Não falei ainda com ninguém que vá exercer o seu direito à greve, durante o dia de amanhã.
Pelo contrário, tenho falado com quem está muito preocupado com a maneira como se deslocará para o trabalho e como regressará para casa.
Uma greve convocada para servir a bolorenta agenda do PCP, organizada por dirigentes que nunca trabalharam um dia na sua vida (bom, exagero… talvez o tenham feito antes do PREC e há outros que apenas estão destacados no serviço colectivo, isentos do esforço da habitual labuta diária).
Serve exactamente que propósito?
Que alteração ocorrerá na quinta-feira e nos tempos que se seguem? Mais investimento virá para Portugal, aumentará a eficiência da gestão, a rentabilidade das empresas subirá – resultarão da greve mais emprego e maiores salários reais? Irão os trabalhadores do sector privado diminuir o que pagam todos os meses, sob a forma de impostos? Irão os trabalhadores do sector público diminuir as suas exigências para com os rendimentos dos anteriores?
Dizia Carvalho da Silva ontem no Prós e Contras, pelo meio das caducas frases de ordem da praxe, que a greve não era contra o governo, era contra as suas políticas (o que provocou um sorriso no ministro, depois de se certificar que tinha ouvido o que todos nós ouvimos). E pronto. Basta. Os restantes argumentos são conhecidos: o governo deve obrigar as empresas a aumentar os salários exponencialmente, enquanto se diminui o tempo de trabalho e por isso se contratam mais trabalhadores. A descoberta e penetração em novos mercados de Marte, tal permitirá.
O sindicalista, certamente com as melhores intenções na promoção do paraíso proletário na Terra, representa o que de mais retrógrado existe no movimento sindical. A central do PCP já vai começando a reparar que até mesmo na extrema esquerda, há quem não se alinhe pela sua bitola (vide caso da comissão de trabalhadores da Autoeuropa).
E afinal quem representam?
Os que compreendem que são fornecedores num mercado, o do trabalho, e que como em qualquer mercado têm de lutar por se manterem competitivos, sempre à procura de novas oportunidades de rentabilizar (como qualquer empreendedor) os seus conhecimentos, capacidades e tempo?
Os que percebem que sem procura ou dificultando a rentabilidade da mesma, não há mercado? Que criando barreiras à entrada, se protegem só os que já lá estão (e mais ainda os que conquistaram “direitos sociais inatacáveis”, como contratos vitalícios) e se prejudicam os mais novos e os desempregados?
Nada de novo no que digo, reconheço. Os argumentos de quem não compreende a manipulação do mercado de trabalho e do dia-a-dia da economia, à sombra do direito à greve, não são novidade para quem se recusa a ser mais uma ovelha, mais um proletário conduzido no caminho do suposto, e sempre prometido, bem colectivo.
O comunismo sindical está-se marimbando para cada um, para as opções de vida de cada trabalhador. Amanhã, voltarão os piquetes de greve a controlar quem não alinha, para apontar dedos (esperemos que nada mais que isso), para afastar qualquer hipótese de não se ser perturbado na sua vida. Como um efeito destas acções de mobilização, muitos de nós, trabalhadores, amanhã seremos cerceados na nossa liberdade.
Como eu, amanhã, muitos de nós não teremos o Estado nem os sindicatos a protegerem-nos o mui sagrado direito ao “não me chateiem”.
PS – Podem começar a chamar-me fásssssista, servidor dos exploradores capitalistas ou até a dizerem que se falo assim é porque sou rico e não preciso trabalhar para viver.
“Amanhã, voltarão os piquetes de greve a controlar quem não alinha, para apontar dedos (esperemos que nada mais que isso), para afastar qualquer hipótese de não se ser perturbado na sua vida.”
E, mesmo que os nomes dos não-grevistas fossem registados pelos piquetes e denunciados publicamente como “fura-greves” e “amarelos”, qual era a objecção do LA a isso? Se há liberdade de não fazer greve, também há liberdade de ostracizar socialmente quem não faz greve, não?
Comentário por Miguel Madeira — Maio 29, 2007 @ 14:53
Excelente post.
