O Insurgente

Fevereiro 14, 2007

Pontos de Fuga

Arquivado como: Política, Pontos de Fuga — Adolfo Mesquita Nunes @ 12:33 pm

A “nova direita” e o referendo 

O fascínio pela “nova direita”, a que um dia chamei Geração Orfã, vem aumentando a olhos vistos. Começou por fascinar aqueles que a enformam, entusiasmados com uma blogosfera que lhes permitiu aspirar, com optimismo, a um novo movimento de ideias. E parece entusiasmar agora a velha esquerda, que não lhe regateia elogios, e a coloca, aliás, entre os vencedores deste referendo.

Ora, salvo o devido respeito, essa atenção que a esquerda tem prestado à nova direita assenta em pressupostos totalmente errados, que aliás contrariam os alicerces, se é que os há, desta nova geração a despertar para a política.

O que a caracteriza é essencialmente a sua ampla liberdade e autonomia de pensamento político. São pessoas que não escolhem entre o que existe, mas criam novas alternativas. Quem fundam a sua consciência política com referencias individualmente seleccionadas e não por remissão a programas partidários.

Se assim é, pretender que a nova geração de direita tenha votado em bloco no “sim” neste referendo é, desculpem a franqueza, uma verdadeira tontice. E pretender que quem tenha votado “não” o tenha feito contrariando os pressupostos desta “nova direita” é uma tontice ainda maior.

É um facto que aqueles que votaram “sim” tiveram uma exposição maior. Falo, como calculam, por experiência própria. E é natural que a exposição tenha sido maior porque, de facto, esse voto contrariou as tendências de voto dos partidos da direita. Mas isso não significa que aqueles que votaram “não” o tenham feito por obediência a tais tendências.

Se houve um papel importante que esta nova geração desempenhou neste referendo foi o de ter demonstrado aos actores políticos que não mais podem contar com obediências cegas aos directórios partidários. Penso que ficou claro que nem o PSD nem o CDS podem já esperar que os jovens que tradicionalmente se inserem nos seus eleitorados votem necessariamente nas indicações que os partidos oferecem. Porque, de facto, não votam. E, quando contrariam tais indicações, fazem-no sem qualquer peso na consciência.

Essa realidade motivou, precisamente, uma atenuação do discurso ideológico por parte do “não”, que se viu obrigado a reconhecer a existência de uma enorme massa de gente que precisava de ser convencida e que não partilhava da extrema convicção de valores que os adeptos do “não” ostentavam. Isto é, do lado do “não” foi correctamente entendido que as profundas convicções que motivavam o seu voto não eram sentidas por todos aqueles que tradicionalmente votam à direita, pelo que surgiram, nos derradeiros momentos, propostas alternativas destinadas a cativar tal eleitorado.

Não fui, como sabem, cativado por essas alternativas. Mas, como igualmente deixei claro, considero que tais alternativas eram legítimas e conceptualmente correctas pelo que, sem qualquer hesitação, admito que muitos dos que, à direita, não se reviam no “não”, tenham hesitado no sentido de voto inicialmente traçado e o tenham alterado em conformidade.

Como igualmente não vejo qualquer contradição entre o voto “não” e a pertença a esta nova geração. Evidentemente que não falo do “não” intolerante, raivoso, que olha para os seus adversários como assassinos, como facínoras ou gente desprovida de escrúpulos. Mas, que diabo, por que carga de água é que o voto “não” poderia ser considerado uma não-alternativa? A “nova direita” não se caracteriza por contrariar os partidos. Apenas por pensar sem ser por eles. Uns dias de acordo, outros em desacordo.

Se assim é, o que continua a merecer atenção na “nova direita” é a sua liberdade e autonomia. E não, como agora parece pretender a esquerda deslumbrada, a sua rebelião contra as ideologias defendidas pelos partidos da direita.

2 Comentários »

  1. Caro Adolfo,
    Excelente análise, como aliás seria de esperar:)
    RAF

    Comentário por Rodrigo Adão da Fonseca — Fevereiro 14, 2007 @ 12:39 pm

  2. “…os seus adversários como assassinos, como facínoras ou gente desprovida de escrúpulos.” Como por exemplo? O AAA linkou por exemplo o post da Mafalda do blogue do não, que sumariamente designava os votantes do sim por terroristas…

    Comentário por Filipe Castro — Fevereiro 14, 2007 @ 3:24 pm

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