Leitura recomendada: Eleições americanas, no Margens de erro.
Não tenho tido disponibilidade para seguir as sondagens nem a campanha com a atenção que gostaria, mas pelo que tenho visto e pelo passado recente em termos de eleições apostaria numa tomada democrata da Câmara dos Representantes (com uma maioria não muito grande) e num Senado empatado ou muito perto disso.
Em eleições anteriores, os resultados republicanos dependeram da elevada mobilização do eleitorado da direita socialmente conservadora e do voto útil de parte substancial da direita liberal. Se nestas eleições a mobilização do primeiro grupo tiver uma quebra substancial e no segundo grupo houver muitos eleitores cansados de dar o benefício da dúvida a uma administração que se tem notabilizado pelo despesismo dificilmente o GOP evitará um mau resultado. E talvez não venha em má altura.
Mark Blumenthal, do site a quem eles linkam, deu a vitória a Kerry nas eleições de 2004, para além de ter falhado desastrosamente mais umas quantas corridas congressionais. A mim não me volta ele a enganar.
A margem nos quatro assentos renhidos no Senado é tão reduzida que ainda pode cair para os dois lados. E no Tennessee, onde Harold Ford chegou a ser uma esperança forte, a corrida já acabou. Se tivesse que apostar (e graças à Ladbrokes, posso) diria que o Senado vai ficar 50-50, isto tendo em conta que um dos 50 Democratas vai ser Lieberman, que corre como independente. Alguém quer cobrir as minhas 25 libras?
Comentário por ARL — Novembro 6, 2006 @ 22:46
“Tudo depende do que acontecer em quatro estados: Montana, Missouri, Viriginia e Maryland.”
Faltam aqui New Jersey, Tennessee e, essencialmente, Rhode Island (as sondagens têm demonstrado uma subida do Chafee desde a última semana e a corrida para governador também está renhida, com vantagem para o republicano, o que o pode favorecer). Caso exista uma onda democrata, similar à da Republican Revolution de 94, caem todos para os democratas (nesse caso, até Arizona estaria em perigo – seria embasbacante, ver o Kyl a perder a reeleição). Tudo parece indicar que assim seja, que haverá uma varridela, com mais ou menos força – os indicadores mostram o GOP numa situação ainda pior que a dos Democratas em 1994 (e até este “late surge” nas “generic polls” é idêntico). Outra hipótese é a “onda” esbater nos diques da fidelidade e motivação do eleitorado republicano. As sondagens (particularmente a última da Pew) revelam que, uma vez mais, a máquina de GOTV do GOP está a funcionar melhor que a democrata (existe uma diferença substancial entre os eleitores de uns e de outros que já foram contactados para votar). Francamente, duvido que seja possível recuperar tanto terreno, em condições tão adversas. E seria sempre necessári que os independentes ficassem em casa – como é habitual em midterms, o que, pelo que se vai sabendo do early voting, não está a acontecer. É certo que os democratas não têm nada parecido com o Contract with America (vão ganhar estas eleições um bocado “à Forrest Gump”), mas a vontade de mudança é tanta que acabará por ser prescindível.
ARL: em 2004 ninguém conhecia o potencial da actual operação de GOTV republicana, que se tinha iniciado, de forma ainda incipiente, nas intercalares de 2002. A diferença foi, essencialmente, feita aí. Actualmente, as sondagens já são modeladas tendo isso em conta (e também o maior turnout de voto republicano em midterms). É claro que o Ken Mehlman diz que melhoraram ainda mais, mas é difícil perceber como, considerando o macro-clima. Mas, enfim, sabe-se lá. Para uma pessoa da minha geração será um bocado estranho ver o Mehlman e o Rove a perderem uma eleição.
Quanto à Câmara dos Representantes, julgo que a dúvida será apenas relativa à dimensão dos ganhos dos democratas. Existindo onda, ganham mais de 40 lugares. Não existindo, ficarão com uma maioria mais curta. Mas caramba, o GOP não parece em condições de ganhar uma única cadeira democrata (talvez GA-12, mas é muito ténue). Deve ser a primeira vez na história que isto acontece (pelo menos pos-gerrymandering).
“…eleitorado da direita socialmente conservadora e do voto útil de parte substancial da direita liberal.”
O segundo grupo é negligenciável, para mais nos lugares em causa. Até porque a responsabilidade fiscal está longe de ser um top issue nestas eleições. Os dramas dos republicanos são a mobilização do eleitorado conservador (também pelo despesismo, é certo; mas a Administração não é a única culpada – provavelmente nem sequer é a principal); os péssimos resultados nos independentes centristas (iraque, iraque) e, principalmente, os ganhos democratas no voto evangélico.
Mas acho que se devem colocar as coisas na devida proporção: no sexto ano do Reagan, quantos lugares perdeu o GOP? No Senado, foram oito. Na Câmara, ficou reduzido a 177. Amanhã, nunca será tão mau. Na altura, fez-se alguma clarificação?
Comentário por HO — Novembro 7, 2006 @ 01:09