O Insurgente

Março 4, 2007

A insegurança de José Sócrates

Arquivar em: Colunas, Política, Portugal — Bruno Alves @ 22:53

A Semana Política
25/02/07-04/03/07

O Primeiro-Ministro, José Sócrates, escolheu discutir, no debate mensal na Assembleia da República, o tema da segurança interna, mostrando assim o quão inseguro estava no que diz respeito à actuação do seu governo em àreas como o Serviço Nacional de Saúde ou o emprego. É certo que Sócrates não vê diferenças entre a Assembleia e os almoços regados a Powerpoint que organiza todos os dias: tudo é um palco para o seu espectáculo de propaganda. Mas nesta ocasião, não foi apenas o “socrático” desejo de “marcar a agenda” que o levou a escolher esse tema, mas também (e essencialmente) o seu desejo de fugir à “agenda” que marcara os dias que haviam antecedido o debate. Desejo que, escusado será dizer, não partilhava com os deputados da oposição.

Na sua intervenção inicial, Sócrates anunciou que passaria a existir apenas um “chefe” para as quatro principais forças de segurança, uma medida enquadrada numa ampla reestruturação das ditas forças, que implicará também mudanças nas suas regras de acesso, bem como a possibilidade de alterações no seu número de postos. Claro que Alberto Martins, líder da bancada parlamentar do Partido Socialista, não se cansou de mostrar o quão “moderno” e “essencial” era o que o Primeiro-Ministro viera propôr. Mas Luís Marques Mendes, líder do PSD, não negando o carácter “essencial” da questão da segurança, considerou que “os portugueses” estavam “mais preocupados” com outras questões como a Economia e a Saúde, onde vêem “muitos anúncios” mas “poucos resultados”. O líder laranja lembrou o chefe de governo que o poder de compra dos cidadãos havia baixado, enquanto o desemprego havia seguido o sentido inverso, acompanhado dos impostos.

Sócrates propôs-se “avivar” a memória de Marques Mendes, acusando-o de ter pretendido “reformar” e “redimensionar” a rede de Urgências e agora estar contra tais medidas. Queria com isto mostrar a “incoerência” do seu opositor, mas apenas mostrou a sua própria desonestidade. Pois não é difícil de perceber que Marques Mendes (concorde-se ou não com ele) pode querer uma “reforma” diferente da que o PS propõe (coisa que o próprio Mendes não se esqueceu de lembrar). Fingir esquecer isto pode ficar bem na televisão, mas fica mal a um Primeiro-Ministro que se orgulha da sua “autoridade moral”. Como muito mal lhe fica, aliás, desvalorizar (de forma “autista”, classificou Mendes) os níveis do desemprego, quando em campanha eleitoral prometeu 150 mil empregos (questão que todos os partidos lembraram).

A prestação do Prmeioro-Ministro no parlamento não foi dos espectáculos mais dignificantes a quese pode assistir. Um estudo recente, divulgado também esta semana, revelou que os portugueses “confiam mais no futuro” que os outros europeus. A avaliar pelo que se viu no debate de quarta-feira, só se for por não acreditarem que as coisas possam ficar piores.

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