O sindicalismo comunista em Portugal, apesar de felizmente decadente, continua a ser um inequívoco entrave ao desenvolvimento.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 14:54
“Se há liberdade de não fazer greve, também há liberdade de ostracizar socialmente quem não faz greve, não?”
Sim, há liberdade para o fazer desde que pacificamente e há liberdade para criticar uma prática absurda, retrógrada e que prejudica os interesses do conjunto dos trabalhadores, como é o caso.
Era bom é que os sindicatos (e os delegados sindicais) deixassem de ter os vastíssimos privilégios de que usufruem. Suspeito que caso tal acontecesse a decadência sindical se acentuaria de forma substancial, mesmo no sector público…
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 15:00
E, mesmo que os nomes dos não-grevistas fossem registados pelos piquetes e denunciados publicamente como “fura-greves” e “amarelos”, qual era a objecção do LA a isso? Se há liberdade de não fazer greve, também há liberdade de ostracizar socialmente quem não faz greve, não?”
Miguel,
Acredite se quiser, mas eu estava à espera de uma resposta neste termos (embora talvez não de si). Quem me costuma lembrar dos sindicalistas amarelos, milita ardentemente no PCP.
Contaram-me à tempos a prática existente numa autarquia quanto ao controlo dos “fura-greves” pelos colegas do vigilante piquete. Coacção, foi o mínimo de que me lembrei.
Já agora, tenho algumas dúvidas que o exercício à greve, para mais no âmbito de uma geral, não exlua a liberdade e as garantias de não a fazer. Nesta linha, como serão afectados os números da greve, se houver quem tenha de faltar ou chegar atrasado ao trabalho por não poder usar os transportes colectivos (alguns deles estatais)?
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 15:00
Viva LA e viva o Insurgente por posts como este. A verdade tem que ser dita em algum lado. Ja’ que as televisoes alinham pela demagogia barata vermelheca, ainda bem que existem blogues como este para que a verdade seja dita. O comunismo sindical e’ responsavel por decadas de atraso em Portugal. A lei da greve tem que ser mudada, tem que se impor restricoes serias para que o pais nao resvale para o abismo.
O que me deixa satisfeito e’ que os novos trabalhadores da nova economia, trabalho baseado no conhecimento que comecam a aparecer em Portugal (R&D) rejeitam firmemente os sindicatos e estao apenas interessados em fazer avancar Portugal. O conhecimento vai substituir a ignorancia generalizada dos empregados fabris e publicos. E ai vai ser o fim do PCP. A sua base de paspalhos ignorantes vai desaparecer.
Comentário por Carlos Carvalho — Maio 29, 2007 @ 15:51
“Nesta linha, como serão afectados os números da greve, se houver quem tenha de faltar ou chegar atrasado ao trabalho por não poder usar os transportes colectivos (alguns deles estatais)?”
Aumentarão, claro, mas será que isso (regressando ao tema do post), afecta o “direito ao não me chateiem”? Talvez, mas acho estranho ver um liberal a defender um “direito positivo” ao uso de transportes colectivos.
Já agora, a imposição (por arbitragem obrigatória) de serviços mínimos também não afectará o direito ao “não me chateiem”?
Comentário por Miguel Madeira — Maio 29, 2007 @ 15:53
[...] o insurgente LA: Não falei ainda com ninguém que vá exercer o seu direito à greve, durante o dia de amanhã. [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Greve, serviços mínimos e iniciativa privada — Maio 29, 2007 @ 15:54
“Contaram-me à tempos a prática existente numa autarquia quanto ao controlo dos “fura-greves” pelos colegas do vigilante piquete. Coacção, foi o mínimo de que me lembrei.”
Só por curiosidade:
1. os “fura-greves” assinalados foram submetidos a violência física ou contra a sua propriedade?
2. os “fura-greves” sofreram alguma discriminação negativa de tipo económico?
(aceita que o LA prefira não responder, já que é daqueles casos em que entrar em pormenores pode facilmente identificar as pessoas)
Mas, sendo LA um liberal (suponho), imagino que só considere “coacção” o caso 1 (já um socialista também considerará no caso 2)
Comentário por Miguel Madeira — Maio 29, 2007 @ 15:59
“o mui sagrado direito ao “não me chateiem”.”
