Parece que o meu caro colega insurgente Luciano Amaral me considera (juntamente com o Francisco Mendes da Silva) um indefectível defensor de David Cameron. De facto, houve aspectos da sua liderança que me agradaram. Como houve outros que provocaram alguma “preocupação”, e outros com os quais discordo. Uma explicação mais cuidada terá de ficar para outra altura. Mas para que a ideia de um Bruno Alves (pareço o Jardel a falar) cameroon até ao tutano não se instale na cabeça dos leitores deste órgão oficioso da CIA e dos Serviços Secretos de Sua Majestade, deixo alguns apontamentos: David Cameron tem um problema. Procura agradar a pessoas que vêem no seu partido o partido dos “ricos”, ao mesmo tempo que se procura manter fiel à sua tradição. Isto faz com que opte por recorrer a certos soundbytes que, rapidamente, se viram contra ele. Demasiado preocupado com a imagem, faz com que esta se posa vir a tornar contraproducente. É ainda cedo para fazer uma avaliação do que Cameron poderá trazer, mas este é um aspecto perigoso (para ele próprio) da sua liderança. Convém esclarecer que o que me agrada em David Cameron em nada tem a ver com o que Nobre Guedes disse na sua entrevista à RTP. O que Nobre Guedes quer “importar” da experiência de David Cameron é a “imagem”, os soundbytes, a “cosmética”, a que Cameron tem recorrido, e que é, como escrevi, o que de pior e mais perigoso tem a sua liderança.
Quanto ao conteúdo do artigo citado pelo Luciano, devo dizer que penso que Cameron faz bem em não prometer, agora, cortar impostos. Em primeiro lugar, porque promessas de corte de impostos a esta distância das eleições têm apenas um resultado: ninguém acredita nelas. Em segundo lugar, porque mesmo reconhecendo que impostos baixos promovem economias mais saudáveis, e são mais justos, acho que é mais prudente redefinir, em primeiro lugar, as funções do Estado (e Cameron tem aqui um discurso interessante, no que diz respeito à relação do Estado com os indivíduos na prestação dos serviços chamados de “sociais”), e só depois, definir o nível de impostos necessários para que o Estado desempenhe o papel que se considerar adequado. Claro que, defendendo um Estado que deverá ter um papel limitado, que deverá desempenhar um número limitado de funções, acho que os impostos devem ser mais baixos do que são na generalidade dos países europeus. Se Cameron pensa o mesmo ou não, se está ou não disposto a reformular a relação do Estado com os cidadãos britânicos, não posso garantir. Mas não há nada no artigo que o Luciano citou que me convença de que não estará. Do que estou convencido, isso sim, é de que é tão errado elogiar Cameron apenas na base da sua “política cosmética” de corte radical com a “imagem” do partido, como criticá-lo, exclusivamente, com base nesse mesmo elemento.