pelos media não chega para atingir uma situação satisfatoriamente progressista, pode de facto ser necessário intervir mais. Dessa forma, será possível promover a diversidade num contexto de paternalismo-liberal e ultrapassar a ortodoxia do ultra-individualismo.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 14:50
““(p.e.: 5 anos em que só são permitidas relações sexuais homossexuais seguidos de um período de liberalização)”
Uma questão importante: durante esses 5 anos seria permitido fumar em propriedade privada ou o intervencionismo liberal-paternalista não o permitiria?”
Só será permitido se o cigarro fôr aceso nos três minutos seguintes à execução da tarefa que permite satisfazer a indicação (não uma ordem entenda-se) de prática dos ditos actos.
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 14:52
“Eu falei em Justica, nao falei em lei, caro Carlos.”
Presumo que era para mim, não para o Carlos…
“O ponto e’ que tu defendes principios liberais (ou outros) porque consideras que isso e’ o “justo”.”
Olhe que não, olhe que não…
Comentário por João Luís Pinto — Maio 29, 2007 @ 14:54
“A principal razão porque um liberal gosta da liberdade é porque não gosta da coerção. É simples. Não tem nada que ver com justiça.”
E’ porque acha que e’ “justo” nao haver coercao. Se me disser que apenas desgosta de coercao porque (sao exemplos) isso maximiza a sua riqueza ou porque gosta disso, entao, I’m afraid, nao estamos a falar de “filosofia politica”, mas sim de gostos (legitimos) e de desejos de ver implementadas as preferencias do proprio.
“Uma questão importante: durante esses 5 anos seria permitido fumar em propriedade privada ou o intervencionismo liberal-paternalista não o permitiria?”
Duas coisas. Primeiro, a minha defesa de uma limitacao temporaria do fumo reserva-se a alguns espacos de acesso publico, nunca privados. Segundo, nao era feita por motivos de “paternalismo liberal” – porque nao tem como *motivacao* moldar a escolha do proprio -, mas sim de procurar uma solucao mais justa, em termos de atribuicao de direitos. Sei que o post e’ longo e um pouco chato, mas acho que se o lerem com atencao isso sai bastante claro. Nao ha’ qualquer motivacao paternalista naquilo que eu proponho relativamente ‘a politica sobre o fumo.
http://gloriafacil.blogspot.com/2007/05/e-mais-tabaco-mais-mais.html
Isso nao quer dizer que nao considere aceitavel, nalguns contextos, um “paternalismo libertario”, como resulta do post que escrevi. Mas nao e’ isso que esta’ em causa como o fumo, razao pela qual o post do Carlos, sendo bem intencionado, sugere uma analogia que nao tem sentido.
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 14:56
JLP,
Vi o “Pinto” e enganei-me, sorry. (Ja’ agora, voces sao irmaos? Nao tens de responder publicamente, claro, just curious
).
Se tu nao defendes principios com base num conceito (Aristotelico, ou outro) de justica, entao isso e’ bastante surpreendente e tambem esclarecedor.
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 14:57
“Vi o “Pinto” e enganei-me, sorry. (Ja’ agora, voces sao irmaos? Nao tens de responder publicamente, claro, just curious
).”
Não, não somos irmãos (a menos que small-brothers e, eventualmente, de espírito). A Sandra (SMP) também é Pinto. Também gostamos de ser o blog dos Pintos.
“Se tu nao defendes principios com base num conceito (Aristotelico, ou outro) de justica, entao isso e’ bastante surpreendente e tambem esclarecedor.”
Não, não defendo. Perdeste o meu artigo de apresentação aqui n’O Insurgente, e não levaste a pleno as nossas impressões trocadas em termos de Public Choice e de relativismo/contractualismo…
Comentário por João Luís Pinto — Maio 29, 2007 @ 15:02
[...] Uma questão disparatada sobre paternalismo liberal. Por Carlos G. Pinto. Justifica-se aqui algum tipo de intervenção liberal-paternalista (p.e.: 5 anos em que só são permitidas relações sexuais homossexuais seguidos de um período de liberalização)? Posted 29.5.2007 by André Azevedo Alves [...]
Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » Para ler antes de “largar disparates” — Maio 29, 2007 @ 15:13
Nao perdi nada. Acho que estamos a interpretar a coisa de forma diferente. Manda o link, se quiseres, que nao consegui encontrar o post. Tx. (E viva o blogue dos Pintos).
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 15:17
“Só será permitido se o cigarro fôr aceso nos três minutos seguintes à execução da tarefa que permite satisfazer a indicação (não uma ordem entenda-se) de prática dos ditos actos.”
Nesse caso, optarei pela abstinência nos dois planos.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 15:21
Sete anos de pastor Calos servia
Cinha, mãe de Pimpinha, serrana bela;
mas não servia à mãe, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém a mãe, entrega-lhe o seu mano em vez dela,
qual Pimpinha, deu-lhe um rufia.
Vendo o triste Carlos que com enganos
lhe fora assim negada a sua musa inspiradora,
como se a não tivera merecida;
pôs-de dali para fora por sete anos,
dizendo: – Até serviria, se não fora
para tal penitência tão curta a vida.
Comentário por Filipe Melo Sousa — Maio 29, 2007 @ 15:23
http://www.oinsurgente.org/2007/05/22/bilhete-de-identidade-mas-nao-cartao-unico/
Comentário por João Luís Pinto — Maio 29, 2007 @ 15:26
Este (http://gloriafacil.blogspot.com/2007/05/e-mais-tabaco-mais-mais.html) não é o mesmo que este (http://www.oinsurgente.org/2007/05/09/o-fumo-dos-outros-iii-por-tiago-mendes/)?
Comentário por LT — Maio 29, 2007 @ 15:27
E’ o mesmo, sim, caro LT. Googlei o publicado no GF.
Quanto ao post de apresentacao do JLP, nao tem la’ nada de “justificativo” da auto-denominacao de “liberal”.
A proposito de paternalismo, recordo que os meus receios sao tao grandes quanto provavelmente os vossos. Apenas estou aberto ao que se possa descobrir sobre o homem, a sua natureza e os seus comportamentos.
“Uma nota final. Limitar a liberdade de escolha para benefício do próprio resvala facilmente para paternalismos que repudiamos (lembremos “1984”, de Orwell). Mas negar a natureza humana, negando o problema do auto-controlo, não é aceitável. Procurar uma forma ponderada e limitada de intervir na esfera individual de cada um – é este, politicamente, o grande desafio.”
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/columnistas/pt/desarrollo/699791.html
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 15:32
Tiago,
Hoje a lei diz que:
Os estabelecimentos privados abertos ao público podem proíbir os clientes de fumar.
As pessoas são livres para ter relações sexuais homossexuais.
A prática social é:
A esmagadora maioria dos estabelecimentos privados abertos ao público não proíbem os clientes de fumar, porque sempre permitiram que se fumasse.
Muitas pessoas que seriam homossexuais nunca o chegam a revelar por receio das repressões sociais.
O resultado:
Os não-fumadores sujeitam-se à boa-vontade dos fumadores cada vez que vão a um estabelecimento privado aberto ao público.
Homossexuais assumidos têm uma menor oferta de parceiros. Muitos homossexuais não chegam sequer a assumir-se por medo de repressão social.
Solução:
Inverter a situação 5 anos para eliminar de forma mais rápida hábitos sociais que a elite pensante considera injustos.
Há aqui algumas diferenças, é certo. Porventura eliminatórias, é verdade. Mas o paralelo, por muito ridículo que pareça à partida, não é assim tão difícil de estabelecer. Como tu próprio dizes, é complicado estabelecer fronteiras quando resvalamos para um pensamento socializante/paternalista da actuação do estado.
Comentário por Carlos G. Pinto — Maio 29, 2007 @ 15:41
“Quanto ao post de apresentacao do JLP, nao tem la’ nada de “justificativo” da auto-denominacao de “liberal”.”
