É uma honra para O Insurgente ter a oportunidade de divulgar um texto de José Manuel Moreira reagindo a um artigo de São José Almeida no Público de 16 de Dezembro, artigo esse em que Hayek é caluniado de forma grosseira fazendo lamentavelmente eco de numerosos erros e imprecisões facilmente evitáveis:
Entre as inúmeras afirmações admiravelmente erradas – aparecidas na crónica de São José Almeida (SJA) intitulada “Relativismo” (Público, 16.XII.06, p.12) – há uma que não quero deixar sem reparo. Trata-se da afirmação relativa ao maldito Augusto Pinochet (“versus” o quase bendito São Allende), onde se diz: “depois de ter sido o responsável pela transformação do Chile num laboratório de experiência de economia liberal (foi o próprio Friedrich Von Hayeck que louvou o Chile por ser um exemplo de como era possível haver liberdade económica absoluta sem liberdade política)”. Pergunta-se o que diria a admirável jornalista se a experiência fosse de economia não-liberal? Já sei, vamos ter oportunidade de ficar a saber aquando da anunciada morte de Fidel Castro.
Mas o ponto principal vai para o que está entre aspas e que já há muito não aparecia. É costume associar Friedman à coisa, mas é muito raro ir mais além. Só que a ignorância às vezes é bastante atrevida. Para Hayek (não “Hayeck”) a Liberdade é só uma: o que se pode (e deve) distinguir é entre a forma de escolher os governantes (regimes autoritários e regimes democráticos) e os limites ao poder de quem governa (liberalismo e totalitarismo). Por isso, em teoria, ele poderia admitir haver um regime autoritário e liberal (assim como um regime democrático e totalitário), mas o que nunca poderia era defender haver liberdade económica absoluta (ou liberdade política absoluta). Esta é uma afirmação absolutamente errada.
A senhora em causa, a propósito de uma afirmação de Madail de que “O futebol não tem lepra”, diz: “Pois não, mas a democracia tem regras. Regras legais e éticas, que não se compadecem com relativismo”. Ora bem, era o que também teria dito Hayek: por isso sempre insistiu nas críticas à democracia ilimitada. Uma das poucas vezes em que, por insistência do entrevistador, se pronunciou – ainda que indirectamente – sobre a ditadura de Pinochet, foi numa entrevista em Madrid (em 1986). A pergunta era sobre o facto de muitas ditaduras serem frequentemente apoiadas por aqueles que se declaram a favor da economia de mercado. Hayek respondeu:
“Sim, é verdade. Às vezes as pessoas perdem a paciência e as esperanças, porque têm uma capacidade bastante escassa, e se alguém insiste em levar as suas ideias à prática, é provável que caia na tentação de autorizar algum génio… Mas é um erro, creio que devemos resignar-nos diante do facto de que há metas que não podem ser alcançadas através do controlo deliberado dos seres humanos.”
Para um enquadramento histórico e teórico mais desenvolvido desta calúnia de que SJA se fez eco, veja-se o Cap. III de José Manuel Moreira, “Liberalismos: entre o Conservadorismo e o Socialismo” (Ed. Pedro Ferreira, Lisboa, 1996).
José Manuel Moreira
Professor Catedrático da Universidade de AveiroP.S.: Texto enviado à direcção do Público, pedindo a sua publicação.
Resta saber quem calunia e quem branqueia…
Eu, pela minha parte, fico satisfeito por ainda podermos contar, na imprensa escrita, com jornalistas da estirpe de São José de Almeida. E feliz/ que, na minha trajectória escolar, fui poupado a sumidades como o prof. José Manuel Moreira.
Fica a citação:
At times it is necessary for a country to have, for a time, some form or other of dictatorial power. As you will understand, it is possible for a dictator to govern in a liberal way. And it is also possible for a democracy to govern with a total lack of liberalism. Personally I prefer a liberal dictator to democratic government lacking liberalism. My personal impression — and this is valid for South America – is that in Chile, for example, we will witness a transition from a dictatorial government to a liberal government. And during this transition it may be necessary to maintain certain dictatorial powers, not as something permanent, but as a temporary arrangement.
F. Hayek
Comentário por Luís Marvão — Dezembro 19, 2006 @ 19:52
Caro LM,
A distinção entre a forma de escolher os governantes (regimes autoritários e regimes democráticos) e a forma de exercer e limitar (ou não) o poder de quem governa (liberalismo e totalitarismo). a que a passagem se refere é exactamente a mesma a que o Prof. JMM faz alusão no texto.
