O Insurgente

Maio 28, 2007

Stultorum infinitus numerus est

Filed under: Internacional,Política — André Azevedo Alves @ 23:32

Wanderer Above the Sea of Fog
Daqui do topo do cume (posição que o Tiago Geraldo considera inalcançável – e quem sou eu para o contrariar quanto às suas próprias limitações?), não sei quem será esse Ron Paul que propõe que “nos sentemos à mesa dispostos a dialogar com os terroristas”. O único candidato Ron Paul de que tenho conhecimento é este.

Mas talvez o Tiago Geraldo, fazendo uso da sua “higiénica prudência”, consiga ver melhor no meio do nevoeiro do que eu.

28 Comentários »

  1. “Tenho seguido com higiénica prudência o debate presidencial nos Estados Unidos e a sensação que Ron Paul tem causado entre a blogosfera lusa – e, muito sinceramente, não percebo a excitação.”

    Mas até aqui tem toda a razão – embora conceda que falha nos motivos que posteriormente invoca. Se até há algum tempo me deixava algo confuso as simpatias que um proto-esquerdista como Giuliani recolhia no Insurgente e em outros blogs liberais portugueses (parece-me que, em boa parte, abandonadas), o entusiasmo com Ron Paul – sendo mais fácil identificar algumas motivações que o sustentam (em boa parte, é um fenómeno, compreensível, de mimetismo) -, é, se possível, ainda mais contraditório com aquilo que, em regra, defendem. E não me refiro, em exclusivo, as questões de política externa.

    Que liberais ou conservadores portugueses, inteligentes e bem-informados, gostassem de ver Ron Paul como POTUS é coisa que me parece de X-files.

    Comentário por HO — Maio 28, 2007 @ 23:56

  2. “Que liberais ou conservadores portugueses, inteligentes e bem-informados, gostassem de ver Ron Paul como POTUS é coisa que me parece de X-files.”

    Não era exactamente isto que queria escrever (and i meant no offense). É obviamente possível que, sem intereferências ectoplasmáticas, liberais inteligentes e bem-informados se entusiasmem com Paul, nomeadamente aqueles que vêm muito fielmente retradadas as suas posições em política externa nas de Paul e atribuem muita importância a isso(por exemplo, o CN).

    Comentário por HO — Maio 29, 2007 @ 00:01

  3. “Que liberais ou conservadores portugueses, inteligentes e bem-informados, gostassem de ver Ron Paul como POTUS é coisa que me parece de X-files.”

    E qual a probabilidade de o homem conseguir sequer a nomeação?

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:16

  4. “É obviamente possível que, sem intereferências ectoplasmáticas, liberais inteligentes e bem-informados se entusiasmem com Paul, nomeadamente aqueles que vêm muito fielmente retradadas as suas posições em política externa nas de Paul e atribuem muita importância a isso(por exemplo, o CN).”

    Eu diria que é natural que o CN se entusiasme (bastante) mais com Ron Paul do que a média dos liberais mas mesmo descontando a política externa (e mesmo aí é discutível qual o mal menor de entre as escolhas), há várias áreas em que Paul é francamente preferível aos restantes candidatos.

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:28

  5. Globalmente considerada, acho que a presença de Ron Paul nas primárias é francamente positiva. Em parte pela pobreza de todos os restantes e em parte pelo total desnorte do GOP.

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:29

  6. “E qual a probabilidade de o homem conseguir sequer a nomeação?”

    Não existe. Mas qual é a relevância disso? O entusiasmo deve-se a mera simpatia por underdogs? Mesmo indo por aí há gente bastante mais recomendável nas primárias republicanas. But ideas have consequences e muitas das de Paul, para lá de colidirem com o que aqui defendem, não são muito boas – e merecem refutação e não divulgação; num ou noutro lado do Atlântico.

    Comentário por HO — Maio 29, 2007 @ 00:30

  7. “há várias áreas em que Paul é francamente preferível aos restantes candidatos.”

    Não creio. Amanhã acordo mais cedo e defenderei aqui precisamente o contrário.

    Comentário por HO — Maio 29, 2007 @ 00:32

  8. “Mas qual é a relevância disso? O entusiasmo deve-se a mera simpatia por underdogs?”

    A relevância é que um candidato pode não ter hipótese realista de ganhar mas ter o potencial de orientar um pouco a discussão no bom sentido em várias áreas.

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:36

  9. Alguns insurgentes falham em ver que os EUA não poderiam viver da mesma maneira como viveram até agora.

    Para Portugal:
    Ron paul não teria intervido em Portugal no 25 de Abril. Cairia nos braços Comunistas…e muitos outros.

