O Insurgente

Abril 25, 2007

Deverão os liberais festejar o “25 de Abril”?

Arquivar em: Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 22:01

Deverá um liberal festejar o “25 de Abril”? Por Luís Aguiar Santos.

Ano após ano, as comemorações do “25 de Abril” estão enredadas numa série de equívocos que seria pueril esperar que políticos ou jornalistas desfizessem. Supostamente, festejamos nessa data a “democracia”. Mas qual “democracia”? A que estava pressuposta no abraço frentista entre Álvaro Cunhal e Mário Soares dias depois do golpe de estado (que não seria muito diferente da dos oficiais da Coordenadora do M.F.A.)? Ou a que estava pressuposta na acção do general Spínola (e que, doa a quem doer, é aquela que hoje temos e quase todos defendem)?

Ao contrário do que possam pensar alguns distraídos, os liberais identificam-se com muito pouco no regime derrubado em 1974: não gostam de um figurino “constitucional” que limitara bastante as liberdades individuais instauradas no século XIX (e não na I República, como os mesmos distraídos pensam); não gostam da arbitrariedade com que o poder executivo se permitia violar as liberdades restantes; não gostam do monopólio político e sindical que o Estado patrocinava (União Nacional e estrutura corporativa); não gostam do regime económico profundamente regulado e proteccionista que fôra herdado do passado, mas que Salazar aperfeiçoara, sistematizara e tornara ainda mais pesado; não gostam da férrea regulação da educação e das actividades culturais que a burocracia e a polícia impunham.

Talvez tenham alguma simpatia pela geral ordem financeira em que o Estado vivia e pela política do “escudo forte”; mas, convenhamos, é pouco quando tanto estava tão mal. No que os liberais divergem dos “democratas de Abril” é no pouco entusiasmo com que olham para a cultura política que surgiu em 1974 como alternativa ao Estado Novo.

(…)

Este monopólio esquerdista em torno da data tem tido vários efeitos inaceitáveis: a glorificação dos militantes comunistas opositores de Salazar, como se este fosse pior que o totalitarismo que os primeiros defendiam; a impossibilidade de se assumir os erros gravíssimos cometidos nas antigas províncias ultramarinas, entregues pela Coordenadora do M.F.A. aos aliados locais da União Soviética, numa estratégia que o P.C.P. manobrou e poucos à excepção dos spinolistas tentaram contrariar; a repetição ad nauseam da boutade da “revolução sem sangue” (claro que os que morreram nas provncias ultramarinas só em 1974-75 e que foram muitos mais do que as baixas dos dois lados durante a guerra de 1961-74 não são contabilizados porque já não são portugueses…); a dura verdade de que o país viveu em regime de ditadura militar e não em “democracia” nos anos de 74 e 75, com prisões arbitrárias, sem sistema judicial nem respeito pela propriedade privada, numa situação que só teve paralelo nas outras duas ditaduras oficialmente inexistentes da nossa história, as dos “governos provisórios” e das assembleias de partido único de 1820-1823 e 1910-1913; o esquecimento conveniente da incontornável verdade que a “obra social” do novo regime foi uma pura continuação dos programas sociais já delineados pelo Estado Novo, com a diferença da rédea livre dada à despesa pública.

3 Comentários »

  1. Não. Um liberal gosta mesmo do 24 de Abril. Aí, sim, havia razão para festejar….Haja pachorra para estes liberais que detestam liberdade….

    Comentário por tonibler — Abril 25, 2007 @ 22:16

  2. “(claro que os que morreram nas provncias ultramarinas só em 1974-75 e que foram muitos mais do que as baixas dos dois lados durante a guerra de 1961-74 não são contabilizados porque já não são portugueses…)”
    _________________
    … “só em 1974-75 e que foram muitos mais do que (…)” Ó compadre, ele é preciso muito descaramento… mas é mesmo assim, hiperbolizar a coisa, inventir a eito, à toa, mentir à doida e à francesa, ihihi, este romanos, entre 74-75, são mesmo loucos, ai, são tolos!…

    Comentário por martin — Abril 25, 2007 @ 23:00

  3. [...] O Insurgente visto pela extrema-esquerda Arquivado como: Blogosfera, Comentário, Política, Portugal — André Azevedo Alves @ 1:19 pm Há uns dias em conversa com o João Miranda, eu dizia que me parece que boa parte das opiniões sobre a influência e impacto da blogosfera situam-se em dois extremos opostos, ambos incorrectos. Num extremo está a análise pessimista dos que – por pessimismo ou por terem expectativas irrealistas – reduzem essa influência a quase nada, ignorando o extraordinário crescimento da blogosfera nos últimos anos e os múltiplos sinais do seu crescente impacto. No outro extremo estão os que atribuem à blogosfera uma capacidade que esta manifestamente ainda não tem e parecem ignorar que, pelo menos no que diz respeito à política, a blogosfera é ainda um meio de influência geral muito limitada e quase sempre por via indirecta. Esta visão de extrema-esquerda sobre o (suposto) poder e influência d’O Insurgente parece-me uma excelente ilustração do segundo tipo de erro: Não é correcto associar-se o 25 de Abril somente à liberdade (ignorando a igualdade) porque, como é bem sabido (na blogosfera é o que não falta) há muita gente que defende a liberdade e não quer nada com a igualdade. A recente (com pouco mais de um ano) campanha para o branqueamento do ditador Salazar, que culminou na sua designação como “O Maior Português” num programa de televisão, teve origem na blogosfera que só defende a liberdade (mas que eu nunca vi defender a democracia). Aliás eu tenho cá para mim que a maior ameaça à democracia, presentemente, provém (não só em Portugal) dos chamados “libertários”, os defensores incondicionais da liberdade. Eles próprios dizem: o 25 de Abril não é o dia deles. [...]

    Pingback por O Insurgente visto pela extrema-esquerda « O Insurgente — Abril 25, 2008 @ 13:23


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