A notícia já tem uma semana, foi alvo de editorial de JMF no Público e referido aqui e aqui. No entanto, só agora tive acesso ao texto de JMF. Na sua parte final pode-se ler:
Conclusões? Que se as escolas escolhessem os professores, se os alunos escolhessem as escolas, se o Estado se limitasse a dar orientações gerais, em vez de dirigir, e desse um cheque-ensino aos alunos menos abonados que quisessem ir para uma escola mais exigente, ou melhor, privada e paga, ganharia a qualidade de ensino e o ministro das Finanças agradeceria. Só os interesses instalados se revoltariam.
Segue todo o artigo.
Fica em Arruda dos Vinhos, concelho rural dos arredores de Lisboa. É a única escola desse concelho que tem terceiro ciclo do ensino básico e, por esse concelho ter sido o único onde a média a Matemática nos exames nacionais do 9º ano foi positiva, o PÚBLICO visitou a João Alberto Faria. A reportagem foi publicada segunda-feira, mas vale a pena voltar ao tema. Porque essa escola é um manifesto vivo contra o tipo de políticas que têm degradado a qualidade do ensino em Portugal.Primeiro: naquela escola entende-se, e citamos, que “a massificação do ensino levou a um menor grau de exigência, mas a Matemática não se tornou mais fácil e mantém as dificuldades próprias da disciplina”- o que requer “esforço e trabalho”.
Segundo: naquela escola não se embarca em modas, prefere-se cultivar a exigência. Por isso “o grupo de Matemática é pouco atreito a algumas inovações pedagógicas”, por isso defende-se que “saber a tabuada é mais importante do que saber utilizar a calculadora”, por isso interditaram mesmo a sua utilização no 2º ciclo.
Terceiro: como sem bons professores não há boas escolas, na Alberto Faria todos os professores são entrevistados antes de serem contratados, explicando-se-lhes qual a filosofia da escola e avaliando se os candidatos estão à altura do que se lhes vai pedir.
Quarto: não há nenhuma relação inelutável entre os bons resultados de uma escola e o nível sócio-económico da região onde se insere. Arruda dos Vinhos está longe de ser um dos concelhos com mais poder de compra e na João Alberto Faria não se seleccionam os alunos, recebem-se todos, mais ricos ou mais pobres. Mais: recebem-se também alunos de concelhos vizinhos, porque, como explicou um aluno do 10º ano que quer ir para Medicina, nela “o nível de exigência dos professores pode ser compensado pelos resultados nos exames, que normalmente tendem a ser melhores”. Quem responde bem à exigência possui também o estímulo de figurar no Quadro de Honra da escola.
Quinto: uma direcção escolar focada em disciplinas como Matemática ou Português levou a que o tempo lectivo destinado ao Estudo Acompanhado fosse dedicado só a essas disciplinas. E quando acabam as aulas do 9.º ano os docentes estão disponíveis para dar aulas extra de preparação para os exames de Português e Matemática e ainda todas as que sentirem necessárias para o esclarecimento de dúvidas dos seus alunos.
Tudo o que atrás fica escrito permite que os bons resultados daquela escola se prolonguem no ensino secundário, tendo o ano passado ficado em 32º lugar nos rankings feitos a partir dos resultados a Matemática dos seus alunos no 12º ano. Uma boa posição, se nos lembrarmos que falamos de uma escola que não foi feita para alunos de elite.
Contudo, para o quadro ser completo, é necessário sublinhar outra: esta é uma escola privada. O seu nome completo é Externato João Alberto Faria. Mas os seus alunos não pagam para a frequentarem, pois, como é a única do concelho, tem um contrato de associação com o ministério. Estes contratos de associação são relativamente raros no país, havendo mesmo assim quem defenda que o Estado devia construir escolas públicas ao lado de estabelecimentos privados como este. Mesmo que tal saísse muito mais caro. E resultasse numa menor qualidade de ensino. Só que a Alberto Faria mostra como fazer o contrário pode resultar muito melhor.
Conclusões? Que se as escolas escolhessem os professores, se os alunos escolhessem as escolas, se o Estado se limitasse a dar orientações gerais, em vez de dirigir, e desse um cheque-ensino aos alunos menos abonados que quisessem ir para uma escola mais exigente, ou melhor, privada e paga, ganharia a qualidade de ensino e o ministro das Finanças agradeceria. Só os interesses instalados se revoltariam.
José Manuel Fernandes
“Por isso “o grupo de Matemática é pouco atreito a algumas inovações pedagógicas”, por isso defende-se que “saber a tabuada é mais importante do que saber utilizar a calculadora”, por isso interditaram mesmo a sua utilização no 2º ciclo.”
O único ponto (dos apresentados) que parece ser relevante para a questão do “eduquês” vs. “não-eduquês” é esse (os outros podem ser úteis para outros debates, mas não para esse).
Estou assumindo, claro, que com “eduquês” se estão a referir às teses que “a aprendizagem deve ser agradável” e que “a escola deve desenvolver o raciocínio e não a memorização”
Comentário por Miguel Madeira — Maio 28, 2007 @ 19:21
Excelente artigo de JMF.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 28, 2007 @ 21:45
Mas será que ninguém da direcção do CDS lê JMF?
Serão todos clones de LNG? Onde estão os liberais?
Comentário por Libertas — Maio 29, 2007 @ 00:20
Exactamente. O Estado devia pôr fim a esses contratos de associação e já !
Comentário por Pedro Sá — Maio 29, 2007 @ 09:50
Boas tardes.
É sempre bom saber que Arruda será conhecida por algo mais do que a saraivada sobre as vinhas e a neve na Carvalha.
Confesso que, nos últimos anos, tenho desenvolvido uma relação de amor-ódio com a terra que me viu crescer e onde ainda vivo. Campo é campo, e um universitário vê lá pouca gente verdadeiramente interessante. Mas um grande motivo de orgulho foi sempre o Externato. Há uns anos atrás, era ainda o Externato Irene Lisboa, tendo ficado com o nome actual após a morte do fundador.
O fenómeno de importação de alunos de outras localidades é já uma velha tradição do sítio. Alverca, Alhandra, Sobral de Monte Agraço (ou só “Sobral”, para nós; o sítio “do parque infantil” para os demais…) – todos estes sítios nos deram gente. Acho que a tendência ainda se mantém.
Numa palavra: qualidade. Coisa que nós temos. Aliás, os liceus desses sítios vizinhos eram conhecidos como a tábua de salvação de quem não dava uma para a caixa no nosso. Gente com negativas no EIL (agora EJAF) tinha positivas folgadas nos outros. Nas globais, a conversa era outra.
Eis a pequena grande diferença entre notas dadas e notas conquistadas.
Cordialmente,
Fernando Barragão.
Comentário por fbarragao — Maio 29, 2007 @ 14:11
Vivo em Madrid, o meu filho está na primária e vai a um colégio privado que é considerado um dos melhores de Madrid.
Pelo facto de o Colégio ter um acordo com o Sistema de Educação Publico, os custos de educação são comparticipados e eu só pago uns 100€ aos mês (em escolas não comparticipadas este valor subiria para um minimo de uns 300€/mês), sendo que a qualidade geral do ensino é bastante superior ao sistema Publico normal.
Creio que é um modelo que funciona bastante bem , pois alia uma boa gestão escolar e umas boas práticas educativas com uns custos finais bastante razoaveis para o aluno.
É um modelo que em minha opinião deveria ser mais explorado.
Comentário por ZumZumMataMoscas — Junho 14, 2007 @ 11:05
O racionalismo económico agradece…
Comentário por Jorge Serrano — Março 9, 2008 @ 20:22