A calúnia “foi o próprio Friedrich Von Hayeck que louvou o Chile por ser um exemplo de como era possível haver liberdade económica absoluta sem liberdade política” é não só falsa como absurda. Para quem tenha um mínimo de conhecimento da obra de Hayek (algo que manifestamente não acontece com SJA que mais uma vez escreve sobre o que não sabe) a frase nem sequer pode fazer sentido.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 19, 2006 @ 20:08
Já agora, também é interessante que a “personal impression” de Hayek (numa passagem aliás já referida aqui no Insurgente) se tenha revelado inteiramente correcta.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 19, 2006 @ 20:10
“E feliz/ que, na minha trajectória escolar, fui poupado a sumidades como o prof. José Manuel Moreira.”
Tem o Luis Marvão pelo menos essa desculpa para escrever o que escreve, ainda que a ignorância não deva a meu ver ser motivo de orgulho.
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 19, 2006 @ 20:11
Cada um tem o que merece.
Infelizmente, Luís Marvão não mereceu mais do que a mediocridade.
O Professor Moreira não é só um dos mais fascinantes intelectuais portugueses; é, também, um ser humano fantástico.
Comentário por mhm — Dezembro 19, 2006 @ 20:23
“Cada um tem o que merece.”
Nem sempre, nem sempre…
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 19, 2006 @ 20:25
“Mas o ponto principal vai para o que está entre aspas e que já há muito não aparecia. É costume associar Friedman à coisa, mas é muito raro ir mais além. Só que a ignorância às vezes é bastante atrevida. Para Hayek (não “Hayeck”) a Liberdade é só uma: o que se pode (e deve) distinguir é entre a forma de escolher os governantes (regimes autoritários e regimes democráticos) e os limites ao poder de quem governa (liberalismo e totalitarismo). Por isso, em teoria, ele poderia admitir haver um regime autoritário e liberal (assim como um regime democrático e totalitário), mas o que nunca poderia era defender haver liberdade económica absoluta (ou liberdade política absoluta). Esta é uma afirmação absolutamente errada.”
Ora esta passagem enferma de desonestidade (em teoria?). Porque liberdade absoluta é coisa difícil suceder; os filósofos do Idealismo Alemão escreveram entregaram a sua vida a tema tão espinhoso. Mas o que entende o excelentíssimo catedrático por liberdade absoluta? Enfim, uma pequena habilidade retórica do sr. professor.
Do prof José Manuel Moreira já li alguns artigos de opinião. E neles não vislumbrei sombra de brilhantismo (Ó mhm, é preciso viver num mundo mt cinzento para considerar esta personalidade como “um dos mais fascinantes intelectuais portugueses”).
E este é mais um exemplo, apenas se distinguindo pela deselegância com que trata a jornalista do PÚBLICO.
Comentário por Luís Marvão — Dezembro 19, 2006 @ 20:52
“O Luís Marvão não mereceu mais do que a mediocridade”
O Marvão não é mediocre. Ainda não encontrou foi o Caminho da Verdade
A sua recusa em ler Hayek tem contribuido para isso.
Comentário por Miguel — Dezembro 19, 2006 @ 20:55
“O Professor Moreira não é só um dos mais fascinantes intelectuais portugueses; é, também, um ser humano fantástico. ”
Concordo! E não vivo assim tão longe do Marvão para o meu céu ser diferente do dele.
Comentário por Miguel — Dezembro 19, 2006 @ 20:57
o meu comentário contém algumas incorrecções de forma:
Deve ser lido assim:
Ora esta passagem enferma de desonestidade (em teoria?). Porque liberdade absoluta é coisa difícil de suceder em vida; os filósofos do Idealismo Alemão entregaram a sua vida a tema tão espinhoso. Mas o que entende o excelentíssimo catedrático por liberdade absoluta? Enfim, uma pequena habilidade retórica do sr. professor
Ó Miguel, eu vejo o céu com outras cores
Comentário por Luís Marvão — Dezembro 19, 2006 @ 21:03
Pode ser das lentes…
Comentário por Miguel — Dezembro 19, 2006 @ 21:05
As you will understand, it is possible for a dictator to govern in a liberal way. And it is also possible for a democracy to govern with a total lack of liberalism.