    A América sem aliados estratégicos a Nato acabava com Ron Paul.

    A OMC acabaria também. Uma das poucas organizações internacionais que ainda faz algo.

    A América sempre foi um País moral independente das bombas e ameaças. Ron Paul tornaria o País refém das bombas e ameaças.

    Comentário por lucklucky — Maio 29, 2007 @ 00:37

  10. “But ideas have consequences e muitas das de Paul, para lá de colidirem com o que aqui defendem, não são muito boas”

    Eu concordo que algumas (poucas) das ideias de Paul não são muito boas e merecem refutação, desde que se discuta o que ele disse e não o que a Fox News diz que ele disse.

    Mas para refutar essas poucas más ideias não faltam candidatos pelo que eu prefiro concentrar-me nas muitas boas ideias.

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:38

  11. E em qualquer caso, sempre dá para distrair do cenário deprimente destas primárias…

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:39

  12. “Amanhã acordo mais cedo e defenderei aqui precisamente o contrário.”

    Temos sempre muito gosto em ter textos do HO por aqui.

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:40

  13. “para lá de colidirem com o que aqui defendem”

    Já agora, outra nota: O Insurgente não tem posição colectiva sobre assunto nenhum. Isso também se aplica às primárias republicanas e, claro, ao Ron Paul…

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 00:41

  14. “Se até há algum tempo me deixava algo confuso as simpatias que um proto-esquerdista como Giuliani recolhia no Insurgente(…)”

    Tenho impressão que o HO referiu algo completamente diferente há umas semanas atrás.

    Comentário por Bruno Gonçalves — Maio 29, 2007 @ 00:54

  15. “Tenho impressão que o HO referiu algo completamente diferente há umas semanas atrás.”

    Bruno,

    Não sei se o HO mudou de opinião ou não mas repito algo que me parece importante, tanto neste tema como em outros: O Insurgente não tem posição colectiva sobre assunto nenhum.

    Há, como seria de esperar, bastantes áreas de concordância e muitas afinidades sobre diversos temas mas há também visões diferentes sobre outros.

    Comentário por André Azevedo Alves — Maio 29, 2007 @ 01:38

  16. “Tenho impressão que o HO referiu algo completamente diferente há umas semanas atrás.”

    Bruno,

    Como eu sou frequentemente distraído e desmemoriado – vivendo, como o outro, na permanente dúvida se algum conhecimento me habita ou se os empiristas estavam afinal equivocados -, fiz uma busca aqui no Insurgente para recordar o que poderia ter escrito sobre Giualiani; até porque tenho comentado mais do que seria próprio este tema – o preço tem sido o de não comentar mais nada.

    Apurei o seguinte:

    O primeiro comentário, foi a 7 de Novembro (há mais de 6 meses), a este post -http://www.oinsurgente.org/2006/11/07/aviso-a-navegacao-5/
    Declarei na altura: “E o Giuliani, enfim, tem a vantagem de não ter um voting record para defender, mas está mais próximo de um rockfeller republican do que de um verdadeiro conservador. Em suma, dois liberais da Nova Inglaterra”. O outro era o Lieberman.

    Depois, a 17 de Janeiro, escrevi: “Giuliani e Obama seriam acidentes históricos. Mas o que me perturba é a preferência dos insurgentes (e dos comentadores) por Giuliani. Giuliani é o mais liberal dos republicanos, sem dúvida; mas no conceito americano. Giuliani é o descendente possível dos Rockfeller Republicans – a ala socialista do GOP; e está muito mais distante que McCain ou Romney daquilo que é o liberalismo clássico – com a agravante de, do que ele pensa, se saber pouco. Giuliani é a favor da regulamentação que protege o establishment económico, de programas sociais, da centralização do poder, dos “avanços” normativos via decisões do tribubal federal, de visionar os direitos das pessoas na penumbra da constituição, do big government. Um conservador (ou um liberal) não se faz por ser duro contra o crime”. Perturba, confunde… parece-me muito em linha com o que afirmei ontem, não?

