Sobre os eventos que levaram à criação d’O Indivíduo: Breve relato de um atentado à inteligência, por Alvaro Velloso.
Duas horas depois do início da distribuição do jornal, no dia 19 de novembro, fomos cercados por mais de cinqüenta pessoas que berravam, enfurecidos: NAZISTAS! FASCISTAS!
Todos negavam o nosso direito de fazer um texto humorístico sobre o movimento artístico de alguns alunos da PUC, a “Cambralha”. Todos diziam que o texto sobre a consciência negra era racista. Chegaram a querer colocar contra nós os seguranças da PUC, que são negros, dizendo para eles que defendíamos a raça pura e o extermínio dos negros. Ainda bem que os seguranças não lhes deram ouvidos, pois foi só graças à ação deles que saímos de lá vivos.
Fomos levados a um representante da vice-reitoria comunitária. Ele fez uma leitura dinâmica do jornal, supervisionada por dois representantes da Cambralha, circulou com pilot fluorescente o editorial, os artigos do Pedro e o artigo do José Roberto. Na capa do jornal escreveu: Recomendo Apreensão.
Dito e feito. Alguns minutos depois a segurança tinha ordens expressas de recolher todos os exemplares de “O Indivíduo”. Enquanto isso, a multidão que berrava contra nós e ameaçava queimar os jornais junto com nossos corpos crescia.
O raciocínio é simples: se um sujeito ameaça te matar, isso é uma bobagem. Agora, se um sujeito armado ameaça te matar, é bom você começar a se preocupar. Assim era a situação: o grupo enraivecido de cem alunos ameaçando matar três.