Ora bem.
Comentário por Helder — Maio 29, 2007 @ 16:07
“1. os “fura-greves” assinalados foram submetidos a violência física ou contra a sua propriedade?”
Conhço casos em que se verificou isto. Para além dos insultos da praxe, é claro.
Comentário por Miguel — Maio 29, 2007 @ 16:16
“acho estranho ver um liberal a defender um “direito positivo” ao uso de transportes colectivos.”
Não se trata de um direito positivo (ou noutra definição, que tenha de ser assegurado/garantido por outrém, ou mesmo pelo estado). O ponto partia da quebra de serviço contratado e na maioria esmagadora dos casos, já pago – refiro-me aos transportes colectivos e, por exemplo, aos passes. Será possível pedir à CGTP e aos seus associados que devolvam o custo sofrido por quem não opta fazer greve (ficar em casa), ou seja, um dia de trabalho perdido, um dia de passe de trsp., o custo extra de gasolina/portagens? Ou será que assegurar o direito à greve (um direito positivo com repercussões negativas
exclui a possibilidade e a responsabilidade de ajuste dos custos desta “ineficiência”?
Deveria o Estado legislar a compensação que eliminasse a “ineficiência”?
Ou será que ela decorre, precisamente, da própria legislação e dos direitos que concede?
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 16:25
“1. os “fura-greves” assinalados foram submetidos a violência física ou contra a sua propriedade?”
Miguel,
Se considerar que serem barrados, impedidos de circular livremente, de entrarem nas intalações onde trabalham, como violência e coação, a resposta é sim. Se considera ser insultado, violento, então sim.
Mais não posso dizer. Além de que é informação em 2ª mão, ainda que de fonte ideologicamente insuspeita.
Não lhe parece muito pouco democrático, por parte de quem enche a boca com o termo, que se tente cercear a liberdade de opção da maioria (não me diga que acredita que a maioria dos trabalhadores portugueses vai fazer greve?)?
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 16:30
““o mui sagrado direito ao “não me chateiem”.”
Ora bem.”
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 16:39
O registo feito pelos piquetes de greve dos trabalhadores que em dia de greve pretendem trabalhar decorre duma obrigação legal de informar a entidade patronal, por forma a que estes trabalhadores não percam o dia de trabalho.
Em relação aos insultos e a agressões físicas elas acontecem em ambos os lados da “barricada”. Tanto grevistas cumprindo o dever legal de permanecer no piquete são agredidos por “amarelos”, patrões e polícias ao serviço dos patrões, como existem casos onde também os “amarelos” são agredidos.
É resultado da tensão e dos conflitos de interesse que uma greve provoca. Não fosse esse o caso e não haveriam greves…
Ou anida temos dúvida da violência das relações sociais de produção e dos antagonismos que estas encerram?
A conciliação de classe é uma falsa miragem que os capitalistas pretendem criar…
Comentário por Ricardo — Maio 29, 2007 @ 17:18
Obrigado pelo esclarecimento (qto ao pagamento do dia de trabalho), Ricardo. Mas mentenho o relato (em 2ª mão, reafirmo).
“polícias ao serviço dos patrões”
O que pensam desses agentes, os corpos dirigentes das associações sindicais de polícia? Mantem-se o direito, afirmado pelo Miguel Madeira, a ostracizarem os colegas que se colocam ao serviço dos capitalistas?
“existem casos onde também os “amarelos” são agredidos.”
E ninguém apela ao Alto Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas…?
Onde andam os activistas anti-racismo quando são precisos?
Ricardo,
Em benefício dos leitores do Insurgente, talvez possas elaborar sobre o que são os “amarelos”, vistos da tua perspectiva.
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 17:27
Amarelos é um termo do movimento operário atribuido aos fura-greve e aos sindicatos que alinham com o patronato (normalmente associados à social-democracia).