    Já agora, reparei que no mesmo comentário escrevi isto:
    “1 – Ron Paul vai influenciar tanto o debate das primárias republicanas como Al Shartpon o das democratas (e isto é ser optimista quanto à influência do Ron Paul), let alone ganhá-las. Os libertários nomearão outro atrasado mental como o Badnarik – que é o que faz justiça à clique grotesca em que se transformou o libertarian party.” Pelos vistos, preparo-me para desmentir a minha profecia. ;)
    http://www.oinsurgente.org/2007/01/17/os-sinos-dobram-por-nos-8/#comments

    A 2 de Abril, o Insurgente divulga o apoio de Forbes ao Giuliani; limitei-me um contido e prosaico “He was against it before he was for it.” http://www.oinsurgente.org/2007/04/02/mr-flat-tax/#comments

    E, no dia seguinte, alonguei-me: “Quanto a Giuliani: esta apresentação como supply-sider e campeão da flat-tax é espantosa. Mas expectável: ele tem posições tão socialistas noutras áreas que só aqui poderia apostar, mesmo que à custa de um enorme flip-flop. Há uma coisa que me deixa incomodado: os impostos não serão um assunto nestas eleições, a curva de laffer não será aliada dos defensores de mais descidas (para lá do Congresso, do equilíbrio orçamental, etc.). O populismo e a ligeireza de Giuliani darão para tudo: inclusive para voltar às suas tradicionais posições, caso vença a nomeação, se isso lhe vier a ser mais conveniente nas eleições gerais (e eu presumo que será). Tentarei comentar melhor este assunto mais tarde, no post que o André lhe dedicou. (pelo menos AGORA há razões para um liberal clássico escolher o Giuliani como preferido – mas não esqueçam que o tipo é um socialista)”.

    É certo ter reconhecido que a partir se poderiam descortinar razões para um liberal escolher Giuliani (não deixando de, à cautela, introduzir uma insinuante advertência) – não é outra coisa que fica expressa na última frase. Talvez seja então a isto que te refiras – mas tal não colide com o que afirmei ontem: “até há algum tempo” deixavam-me confuso “as simpatias que um proto-esquerdista como Giuliani recolhia no Insurgente”. Assim, o prazo expirou a 3 de Abril.

    E sendo verdade que mantenho alguma dificuldade em perceber a preferência de liberais por Giuliani, concedo que exista quem faça uma avaliação menos severa de flip-flops e mais caridosa da robustez intelectual e ideológica necessárias à defesa de certos princípios do que aquela que eu pratico.

    Afora estes comentários aqui no Insurgente, julgo que só comentei o assunto no teu blog ou, em inglês, em paisagens mais conservadoras – daquelas frequentadas pelos inimigos filosóficos do liberalismo: no primeiro caso, não creio que tenha dito algo diferente; no segundo, não faria sequer sentido que o fizesse e eu vou mantendo alguma lucidez.

    Se a tua impressão emana de algo que me escapou, diz – não ponho as mãos no fogo por mim. Abraço.

    Comentário por HO — Maio 29, 2007 @ 07:10

  17. “Já agora, outra nota: O Insurgente não tem posição colectiva sobre assunto nenhum. Isso também se aplica às primárias republicanas e, claro, ao Ron Paul…”

    Vá lá… Longe de mim a intenção de cometer a deselegância de colectivizar ou gregarizar tão distintos individualistas. Que me seja perdoada a falta de rigor sintáctico. Corrijo: há ideias defendidas por Paul que colidem, substancialmente, com ideias que são, amíude, sustentadas em numerosos posts no Insurgente. Está bem assim?

    Comentário por HO — Maio 29, 2007 @ 07:16

  18. “Temos sempre muito gosto em ter textos do HO por aqui.”

    Flattered. Mas esse “temos” é um plural majestático ou um perigoso colectivismo? ;)

    Anyway, o sacrífico da Prima foi consumido na defesa do Oakeshott e da minha coerência, o ataque ao Paul tem de ficar para Sexta ou Vésperas.

    p.s. – o askimet bloqueou um comentário de resposta ao Bruno.

    Comentário por HO — Maio 29, 2007 @ 07:23

  19. “p.s. – o askimet bloqueou um comentário de resposta ao Bruno”

    Está recuperado.
    Começo a achar que o Askimet também faz parte da facção anti-McCain. ;)

    Comentário por Miguel — Maio 29, 2007 @ 08:33

  20. Via “Hot Air”, cheguei a este post esclarecedor sobre a mentalidade dos apoiantes de Ron Paul na América.

    Comentário por JP Ribeiro — Maio 29, 2007 @ 11:21

  21. JP Ribeiro,

    Obrigado pelo link.

    Achei o post bastante esclarecedor. Tal como os comentários. Este por exemplo:

    “At the last Republican debate, the moderator mentioned that 77% of Republicans supported the war in Iraq. The remaining 23% would tend to favor Congressman Paul on this issue — the other candidates have a bigger pie, but they have to split it nine ways.”

    Comentário por BZ — Maio 29, 2007 @ 12:05

  22. “O Insurgente não tem posição colectiva sobre assunto nenhum.

