Os sinos dobram por nós

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O fio da navalha russa

Teve lugar, no passado dia 24 de Novembro, mais uma cimeira entre a União Europeia e Putin. O diálogo foi difícil e, também devido ao bloqueio polaco às negociações entre as duas partes, estava condenado ao fracasso. Os países europeus estão lentamente a compreender o que Putin quer fazer da Rússia e, naturalmente, a ficar nervosos. Se fazem bem, melhor seria se agissem. Mas vamos por partes.

A Rússia, depois do que foi o descalabro do império soviético, descobriu o proveito que podia tirar dos seus recursos naturais. É muito interessante perceber que, se o crescimento económico das agora potências emergentes e demais países asiáticos se deve à queda do império soviético e ao fim do esquema mental dominante na Guerra Fria, a Rússia também acaba por ganhar com o desenvolvimento que grassa pelo planeta. É claro como a água: Quanto mais os países produzem, maior a procura de matérias primas, cujo preço sobe vertiginosamente. Putin percebeu o segredo da coisa, ganhou dinheiro, estabilizou o país, conseguiu o respeito da população e começou a chantagear os vizinhos. Foi o regresso à lógica imperial.

Sucede que, para azar do presidente russo, o mundo anda mais depressa que a sua inteligência. A Rússia está rica, mas não próspera e, para acompanhar os seus rivais como sejam a China e a Índia, necessita de capital. De investimentos que só podem vir de fora. De acordo com o Wall Street Journal, nos últimos 18 meses, cerca de 5 empresas russas produtoras de aço, lançaram ofertas públicas de venda nos mercados mundiais para aumentarem os seus capitais. As operações não têm sido um fracasso, mas também não se tornaram no sucesso que seria de esperar. Há imensos riscos em investir no mercado russo que se prendem com a mentalidade muito pouco capitalista que há por lá, a que acresce a incerteza do que venha a ser o período pós-Putin, já em 2008. O resultado é que o mercado russo vê muitos investimentos estrangeiros serem canalizados para o Brasil, a China e a Índia. Para qualquer dos três, menos para si. O que é preocupante, na medida em que há um enorme receio que tudo descambe no dia em que Putin sair (se sair) do Kremlin.
Ora, é com esta preocupação que os líderes europeus podem jogar. O ambiente no Kremlin está perto do paranóico, com as mais variadas teorias da conspiração a circularem pelos seus corredores, um sentimento de desconfiança a cheirar a violência que pode despoletar a qualquer momento. Limpezas políticas muito conhecidas por aquela gente, cujos preparativos, por vezes, saem para os jornais. É preciso muito cuidado para não assustar a linha dura russa, mas também um grande tacto para não ceder a chantagens. Como bem o recorda Paul Dibb, no seu ensaio “The Bear is Back”, publicado na última edição da American Interest, a Rússia tem todas as razões para estar assustada: Perdeu a Ucrânia, a Bielorússia, a Moldávia, os países Bálticos, o Cáucaso e a Ásia Central. Não tem fronteiras naturais nem com a Europa, nem com a China. Mais que desenvolver uma sociedade democrática, Putin precisa de criar uma Rússia forte. Esta é uma realidade com que temos de viver. Os líderes europeus, em 2007, vão ter de escolher se enfrentam a ameaça da Rússia de Putin ou, se ao invés, lhe entregam os países que a circundam, naquele que seja num mero cálculo de equilíbrio de poder. A navalha russa está aí e o seu fio passa por vezes demasiado perto do pescoço dos europeus.

‘Post’ corrigido de acordo com os comentários em baixo.

7 thoughts on “Os sinos dobram por nós

  1. então a russia não tem fronteiras com a china?
    da ultima vez que reparei ainda havia ali um pedaço grande entre a mongolia e a zona da peninsula da coreia.

  2. “ofertas públicas de aquisição nos mercados mundiais para aumentarem os seus capitais”

    André,

    É melhor confirmares na fonte mas se se trata de aumentar capitais creio que devem ser “ofertas públicas de venda”.

  3. “Perdeu a Ucrânia, a Bielorússia, a Moldávia, os países Bálticos, o Cáucaso e a Ásia Central.”

    Infelizmente ainda não perdeu realmente a Bielorrússia. Só assim se explica que Lukashenko continue com todo o à vontade a dominar o país e tiranizar os bielorrussos…

    Lukashenko que, tal como Chavez, ganhou por larga margem as “eleições”. É assim a “democracia”…

  4. Só para corrigir, o Brasil recebe menos investimento que a Rússia, ninguém precisa ficar preocupado conosco, não estamso crescendo, estaremos sempre aqui atrás vendo a banda passar…

    http://www.ft.com/cms/s/6fd3b4c6-833b-11db-a38a-0000779e2340.html

    India and China are the only real Brics in the wall

    By John Lloyd and Alex Turkeltaub

    Published: December 4 2006 02:00 | Last updated: December 4 2006 02:00

    Few concepts have gained more currency among business people and politicians in recent years than the idea of the Brics – the giant, emerging economies of Brazil, Russia, India and China, whose weight and influence is supposedly changing economic and political realities. Grouping the four, however, obscures a simple fact: while the rise of China and India represents a real shift in the power balance, Russia and Brazil are marginal economies propped up by high commodity prices. This difference has profound implications.

  5. E aí AAA, quando o ajuste nos preços das commodities vier, Putin será uma ameaça maior ou menor à estabilidade da região?

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