Já conhecia o socialismo científico, o modelo albanês, o cubano, o chinês, o africano/esquemático e tantas outras experiências socialistas de grande sucesso e de rosto humano, agora o socialismo divino e perpétuo, abriu uma nova página no campo da teoria política e eclesiástica.
Lamento, pelos venezuelanos.
O Presidente Hugo Chávez anunciou, na sexta-feira, que o seu Governo prevê até 2021 que a Venezuela se transforme numa «República socialista» e sublinhou que se manterá no poder «até que o povo e Deus queiram». (…)
Segundo Chávez, para cumprir com os objectivos, «exige-se limpar a nossa sociedade de tantos vícios dos valores perversos que herdámos do capitalismo e do imperialismo, das ânsias de riqueza material, de ser milionário, de ter elevação social, prestígio e valor».
«Esqueçamo-nos disso e tomemos Cristo no coração e na alma. Digamos que mais fácil será que um camelo passe pelo buraco de uma agulha que um rico entre no Reino dos Céus, que são bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus», prosseguiu.
Visto que Deus é o Senhor do Universo e da História, o Hugo será o querido líder da Venezuela enquanto Deus a isso não se opuser. Isto também se aplica aos restantes ditadores actualmente em actividade e também aos dirigentes políticos democraticamente eleitos. Deus tem a capacidade de fazer surgir o Bem do mal.
Quanto à crítica ao capitalismo, ao consumismo, à ganância e à ânsia de poder, esta é compatível com a doutrina católica. Veja-se, por exemplo, o que diz o Catecismo (n.º2423-2425). Não se trata de um rejeição total do sistema mas de uma crítica a determinados aspectos do mesmo (“She has likewise refused to accept, in the practice of “capitalism,” individualism and the absolute primacy of the law of the marketplace over human labor”).
Não pode isto ser entendido como um apoio ao sistema socialista que é rejeitado na sua totalidade, como se pode ler no ponto do Catecismo acima citado ( “The Church has rejected the totalitarian and atheistic ideologies associated in modem times with “communism” or “socialism.”)
Por outro lado, a utilização oportunista de passagens do evangelho em defesa de posições contrárias ao cristianismo não é algo original. Recorde-se que durante as tentações de Jesus no deserto, o demónio citou as Sagradas Escrituras em defesa da sua posição…
Mas não é necessário ir tão longe no tempo; no séc. XIX essa era uma prática comum, facto que levou o Papa Leão XIII a escrever:
“…socialists, stealing the very Gospel itself with a view to deceive more easily the unwary, have been accustomed to distort it so as to suit their own purposes, nevertheless so great is the difference between their depraved teachings and the most pure doctrine of Christ that none greater could exist…”
De seguida o Papa explica a verdadeira doutrina da igualdade entre os homens e a legitimidade da propriedade privada, critica a luta de classes e explica a forma como a Igreja actua nesta área.
É claro que todos podem jogar o jogo das citações oportunistas do Evangelho. Por exemplo, podemos por Jesus a criticar qualquer esforço de redistribuição de rendimento (Lc 12, 13-14):
“13Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14*Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?»”
É claro que a forma intelectualmente mais honesta de combater os argumentos chavistas é expor qual é a verdadeira doutrina cristã sobre a pobreza ou explicar que o messianismo político do Hugo transforma-o num anti-cristo(zito).
Dito isto, é preciso reconhecer que existe uma relação empírica muito forte entre pobreza e socialismo.
Comentário por João P. Noronha — Abril 14, 2007 @ 16:37
[...] Comentário do João P. Noronha ao post Socialismo Divino. [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Socialismo divino II — Abril 14, 2007 @ 21:08