    Há, como seria de esperar, bastantes áreas de concordância e muitas afinidades sobre diversos temas mas há também visões diferentes sobre outros.”

    Não esperava outra coisa… ;)

    Comentário por Bruno Gonçalves — Maio 29, 2007 @ 12:20

  23. HO,

    Apenas referi que tinha a “impressão”, o erro podia ser obviamente meu. Mas de facto, a frase a que me referia era aquela que citas:

    “Tentarei comentar melhor este assunto mais tarde, no post que o André lhe dedicou. (pelo menos AGORA há razões para um liberal clássico escolher o Giuliani como preferido – mas não esqueçam que o tipo é um socialista)”.”

    Pronto, confesso que recalquei a última parte… ;) E por último tenho que reconhecer que o prazo passou. Enfim, as minhas desculpas.

    Um abraço

    Comentário por Bruno Gonçalves — Maio 29, 2007 @ 12:27

  24. “the other candidates have a bigger pie, but they have to split it nine ways.”

    Mas tendo em conta as fatias residuais de vários candidatos…

    Comentário por Bruno Gonçalves — Maio 29, 2007 @ 12:39

  25. Aviso: comentário hiper-longo.

    “Via “Hot Air”, cheguei a este post esclarecedor sobre a mentalidade dos apoiantes de Ron Paul na América.Via “Hot Air”, cheguei a este post esclarecedor sobre a mentalidade dos apoiantes de Ron Paul na América.” – JP Ribeiro

    Os apoiantes de Ron Paul na América são um bom ponto de partida – pode não ser sempre justo avaliar um político pelas paixões que suscita, mas não é exercício inútil. Sempre existiu uma margem de libertários americanos, desde os liceais objectivistas ou os causídicos das John Birchs que nunca aceitaram bem a derrota no que o Buckley chamou a “battle for the soul of the GOP” dos anos 60, nem a aliança com os dixiecrats, os anarco-capitalistas mais furiosos e o seres pantanosos que resultaram do lado negro do fusionismo (não por acaso, a maioria das críticas ao Meyer vieram precisamente de libertários) que não só nunca estiveram no GOP – na Great Coalition começada a construir por Goldwater -, como estiveram quase sempre contra ela, incluindo nos anos Reagan. A estes “Chirping Sectaries” (qualquer dicussão sobre Paul deveria começar com uma leitura deste artigo: http://emp.byui.edu/DavisR/202/Libertarians.htm), juntam-se os modernos thecno-libertarians e, por razões diferentes, mas também infectadas pelo ressentimento, algumas franjas do paleoconservadorismo. Recorrendo uma vez mais a Kirk, uma “ideological clique” – um grupúsculo extremamente activo e frenético, principalmente, ou quase exclusivamente, na internet, que faz um ruído dos diabos, completamente desproporcional em relação à importância que tem, atirando impenitentemente clichés mais ou menos etéreos sobre o textualismo constitucional ou de como estado e estatismo são conceitos indiferenciáveis (ou, nos casos mais ilustrados, na inutilidade de qualquer acção sem fundamentos praxeológicos) e vendo conspirações em todo o lado.

    Há algumas posições de Paul que são boas, mas não são originais (no sentido de particularmente distinguíveis das dos outros candidatos) – aborto, state-rights, gun-control; outras que são originais (no mesmo contexto), mas que nem vale a pena ter em conta, tal a dose de nefelibatismo que as infecta – mesmo que, por absurdo, fosse eleito presidente, ninguém de bom senso acredita que desmantelasse o Fed, que recuperasse o padrão ouro, que legalizasse o tráfico de drogas e tóxicos, que extinguisse a secretaria de estado, a NSA, a NASA, o FBI ou o DoI – outras, como a interpretação constitucional, que são cada vez mais originais provavelmente por serem cada vez menos boas. Não creio que discutir estes assuntos fosse particularmente interessante no âmbito das primárias republicanas – para a esmagadora maioria dos americanos soaria a coisa de lunáticos. Reconheça-se, no entanto, uma ideia boa e original – mandou o Giualini ler um livro. Sobra, para já, a política externa.

    Muito do sucesso (salvo seja, do relativo high-profile que atingiu) de Paul deve-se a ocupar o espaço que nestas primárias pertenceria, naturalmente, a Chuck Hagel – e se este fosse candidato, a campanha de Paul não teriam um décimo do relevo que, malgré tout, tem tido. Apesar de outros candidatos, como McCain, terem sido críticos da condução da guerra pela administração desde o início (e foi criticado neste blog por criticar a administração Bush na guerra), a posição de Paul é exponencialmente mais fácil de entender, podendo ser transmitida com meia dúzia de slogans- Yankees go home -, ao passo que a de outros exige algum esforço e atenção. São as vantagens da ideologia, e de quem se recusa a lidar com a realidade conforme ela é…Quando a situação no Iraque é a que sabemos, é natural que este tipo de prédica acabe por atrair algumas atenções. Depois, o tal grupo de fanáticos vai alicerçando um discurso sectário numa lógica de “nós contra todos”.