“As you understand” quer dizer compreender-conceber, não compreeder-tolerar, daí tanta confusão com alguns comentadores. O resto da citação passa-se já no domínio do grotesco iliberal, “dos males o menor”, não é uma apologia doutrinária…
Comentário por AA — Dezembro 19, 2006 @ 21:11
devemos resignar-nos diante do facto de que há metas que não podem ser alcançadas através do controlo deliberado dos seres humanos
o fatal conceit.
Comentário por AA — Dezembro 19, 2006 @ 21:18
A república Romana, antes de ser o Império, usava a figura do “ditador” sem a conotação que se dá hoje. Era nomeado um ditador pelo Senado em tempos de emergência extrema por um período, creio de 2 anos, com poderes excepcionais.
Creio que funcionou assim sem grande problema para a república até… bem até Júlio César, que defendia curiosamente mais democracia (os democratas tinha sido esmagados por Cícero uns anos antes) com redistribuição de terras, etc.
A ironia da história não tem limites. É César que tem o apoio popular, pelas invasões da Gália começando assim o populismo imperialista (ele já existia mas ainda controlado), derrota a oposição e declara-se “DItador” permanente.
Bem, Pinochet foi o ditador quase permanente para combater o comunismo e as nacionalizações.
O problema do comunismo é que levanta uma questão de legitima defesa. A expropriação em massa passando-se ás ilusões da propriedade colectiva dá o direito de legitima defesa.
Comunismo e não comunistas não conseguem viver no mesmo espaço territorial. Só pela força. Este confronto levanta questões para quem está (mas não é) próximo de algum pacifismo. A verdade é que o comunismo não funciona. Aqui ser pacifista é apenas esperar que deixe de funcionar. Tem a vantagem das ilusões cairem por terra mias tarde mais cedo. Dito isto, a legitima defesa – o direito de resistência também pode ser evocado.
Comentário por CN — Dezembro 19, 2006 @ 22:10
Para melhor elucidar o António Amaral:
“What opinion, in your view, should we have of dictatorships?
Well, I would say that, as long-term institutions, I am totally against dictatorships. But a dictatorship may be a necessary system for a transitional period. At times it is necessary for a country to have, for a time, some form or other of dictatorial power. As you will understand, it is possible for a dictator to govern in a liberal way. And it is also possible for a democracy to govern with a total lack of liberalism. Personally I prefer a liberal dictator to democratic government lacking liberalism. My personal impression — and this is valid for South America – is that in Chile, for example, we will witness a transition from a dictatorial government to a liberal government. And during this transition it may be necessary to maintain certain dictatorial powers, not as something permanent, but as a temporary arrangement.”
http://www.fahayek.org/index.php?option=com_content&task=view&id=121
Comentário por Luís Marvão — Dezembro 19, 2006 @ 22:52
«A república Romana, antes de ser o Império, usava a figura do “ditador” sem a conotação que se dá hoje.»
Curiosamente, nos primeiros tempos do Estado Novo também.
Comentário por Mário — Dezembro 19, 2006 @ 23:40
Aqui está:
http://www.oinsurgente.org/2006/11/07/hayek-sobre-ditaduras-democracias-e-salazar/
Comentário por André Azevedo Alves — Dezembro 19, 2006 @ 23:43
[...] Para quem ainda não leu: José Manuel Moreira sobre artigo de São José Almeida [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Hayek e as ditaduras (2) — Dezembro 20, 2006 @ 15:19
[...] Foi hoje publicada na secção de cartas dos leitores do Público a resposta de José Manuel Moreira ao artigo de São José Almeida. [...]
Pingback por O Insurgente » Blog Archive » Hayek vs São José Almeida — Dezembro 21, 2006 @ 15:55
Em relação a José Manuel Moreira, e à sua defesa do livre mercado, liberalismo economico, etc, etc, etc…esgotam-se os assuntos e argumentos para continuar a escrever livros com mordaças para os alunos.
A sociedade está podre e minada por esta ordem economica sem regras, é sim urgente criar, educar e formar integralmente os individuos para agirem de acordo com máximas universais válidas pelo seu todo. Quanto a Hayek, as suas teorias e pensamentos estão ultrapassados, urge o equilibrio entre o que se tem no presente e o que se deseja para o futuro. Foi precisamente devido ao liberalismo economico e falta de controlo e regulamentação dos governos, que o capitalismo proliferou minando as estruturas da sociedade, doravante, tal como refere Gilles Lipovetsky é o “vazio que nos governa”.
Comentário por S.A. — Fevereiro 23, 2010 @ 12:57