O Sindicato Sócio-Profissional da POlícia e a Associação do Profissionais da Guarda, as duas maiores associações sindicais/profissionais das forças de segurança (estou a excluir os da PJ que têm um regime diferente) demonstraram a sua solidariedade com os trabalhadores em greve, mas que estarão no seu posto de trbalho como a lei os obriga.
Não ignores a intervenção ilegal, por norma da GNR, a desmobilizar os piquetes de greve e a permitir que trabalhadores temporários (que não trabalham na empresa) ocupem os postos de trabalho dos grevistas – o que é proibido pela lei da greve.
Comentário por Ricardo — Maio 29, 2007 @ 17:38
“Se considerar que serem barrados, impedidos de circular livremente, de entrarem nas intalações onde trabalham, como violência e coação, a resposta é sim.”
Sim
“Se considera ser insultado, violento, então sim.”
Não (da mesma forma que, aliás, não acho “violência” insultos a minorias étnicas ou sexuais, desde que não passe do insulto)
Comentário por Miguel Madeira — Maio 29, 2007 @ 18:38
“O ponto partia da quebra de serviço contratado e na maioria esmagadora dos casos, já pago – refiro-me aos transportes colectivos e, por exemplo, aos passes. Será possível pedir à CGTP e aos seus associados que devolvam o custo sofrido por quem não opta fazer greve (ficar em casa), ou seja, um dia de trabalho perdido, um dia de passe de trsp., o custo extra de gasolina/portagens?”
O serviço foi contratado com a empresa de transportes, não com a CGTP, logo, se alguém tivesse uma indemnização a pagar ao clientes era a empresa; agora, poder-se-á argumentar que os trabalhadores deveriam pagar a indemnização a empresa, que é o que já fazem (sob a forma de um dia de desconto no ordenado).
“Ou será que assegurar o direito à greve (um direito positivo com repercussões negativas) ”
O direito à greve não é positivo nem negativo – ou melhor, é um conjunto de vários direitos, uns positivos e outros negativos: o direito a não ser despedido por fazer greve parece-me um “direito positivo”; o direito a não ser preso ou processado civil ou judicialmente por fazer greve parece-me um “direito negativo”.
Comentário por Miguel Madeira — Maio 29, 2007 @ 18:48
“O serviço foi contratado com a empresa de transportes, não com a CGTP, logo, se alguém tivesse uma indemnização a pagar ao clientes era a empresa; agora, poder-se-á argumentar que os trabalhadores deveriam pagar a indemnização a empresa, que é o que já fazem (sob a forma de um dia de desconto no ordenado).”
Bom ponto.
Se considerar que o custo operacional é superior às receitas diárias (além de que a tesouraria já tinha sido aumentada com parte do pagamento destas receitas), o dia até se torna rentável. E no caso de transportes públicos (de pertença estatal) como o Metro, isto até deve ser verdade.
Comentário por LA — Maio 29, 2007 @ 18:52
[...] O direito à greve e o direito ao “não me chateiem”. Por LA. O comunismo sindical está-se marimbando para cada um, para as opções de vida de cada trabalhador. Amanhã, voltarão os piquetes de greve a controlar quem não alinha, para apontar dedos (esperemos que nada mais que isso), para afastar qualquer hipótese de não se ser perturbado na sua vida. Como um efeito destas acções de mobilização, muitos de nós, trabalhadores, amanhã seremos cerceados na nossa liberdade. [...]
Pingback por blogue atlântico » Blog Archive » Em dia de Greve Geral (2) — Maio 30, 2007 @ 15:05
“O que me deixa satisfeito e’ que os novos trabalhadores da nova economia, trabalho baseado no conhecimento que comecam a aparecer em Portugal (R&D) rejeitam firmemente os sindicatos e estao apenas interessados em fazer avancar Portugal.”
Foi a pensar neste comentário do Carlos Carvalho que, 6 meses depois, ecrevi este post:
http://ventosueste.blogspot.com/2007/11/greves-e-trabalhadores-do-conhecimento.html
Comentário por Miguel Madeira — Novembro 30, 2007 @ 14:57
[...] O direito à greve e o direito ao “não me chateiem” [...]
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