    Parece-me que quanto às propostas de Paul na política externa, já se escreveu o suficiente e a minha opinião sobre o assunto está num comentário ali para baixo. Ora, eu não julgo que na discussão de ideias o aforismo “os inimigos dos meus inimigos são meus amigos” faça algum sentido – e não acredito que o AAAlves não concorde comigo neste aspecto (adicionalmente, também é cómico ver objectivistas “why shall we keep civilian casualities at minimun?” randianos a apoiá-las). Se influenciam o debate, é no mau sentido, criando um artificialismo que o coloca em dois extremos simplistas. A mim, parece-me que o endorsment ou o apreço por elas vindo de alguns bloggers liberais obriga a grandes contorcionismos em relação ao que têm defendido nos últimos anos – bastará uma rápida consulta aos arquivos dos blogues. Contudo, é verdade que não posso fazer um juízo das motivações ou inconsistências dessas mudanças com um mínimo de honestidade intelectual; nem me parece ser assunto de interesse. Porém, deve ficar claro que as teses defendidas apenas foram dominantes, na condução da República durante o último século, num curto período a seguir à Grande Guerra (e, em boa parte, com fundamentos diferentes). O que Paul propõe não é somente (nem essencialmente) um afastamento das visões idealistas, wilsonianas (duras ou moles) que, arguivelmente, têm sido o motor da política externa americana nos últimos anos. Não é um regresso à política de Reagan, ao realismo acomodado de Kissinger, ou ao cooperativismo liberal; tampouco uma variante mais prudente de qualquer delas. É uma completa retroversão, de princípio e não prudencial, às tradições americanas nesta sede nas últimas décadas. Não é um “isolacionismo realista” mas um “isolacionismo ideológico”. E o mundo mudou muito desde o final dos anos 10. A colagem de Paul à Old Right deve ser vista com cautelas: “America First” não é sinónimo de “Blame America First” – e Paul disse o que disse e não o que a Fox diz que ele disse, certo: o problema é que o que ele disse a realidade não confirma. E também deve ficar claro que Paul não é um jeffersoniano, mas um jacksoniano, tendencialmente nativista (como adiante se verá). E que estas discussões conceptuais acabam por ter depois uma tradução bem prática: em dólares, em programas de cooperação militar, em opções na política de defesa e de alianças. E, finalmente, que os republicanos já nomearam recentemente um candidato com inclinações isolacionistas, que afirmava que o papel do exército americano era defender o território e não andar a praticar o nation-building por esse mundo fora. Foi eleito presidente há 6 anos. O exercício do poder é bastante mais permeável à realidade que a prática da ideologia…
    Mas quem também foi eleito, e há mais anos, foi Ron Paul – tem andado pelo Congresso há uns 30. E, até pelas críticas desconfiadas que, para ir buscar um exemplo recente, sofreu a Ala Liberal de Pires de Lima, ninguém aceitará que deveremos fazer uma tabula rasa do que Paul efectivamente é enquanto político e legislador.

    Eu sou extremamente céptico em relação às qualidades do papel desempenhado pelos Political Advocacy Groups e pelos think-tanks na vida política americana hoje em dia: vejo os primeiros transformados em instrumentos de facções, com uma capacidade de influência desmesurada e negativa, e os segundos em meras caixas de ressonância dos partidos e dos financiadores (estando aqueles, para mais, transformados em meras caixas de ressonância do líder do momento). Mas continuam a fazer algo de muito útil: a publicação de ratings, nos quais apreciam, a partir daquilo que são os seus interesses – e de heurísticas construídas a partir daí -, o voting record dos legisladores. É um critério esmagadoramente objectivo e quantitativo, em que eventuais defeitos de modelagem podem ser ultrapassados se utilizarmos um número elevado de indicadores. E é um instrumento de análise muito útil num mundo em que é cada vez mais complexo avaliar a perfomance dos políticos – em especial dos legisladores -, considerados individualmente para um observador externo.
    Paul tem sido apresentado pelos seus apoiantes como um David Crocket contemporâneo – “Not yours to give”. Abundam as tiradas grandiloquentes e demagógicas sobre como “Paul votou sempre contra aumentos de impostos”, “Paul quer reduzir o governo ao que era no tempo dos Founding Fathers”, “Paul votou sempre contra os aumentos dos gastos do governo”, “Com Paul não existiram impostos”. E é verdade que acreditam sinceramente no que dizem. Eu disputo isto; e recorro à tese de que um político deve ser avaliado mais pelos actos do que pelas declarações de intenções e ao instrumento da avaliação do voting record, que me parece mais fiável que os frequentemente demagógicos position issues.