Eu não me pretendia “justificar” ou proclamar a minha “pureza liberal”. Somente enunciar os contornos da maneira como penso e que me fazem pensar ser liberal. E felizmente, motivam e esclarecem outros no sentido de concordarem comigo.
Comentário por João Luís Pinto — Maio 29, 2007 @ 15:41
““(p.e.: 5 anos em que só são permitidas relações sexuais homossexuais seguidos de um período de liberalização)”
Por este andar, lá chegaremos. Mas nessa altura, prefiro emigrar para a Arábia Saudita…”
Não queres dar uma hipótese às relações homossexuais? És um homofóbico.
Comentário por Carlos G. Pinto — Maio 29, 2007 @ 15:48
Filipe, muito bom! De antologia, meu caro.
Comentário por Carlos G. Pinto — Maio 29, 2007 @ 15:49
“Mas o paralelo, por muito ridículo que pareça à partida, não é assim tão difícil de estabelecer. Como tu próprio dizes, é complicado estabelecer fronteiras quando resvalamos para um pensamento socializante/paternalista da actuação do estado.”
E’ verdade que ha’ esse perigo. Eu sempre defendi uma restricao como forma de resolver um conflito de valores num espaco PUBLICO, logo, acho o exemplo da homossexualidade muito pouco adequado, ainda que perceba algumas “pontas” para fazer o paralelo.
“Eu não me pretendia “justificar” ou proclamar a minha “pureza liberal”. Somente enunciar os contornos da maneira como penso e que me fazem pensar ser liberal. E felizmente, motivam e esclarecem outros no sentido de concordarem comigo.”
JLP: nao estava a criticar, estava a descrever!
Tu falaste no teu post no contexto de eu referir que a defesa de ideias liberais se faz, como qualquer outra defesa de ideias do foro politico, com base em juizos normativos e avaliacoes sobre o que e’ “justo”. Tu referiste o teu post, eu so’ achei estranho que nao estivesse la’ nada a “justificar” o denominares-te liberal. Foi so’ isso. Achei que ia encontrar justificacoes nao baseadas num criterio de justica, mas la’ so’ vi uma descricao (que nao e’ novidade, claro).
Comentário por Tiago Mendes — Maio 29, 2007 @ 15:53
“Achei que ia encontrar justificacoes nao baseadas num criterio de justica, mas la’ so’ vi uma descricao (que nao e’ novidade, claro).”
Acho que há uma justificação, que já foi referida, que é essencial: a ausência de coerção. Acompanhada com um reconhecimento voluntário da liberdade negativa e da propriedade absolutos, e do monopólio do estado no direito constitucional e penal, da defesa e da segurança.
Nada disto tem a ver com Justiça. Tem a ver com o estabelecimento espontâneo de uma ordem que permita a cooperação, a segurança e integridade físicas pessoais dos que se submetem a esse acordo. Em contraposição ao estado natural em que vigora simplesmente a lei do mais forte.
Comentário por João Luís Pinto — Maio 29, 2007 @ 16:08
“A principal razão porque um liberal gosta da liberdade é porque não gosta da coerção. É simples. Não tem nada que ver com justiça.” (JTCB)
“E’ porque acha que e’ “justo” nao haver coercao. Se me disser que apenas desgosta de coercao porque (sao exemplos) isso maximiza a sua riqueza ou porque gosta disso, entao, I’m afraid, nao estamos a falar de “filosofia politica”, mas sim de gostos (legitimos) e de desejos de ver implementadas as preferencias do proprio.” (Tiago Mendes)
Caro Tiago Mendes,
Receio bem que estejamos mesmo a falar de Filosofia Política. Aliás, não sou eu que falo. A frase “A principal razão porque um liberal gosta da liberdade é porque não gosta da coerção” nem sequer é minha. É de Maurice Cranston que, como filósofo político, dispensa apresentações.
Comentário por jtcb — Maio 29, 2007 @ 17:46