    Vejamos a questão dos impostos. Interessa fazer aqui um ponto prévio: o verdadeiro peso dos impostos avalia-se pelos gastos do governo, não pelas taxas ou estruturação fiscal em cada momento. Um dos pontos fracos de Paul é precisamente o de continuar com um discurso demasiado preso à ideia peregrina do “starve the beast”, que explica bem os sucessivos fracassos dos republicanos em reformar o governo durante os últimos 30 anos. Ainda assim, o mais influente interest group na área, a American for Taxes Reform ( http://www.atr.org/ ATR believes in a system in which taxes are simpler, fairer, flatter, more visible, and lower than they are today. The government’s power to control one’s life derives from its power to tax. ATR believes that power should be minimized), atribui a Paul um rating de 42% em 2005 (utilizarei sempre o último rating publicado, ou, quando as organizações a usem como indicador, uma média flutuante ou um life-time rating). Em comparação, McCain tem 90%. Como o AA costuma vir nesta altura com uma conversa, da qual ainda não percebi o alcance, sobre o Senado não ter nesta área poderes de iniciativa, podemos comparar com outros congressistas republicanos candidatos: o Duncan Hunter tem 88%, o Tom Tancredo também. E foi o Taxpayer Protection Pledge da ATR que Ron Paul assinou, com gala e foguetório. Outros, apesar do superior histórico, não o fizeram. Na realidade os 42% de Paul são o mais baixo de todos os congressistas americanos; e o seu life-time rating, o mais baixo de todos os candidatos às primárias republicanas que já foram legisladores (71% contra 83% do Thompson). Podemos também analisar o rating da FreedomWorks ( freedomworks.org FreedomWorks fights for lower taxes, less government and more economic freedom for all Americans). Neste Ron Paul sobe para os 59% – contra 75% de McCain ou os 71% de Tancredo. É, uma vez mais, um dos republicanos com pior classificação. “The Taxpayers’ Best Friend”? Bem, não é exactamente essa a opinião deles…

    Mas mais importante é analisar da perspectiva dos gastos do governo. A Citizens Against Government Waste ( cagw.org is a private, non-partisan, non-profit organization representing more than one million members and supporters nationwide. CAGW’s mission is to eliminate waste, mismanagement, and inefficiency in the federal government) atribui-lhe um rating de 69%. É, a meu ver, o mais sintomático dos elementos que possa aduzir; e uma vez mais, Paul será dos congressistas republicanos com pior rating (excluam-se os das costas). McCain tem 91%, Tancredo 88%, Brownback 79%.

    Assim, não espanta que no rating do National Journal – Liberal on Economic Policy (liberal no sentido americano, entenda-se), Ron Paul seja um dos poucos republicanos com nota positiva – 54% (o indíce é ligiramente diferente: According to the National Journal – Liberal on Economic Policy’s calculations, in 2005, Representative Paul voted more liberal on economic policy issues than 54 percent of the Representatives.) E o ADA ( adaction.org is America’s oldest independent liberal lobbying organization. In the spirit of the New Deal and ADA founders Eleanor Roosevelt, renowned economist John Kenneth Galbraith, and former Senator and Vice President Hubert Humphrey ADA lobbies through coalition partnerships, through direct advocacy, and through the media – atente-se bem nas referências), dá-lhe 40% (McCain e Hunter têm 10, Browback e Tancredo 5; há montes de republicanos corridos a 0% e quase nenhuns com mais de 15).

    Se Paul, afinal, não é muito enérgico na contenção de gastos do governo federal, é provável que alguém goste dele. E, mais uma vez, os números dos interest groups, que os coligem para que os seus filiados votem nos representantes que são mais simpáticos aos seus interesses, independentemente de numa perspectiva económica estes serem recomendáveis ou não, confirmam isso mesmo: A National Association of Wheat Growers (http://www.wheatworld.org/) dá 40% a Paul, contra 33% a McCain. A American Farm Bureau Federation ( fb.org ), atribui-lhe o estatuto de “friend” (e claro que não a McCain, um dos maiores críticos da política de subsídios agrícolas). A National Stone, Sand & Gravel Association ( nssga.org ), coloca-o com 56% (contra os 15% de McCain). E, claro, a National Association of Government Contractors, para a qual quase todos os democratas têm 100%, atribui a Paul uma das notas mais elevadas entre todos os congressistas republicanos: 67%. Como, de resto, a Alliance for Retired Americans ( retiredamericans.org), que defende a segurança social estatizada, um assunto caro aqui à casa: 63%, contra os 20 de McCain ou os 0 de Hunter. Muito sintomático.

    Mas, os problemas mais prementes (ia escrever maiores, mas os anteriores já me parecem suficientemente graves), estão, quanto a mim, noutras áreas, até por serem de maior relevo para os portugueses: imigração, comércio livre e globalização.

    Quanto à primeira: naturalmente, tem um rating de 100% na FAIR. A posição de Paul sobre a actual reforma da lei da imigração deveria desgostar qualquer liberal. O CATO, de onde surgem inúmeros apoios a Ron Paul, tem simultaneamente apoiado a bill, mesmo achando-a excessivamente proteccionista. Citando-o, nesta matéria: “immigrants simply increase the supply of labor in a community, which lowers wages”. As soluções são angustiantes: a adesão estrita aos jus sanguinis e a deportação de 12 milhões de pessoas, uma coisa absurda e inexequível (it’s the economy, stupid). E depois queixam-se os apoiantes de Paul de que ninguém quer discutir ideias com eles, e que lhes chamam lunáticos para o evitar – ora, é mesmo isso que eles são. Para lá de ser no mínimo estranho ver as mesmas pessoas defenderem, num dia, que o problema da imigração ilegal é o “ilegal” e, no seguinte, defenderem deportações em massa, muros mais altos e o diabo a sete. Para citar um austríaco conservador e liberal nesta matéria: “America is built on a voluntaristic basis. To be an American is frequently not an accident but a matter of choice and free decision. It means conscious assimilation and amalgamation. The word Americanism is not without real significance” (Kuehnelt-Leddihn). Agora, deve passar a ser uma questão de ter os pais certos…

    Na questão do free-trade: o CATO também publica uns ratings – “the mission of the Cato Institute Center for Trade Policy Studies is to increase public understanding of the benefits of free trade and the costs of protectionism”. Infelizmente, não lhes dão muita atenção: o big government McCain atinge 82%, o campeão liberal Ron Paul, 64%. Um indicador mais completo é o da USA*Engage ( usaengage.org – USA*ENGAGE has lead a campaign to inform policy-makers, opinion-leaders, and the public about the counterproductive nature of unilateral sanctions, the importance of exports and overseas investment for American competitiveness and jobs. USA*ENGAGE promotes responsible alternatives to sanctions that actually advance US humanitarian and foreign policy goals, such as intensified US diplomacy and multilateral cooperation). As notas são de A a F: McCain tem um A, Brownback um B, Ron Paul um… C. Jeffersoniano, hum?

    Mas isto não admira: Paul tem sido um feroz opositor de quaisquer acordos de comércio que levem à diminuição e eliminação de tarifas, seja a CAFTA, a NAFTA, ou meros acordos bi-laterais, e defende a saída da OMC, que, com muitos defeitos, é uma das poucas organizações globais cuja acção tem atingido alguns objectivos positivos. É claro que depois envolve tudo em grandiloquências contra as restrições. Mas isto prova que Paul é, na realidade, mais um isolacionista, que provavelmente levaria os EUA a um fechamento e a globalização económica a um recuo (e muita gente de regresso à pobreza) do que um não-intervencionista em termos militares.A propos, um pequeno regresso à política externa – um dos ratings de 100% que é atribuído a Ron Paul é do CAIR – http://en.wikipedia.org/wiki/Criticism_of_the_Council_on_American-Islamic_Relations – organização que já mereceu várias críticas violentas por estes lados.

    É claro que Paul obtém outros excelentes ratings – a John Birch Society atribui-lhe sempre 100% (quem conhece, sabe o que isto vale; eu, aos olhos de quase toda a gente um radicalíssimo conservador, fui uma vez a uma reunião John Birch e senti o mesmo que Woody Allen nos concertos rock). Mas, analisando os ratings compósitos mais considerados entre os conservadores, nomeadamente o da ACU ( acuratings.org ), veremos que Paul fica muito abaixo da restante concorrência republicana.

    A meu ver, Paul é, nestas eleições, um Buchanan ultra-light, colocando menos enfâse no transcendente e no tradicionalismo (o que aquele tinha de mais interessante) e transferindo-o para o textualismo e para o libertarianismo ideológico, tudo isto num estilo infinitamente mais… loony. É verdade que, com o sacrifício da sofisticação e da robustez intelectual, o discurso directo, esquemático, quase primitivista de Paul acaba por soar mavioso aos ouvidos de muitos. Eu não vejo é como liberais ou conservadores europeus, que certamente não sofrem de nenhuma birra freudiana contra o GOP ou os conservadores americanos, se possam deixar seduzir por isto. Ron Paul is no David Crocket – ele não diz “Not Yours to Give”, mas sim “Not Yours to Take… but, ok, give ti anyway”.

    As motivações dos seus apoiantes nos EUA já Russel Kirk as identificou há décadas: é gente tão ideológica que a realidade é a parte da vida que menos lhes interessa – querem lá saber do que faz Paul se ele diz aqueles delírios que os fazem salivar e até aparece na televisão nacional; porque ordem de razões podem os liberais portugueses gostar de um dos mais social-democratas legisladores republicanos, adversário da globalização e do comércio livre, já me escapa (excepto se for por simpatias metodológicas..). Bem, perdi umas duas horas a escrever isto, e está tão palavroso que provavelmente ninguém o lerá até ao fim, mas creio que apresento um caso bastante sólido contra o obstreta texano.

    Comentário por HO — Maio 30, 2007 @ 23:22

  26. [...] Comentário do leitor HO a este post (é longo mas vale a pena fazer o esforço de ler até ao fim, nem que seja para poder discordar com conhecimento de causa): Os apoiantes de Ron Paul na América são um bom ponto de partida – pode não ser sempre justo avaliar um político pelas paixões que suscita, mas não é exercício inútil. Sempre existiu uma margem de libertários americanos, desde os liceais objectivistas ou os causídicos das John Birchs que nunca aceitaram bem a derrota no que o Buckley chamou a “battle for the soul of the GOP” dos anos 60, nem a aliança com os dixiecrats, os anarco-capitalistas mais furiosos e o seres pantanosos que resultaram do lado negro do fusionismo (não por acaso, a maioria das críticas ao Meyer vieram precisamente de libertários) que não só nunca estiveram no GOP – na Great Coalition começada a construir por Goldwater -, como estiveram quase sempre contra ela, incluindo nos anos Reagan. A estes “Chirping Sectaries” (qualquer dicussão sobre Paul deveria começar com uma leitura deste artigo: http://emp.byui.edu/DavisR/202/Libertarians.htm), juntam-se os modernos thecno-libertarians e, por razões diferentes, mas também infectadas pelo ressentimento, algumas franjas do paleoconservadorismo. Recorrendo uma vez mais a Kirk, uma “ideological clique” – um grupúsculo extremamente activo e frenético, principalmente, ou quase exclusivamente, na internet, que faz um ruído dos diabos, completamente desproporcional em relação à importância que tem, atirando impenitentemente clichés mais ou menos etéreos sobre o textualismo constitucional ou de como estado e estatismo são conceitos indiferenciáveis (ou, nos casos mais ilustrados, na inutilidade de qualquer acção sem fundamentos praxeológicos) e vendo conspirações em todo o lado. [...]

    Pingback por O Insurgente » Blog Archive » O caso contra Ron Paul — Maio 31, 2007 @ 01:13

  27. “Bem, perdi umas duas horas a escrever isto, e está tão palavroso que provavelmente ninguém o lerá até ao fim, mas creio que apresento um caso bastante sólido contra o obstreta texano.”

    Bem, pelo menos eu li tudo e devo dizer que gostei de ler. Muito interessante, devo fazer referência no meu blog amanhã.

    E quanto à parte da recomendação dos livros ao Giuliani, bem HO, isso é mesmo um trauma com o homem! ;)

    Abraço

    Comentário por Bruno Gonçalves — Maio 31, 2007 @ 01:14

  28. E qual a probabilidade de o homem conseguir sequer a nomeação?

    Eu não iria ver as casas de apostas….

    Mas isto prova que Paul é, na realidade, mais um isolacionista, que provavelmente levaria os EUA a um fechamento e a globalização económica a um recuo (e muita gente de regresso à pobreza) do que um não-intervencionista em termos militares.

    Isto prova que há quem não se tenha dado ao trabalho de ler o que Paul defende a propósito do comércio exterior dos Estados Unidos – nomeadamente que o Congresso não deve impor tarifas alfandegárias para todos os Estados, tal como não deve negociar acordos de comércio livre em nome de todos os Estados – centralismo laissez-faire.

    Comentário por AA — Junho 1, 2007 @ 12:02


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